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P: Reunidas assim em uma trilogia, as personagens dessas três ficções parecem uma mesma mulher em diferentes estados de sua vida afetiva, da falência do amor à reconstrução e, por fim, o verdadeiro amor. É válida essa impressão?
BM: São três personagens independentes. Nasceram em épocas diferentes da minha vida. A primeira quando eu acabei a análise com Lacan. Foi um jorro incessante, uma grande surpresa, mas resultou num texto pequeno, o mais poético dos textos da Trilogia. Esta mulher do Sexophuro vive uma grande decepção amorosa, a sua relação com o sexo oposto é impossível porque ela quer ser livre e o machismo é contrário a isso. Nem nome ela tem e ela se torna escritora para fazer o luto do marido e conquistar um nome. Trata-se, na verdade de uma história bastante comum. A mulher da Paixão de Lia, como você bem diz na sua pergunta, se constrói vivendo o amor imagináriamente. Procura o amante no bordel, se torna cortesã, vai a Lesbos… Não é mais a mulher decepcionada do Sexophuro, mas ela é prudente. Gato escaldado, por assim dizer. A mulher de O Amante Brasileiro supera o medo e se realiza, ela encontra o amor verdadeiro, ou amor em que a aposta na liberdade do outro é radical porque o desejo do amado é o do amante. Agora, a sua hipotese de que se trata de uma mesma mulher, em três etapas da sua vida, é interessante. Uma análise de texto aprofundada, permitiria verificar isso.
P: A personagem Lia não encontra solução para si e, para compensar a falta do amado, se deixa levar pela fantasia. Na vida real, até que ponto é saudável essa vivência do imaginário?
BM: O imaginário é uma faca de dois gumes. Sem ele nós não podemos viver. A prova disso é que o romance mais lido do mundo é Don Quixote de la Mancha, um herói que só se deixa governar pela fantasia. Nós nos identificamos com ele precisamente por ele não querer saber da realidade. Não é por acaso que A Paixão de Lia termina com a Lia contando para o filho a história do Quixote. Agora, o imaginário também pode ter consequências nefastas na vida das pessoas. Sobretudo quando se trata de enfrentar de uma doença grave. Estou escrevendo uma peça de teatro sobre isso.
P: Como você se tornou escritora?
BM: Escritora eu nasci. É a minha vocação profunda, mas eu sou neta de imigrantes e era preciso que eu me tornasse uma doutora. Cumpri esta missão, mas nunca deixei de escrever. E foi escrevendo que eu me formei. Aos 18 anos, publiquei o meu primeiro texto no Suplemento Literário do Estado de S. Paulo. Não conhecia ninguém no jornal. Enviei o texto sobre o Antonioni e ele foi publicado. Fiquei numa felicidade única e não parei mais de escrever para a imprensa. Fui colaboradora de vários jornais. Fiz de tudo, artigo, coluna, entrevista. Sempre como se estivesse escrevendo para livro e é por isso que os textos depois foram reunidos pela Record. Os textos de Paris não acaba nunca, O Século, A Força da Palavra foram primeiro publicados no jornal. Sempre gostei de estar a serviço da palavra e hoje, para mim, viver é serví-la.
P: Como é o processo de construção da sua ficção?
BM: Depende. No caso do Sexophuro, foi um jorro. 8OO páginas que eu reduzi a 8O. Ou seja, retrabalhando muito. A Paixão de Lia eu escrevi em Paris, depois de ter participado da tradução de O Papagaio e o Doutor para o francês, escrevi numa ânsia de existir na nossa língua, que é eminentemente poética. Imaginava as cenas no espaço pequeno do meu escritório, onde, além da mesa havia uma cama. Imaginava sentada ou deitada. Depois escrevia, gravava o texto e ia ouvir em algum jardim ou no cais do Sena. A escuta me fez corrigir até chegar ao que eu de fato queria. Com o Amante Brasileiro foi diferente. O texto foi inspirado por um grande encontro e eu escrevia em todo lugar onde estivesse à espera do amado. Na rua, no bar, no metro. Inventava para alimentar a realidade e me alimentava com ela. Ou seja, eu escrevia para viver e vivia para escrever. Foi um grande momento e este texto é o mais universal de todos. Foi lindamente adaptado pelo Teatro Oficina.
P: Todos querem encontrar um verdadeiro amor. Mas o que é e como se pode conseguir isso?
BM: Um verdadeiro amor é aquele em que os parceiros podem se dizer tudo e nunca dizem o que pode levar ao desacordo. Ou seja, é um amor particularmente delicado. Aquele que o Chico Buarque canta numa das suas músicas. Para chegar a ele é preciso ter maturidade. Clara e Sebastien, os personagens do romance, são pessoas maduras. Já viveram o desacordo e não querem saber mais dele.
P: Você mora a maior parte do ano em Paris, cidade fetiche para muita gente. Quais são seus programas ou passeios favoritos na cidade luz?
BM: Moro a metade do ano aqui. Decidi que seria assim aos 18 anos e fiz tudo para que fosse. Adoro andar sem projeto, errar pela cidade, me deixando surpreender por uma estátua, uma ponte, uma porta. Paris, como você sabe, não acaba nunca. Gosto de ver o pôr do sol, caminhando da Pont Notre-Dame à Pont-Neuf pela cais da margem direita do Sena. Sempre olho no caminho a vitória dourada da praça do Châtelet, que fica no alto de um obelisco e parece que está requebrando. Ou me detenho nas águas do rio, águas cor de garapa. Quando posso, sento numa das conversadeiras da Pont-Neuf, e daí contemplo a Île de la Cité. Ou desço até o cais e me detenho nas máscaras que, de longe, parecem iguais, mas são bem diferentes como nós, aliás Disso tudo eu falo em Paris não acaba nunca, um livro que eu escrevi com imenso prazer.


