Quem joga pode perder
betty milan
Folha de S. Paulo, Caderno Esporte, 3 de dezembro de 2022
Os jogadores cantam o hino nacional. Ouviram do Ipiranga… Vejo a devoção estampada no rosto de todos. Ó patria amada/ idolatrada/ salve salve. A bandeira do Brasil flutua no ar com PELÉ em letras garrafais. Titi, na tribuna, ouve com o rosto impávido. Nem precisa rezar secretamente. A seleção já está nas oitavas de final. Ao lado do treinador, os três jogadores em fase de recuperação – entre eles, Neymar.
O jogo começa e, ainda no primeiro minuto, o locutor brasileiro grita goooool. Qual nada! Querer não é poder. Primeiro cartão amarelo para Camarões. Logo outro para Militão, que entra de sola no adversário. Os cartões se sucedem e ninguém marca. Até o octagésimo nono minuto. Gol de Camarões.
Ouço barulho de fogos nas proximidades. Não me surprendo. Quando a França ganhou do Brasil, em 1986, antes que São Paulo imergisse num profundo silêncio, os paulistas soltaram fogos comemorando o gol de Platini, cuja beleza o locutor comentou. Para o verdadeiro torcedor o que conta é o jogo, ele sabe que sempre é possível perder.
Depois do gol de Camarões, contra todas as expectativas e o fervor da torcida brasileira, não houve nenhum outro. O comentarista da TV Globo disse: “– Perdeu, perdeu ora”. Aceitou a realidade. Um bom exemplo para os políticos que desrespeitam as urnas e não sabem sair de cena, descer a rampa e passar a faixa presidencial.
O futebol é uma grande tradição que nós temos e queremos, porque ensina a respeitar a lei e eliminar o achismo. Quem achava que o Brasil ia ganhar se enganou. Sempre é melhor esperar e apostar no desempenho.
Isso vale para o futebol e para o país, que precisa de um esforço coletivo para acabar com a fome de 30 milhões de brasileiros, a falta de saneamento básico, a precariedade da saúde, a deseducação contínua do povo, a insegurança na cidade e no campo, o desmatamento das florestas…
Quem aposta no desempenho não diz que “o presidente eleito está doente e não vai resistir”, ou que “não vai conseguir subir a rampa”, ou que “não conseguirá governar”. Não diz que “a PEC da transição é a PEC da gastança”. Espera para saber como o novo governo vai tornar o programa social compatível com a questão fiscal. Torce para que isso seja possível, porque é imprescindível que seja. Não diz que “a inflação vai subir e o aumento salarial nada significará”.
O medo dá origem a diferentes achismos. O pior deles foi a ideia da cura da Covid pela cloroquina, sem esquecer da distribuição nacional do remédio quando não existia aval científico para o uso em larga escala. Como não existia para a talidomida, liberada sem aval… 8.000 bebês com braços que não se desenvolveram… dedos que brotavam dos ombros… membros de foca. Milhares de pessoas morreram em decorrência da crença na cloroquina, em nome da qual a aquisição das vacinas foi adiada. O achismo é nefasto.
Lula e Alkmin chegaram ao poder com um projeto de nação que desqualifica os que não aderirem a ele. Quem pode dizer impunemente que acabar com a fome não é prioritário? Que saneamento básico pode ficar para depois ? Só mesmo quem tiver sido infectado pelo vírus da indiferença.
De que serve o eu acho senão para satisfazer o gosto de ser ouvido? Ou, noutras palavras, para a promoção pessoal? O achista faz o contrário do que o treinador da seleção brasileira. Tite, que sofreu uma derrota, vai tirar dela uma lição, fazer o possível para os seus jogadores suportarem o desafio e as dores – que não são poucas – a fim de conquistar a Copa pela sexta vez. Vai lutar pelo hexacampeonato, exaltando o esforço e o mérito. Sempre ouvi dizer que o Brasil é folclorizado no exterior, porque só se fala dele através do futebol. Isso não acontece à toa. O Brasil do futebol é amado pelos valores que promove, os únicos possíveis agora para superar problemas cruciais.


