Viagem ao Japão faz convite à meditação e revela sociedade que organiza espaço para todos

Viagem ao Japão faz convite à meditação e revela sociedade que organiza espaço para todos

 

betty milan
Folha de S. Paulo, Opinião, 9 de julho de 2026

 

A cultura ocidental está centrada no indivíduo, cujo ego ela supervaloriza. À diferença de nós, os japoneses consideram que o homem é apenas um dos elementos do cosmos, um entre outros – montanhas, árvores, que eles veneram.

A fim de saber mais sobre isso, embarquei para o país do sol nascente com pouca bagagem e imensa curiosidade. Voltei depois de ter visto maravilhas e aprendido muito com uma cultura que privilegia a vida coletiva e organiza o espaço público de modo a propiciar bem-estar para todos. 

Nas ruas não há lixo e elas são silenciosas. Andando pela avenida principal de Ginza, o único barulho que eu ouvi foi o do grito de uma criança. Dois milhões de pessoas passam pela estação central de Tóquio, onde há uma sala de espera, mas também é possível sentar-se ao chão sem risco de se sujar. Assim que o xinkansen (trem-bala) chega e as pessoas descem do vagão, este é limpo antes da nova leva entrar. Durante a viagem, quase todos consultam o iPhone, porém ninguém fala ao celular. 

Além de respeitosos, os japoneses são prestativos com o estrangeiro. Mais de uma vez eu perguntei a um desconhecido se ele acaso podia me infornar como ir a um determinado lugar e ele me acompanhou até o meu destino. Compensam o fato de não entenderem bem o inglês ajudando como podem. Isso talvez tenha a ver com o budismo que preconiza equanimidade, sabedoria e compaixão.

A religião autóctone do país é o xintoísmo, que diviniza a natureza, celebrando os kami, espíritos sagrados que residem nas montanhas, nos rios, nas árvores. Um exemplo claro disso é o que se passa em Nikko, a cidade a aproximadamente uma hora de Tóquio. As montanhas são veneradas num complexo de templos, Nikko zan, que, pela importância histórica e a beleza, é patrimônio da Unesco. 

O xogunato que dominou o Japão durante todo o período Edo (1603-1868) quis fazer em Nikko uma capital que rivalizasse com Quioto, e é possível que o sítio tenha sido escolhido pela sua floresta de cedro, cenário grandioso do complexo formado por um templo budista – Rinno-ji –, um santuário onde são veneradas as três montanhas sagradas – Futorasan – e Tosho-gu, santuário feito por Ieyasu, o xogum que unificou o Japão.

O complexo foi fundado por Shodo Sonin, monge budista venerado pelos japoneses. Sonin construiu o templo que veio a ser Rinno-ji, onde há três imensos budas identificados com as três montanhas de Nikko, ou melhor, três vulcões.

O budismo e o xintoísmo ali coexistem sincrética e pacificamente. Quem visita fica maravilhado e pode pensar, como eu, que se o xintoísmo fosse a religião do mundo e a natureza cultuada em toda parte, o planeta não estaria tão ameaçado.

Nikko, a aproximadamente uma hora da capital, é uma das muitas maravilhas que o Japão oferece. Outra é o jardim Korakuen, um dos mais antigos de Tóquio, concluído em 1629. Pequeno oásis, com lagos, colinas artificiais e pontes em miniatura. Vi árvores cujas folhas parecem estrelas e me perguntei se estava no céu.

Quem está interessado na cultura japonesa se regala em Quioto, capital do país até 1868, ano em que os xoguns – senhores feudais – perderam o poder para o imperador e começou o período Meiji (1868-1912). O governo investiu em ferrovias e indústrias de base, criou um exército e uma marinha modernos, a educação básica se tornou universal. Graças ao imperador Mutsuhito, o Japão deixou de ser uma nação isolada, fechada sobre si mesma, e se tornou uma potência moderna.

Quioto tem oito museus e um sem-número de templos e jardins que se exportam para o mundo inteiro atraindo turistas. A cidade é a capital do zen-budismo, no qual eu estava particularmente interessada.

Kennin-ji, o templo zen mais antigo da cidade, foi fundado em 1202 por Yousai, que fez sua formação na China e levou de lá o chá para o Japão. Conhecido pelas imagens do deus do vento e do deus do trovão, Kennin-ji é maravilhoso pelos jardins. Num deles, há três pedras representando Buda e dois monges zen. Noutro, conhecido como jardim seco, há somente pedras e musgo.

Quem entra no templo, vê a imagem de Bodidarma, o monge do século V que introduziu na China o budismo Chan do qual se originou o budismo Zen. Bodidarma é representado com nariz proeminente, barba abundante e olhos encarquilhados, o seu aspecto é raivoso. Como se tivesse sido brutalmente interrompido durante a meditação. Apesar dos inúmeros turistas estrangeiros e japoneses que visitavam o lugar, o ambiente era de serenidade e eu fiquei meditando.

Outro templo zen que eu fiz questão de ver foi Saihoji. A visita teve que ser marcada com muita antecedência e implicou primeiro no exercício de uma prática espiritual budista, a cópia de sutras. Para tanto, o visitante recebe o papel da cópia e uma caneta de caligrafia, além de um texto que o orienta. Deve se sentar numa posição confortável, fechar os olhos e escutar o silêncio a fim de se acalmar. Ato contínuo, deve respirar profundamente cinco vezes e só então copiar os sutras de cima para baixo e da direita para a esquerda.

Gostei de começar a visita com a escrita, que prepara para ver o singularíssimo jardim de musgo. O zen não valoriza o musgo por acaso. Trata-se de um componente importante do que os japoneses chamam de wasabi, uma estética para a qual a beleza está no que é simples e silencioso. Acaso será por influência do budismo zen, que é minimalista?

A visita a Sahoji me deixou com esta pergunta, mas também com uma frase apaziguadora que se encontra no seu site: «Só é preciso conhecer o necessário».

Seja como for, uma certeza eu trouxe comigo na volta do Japão, a de que o país do sol nascente é uma referência na organização do espaço público.