quando Paris cintila III

quando Paris cintila

 

III

P: A sua intimidade com as palavras é fato. Que o diga este título inspirado, quando Paris cintila. Neste caso, foram as luzes de Notre-Dame, mas, normalmente como é o processo?
BM: A palavra intimidade é justa no meu caso. Basta sentar para escrever e eu escrevo. Já tive inibição, mas hoje não tenho mais. Consigo escrever em qualquer lugar, com barulho, sem barulho, com gente, sem gente. Porque gosto de me ligar ao que escuto sem ouvir e depois ver o texto aparecer milagrosamente na tela ou no papel. Antigamente, era a lettera 32. A escrita organiza o meu pensamento, e eu fico feliz. Vivo metade do ano em Paris para poder escrever em paz. quando Paris cintila foi escrito em Paris, mas as idéias das crônicas surgiram em diferentes lugares onde estive. Oslo, Tessalônica, Istambul, Pequim, Dunhuang e Labrang, na Rota da Seda, Índia,Praia do Forte, Nova York… Na verdade, este livro foi se escrevendo. Uma crônica depois da outra, sem projeto.
P: Certa vez, Ignácio de Loyola Brandão me falou sobre o processo de criação. Disse que escrever é um exercício que exige disciplina e afinco. E que precisou escrever 16 vezes o final do livro O verde violentou o muro para chegar ao que queria. Você também passa por esse sofrimento?´
BM: A vida pode me fazer sofrer, a escrita, não. Isso não quer dizer que eu não reescreva o texto. Para escrever a última crônica de quando Paris cintila,levei quatro anos. De O Papagaio e o Doutor, o romance inspirado na minha análise com Lacan, eu fiz inúmeras versões. E, como eu participei da tradução do livro para o francês, acabei reescrevendo o livro inteiro, que foi reeditado pela Record. O que me interessa é o ritmo, que precede a frase. Por isso, a minha maneira de escrever não obedece à convenção gramatical. Assim, quando Paris cintila  e Paris não acaba nunca  foram escritos sem maiúscula e sem ponto final. A pontuação é feita através do espaçamento. Com isso, o leitor entra no texto com a sua subjetividade e pontua à sua maneira.

P: Qual a influência da formação lacaniana na sua relação com a palavra?
BM: Tem muita influência. Lacan interpretava a sessão, valendo-se do que ele chamava de pontuação. Pontuava, cortando a sessão ou dando ênfase a uma ou outra palavra. Tratava o discurso do analisando como se fosse um texto. A genialidade dele estava nisso. Pensar que foi banido da Sociedade Internacional de Psicanálise, ou melhor, excomungado, como ele dizia! Com ele, eu aprendi a escutar, mas escrever, não. A análise não forma o escritor, que já nasce ou não ligado na palavra que quer se escrever e se forma escrevendo.

P: Você fala que as palavras surgem do vazio. Mas não é fácil esvaziar a mente. Você tem treinamento em meditação?
BM: Tenho treinamento na escuta analítica, que implica uma atenção flutuante para o inconsciente do analisando se manifestar. O analista que está preocupado com uma questão pessoal não é capaz da atenção requerida e não escuta como deve. Não diria que ele esvazia a mente, mas se desocupa de si mesmo. O escritor faz isso, inclusive quando o texto é autobiográfico. O eu do escritor não é o eu da sua pessoa, é um outro. E, se não for, o texto não acontece verdadeiramente, o escritor é traído pelo próprio narcisismo.

P: O que te interessa escrever. O que está no foco do teu olhar e do teu escutar?
BM: Quando escrevo um romance, medito longamente sobre um tema. Por exemplo, emO Papagaio e o Doutor, focalizei a relação entre o analista e o analisando, entre o imigrante e o seu descendente, entre o Brasil e a França. Nos três romances que vão ser reunidos na Trilogia do amor ou seja, O sexophuro, A paixão de Lia e O amante brasileiro , focalizei o amor e o sexo. Em O clarão, me entreguei ao tema da amizade e da morte. Cada romance foi ocasião de uma longa pesquisa . Nas crônicas, eu focalizo o que vejo e o que ouço – e não é o tema que me leva a escrever, é a surpresa. O teatro, eu faço para sobreviver, rindo muito quando a vida é trágica, ou refletindo sobre ela para não me repetir numa mesma fantasia. Depois de ter adaptado várias peças, a pedido de atores que queriam dizer um texto meu, passei a escrever diretamente para o teatro, e acho que não paro mais.O teatro é o gênero no qual tenho mais facilidade.

P: O que te fala a língua do coração. Paris fala?
BM: Aos 18 anos, eu me prometi viver em Paris. Fui raptada como a Sabina pela beleza da cidade. E tive um sentimento de liberdade que só lá. Paris é a cidade de todas as irreverências simbólicas e reais. Acho que eu hoje sou tão brasileira quanto francesa e isso é natural, porque eu sou descendente de imigrantes libaneses, e a França era a grande referência deles. Na casa da minha avó, em São Paulo, havia uma sala oriental e uma sala francesa. Isso tudo eu conto em O Papagaio e o Doutor, no qual faço a sátira do espírito papagaio dos paulistas.

P: Por que você escolheu morar em Paris?
BM: Fui escolhida repetidamente. Primeiro, quando fui raptada pela beleza da Vitória da Samotrácia no Louvre. Depois, não resisti ao Lacan e fiquei lá quatro anos fazendo análise com ele. Quando voltei ao Brasil, com o firme propósito de me radicar aqui e não sair mais, acabei me casando com um francês. Daí, tive que viver uma parte do ano lá e uma parte aqui. Não foi simples, mas foi possível e foi assim.

P: Você gosta de viajar, de conhecer lugares, pessoas. Que leitura você faz do ser humano neste momento planetário?
BM: O ser humano ? Não gosto dessa generalidade. Toda semana na Veja.com eu respondo a questões dos leitores no Consultório Sentimental e sempre levo em conta a particularidade de cada um. Me debruço na singularidade e procuro o que há de universal. De modo a tornar o casoexemplar.

P: Você lê o noticiário? O que você filtra?
BM: Nem sempre. Mas sei tudo , porque as pessoas falam do que importa.

P:  O que você está lendo agora?
BM: Recentemente eu lia História da feiura, do Humberto Eco e estou para lera História da beleza. Estou relendo Montaigne, que foi um precursor da psicanálise.O primeiro na história da humanidade que introduziu o sujeito no ensaio.

P: E o seu romance, como está?
BM: Devo terminar este ano, é preciso que isso aconteça. Porque estou trabalhando nele há quatro anos. Fiz muito pesquisa, ouvindo os mendigos e os moradores de rua de São Paulo – as diferentes vozes que nunca ninguém escuta.Nesse romance, eu também focalizo a questão da eutanásia, um tema que me faz pensar na aberração do planeta. Há gente morrendo ainda de tuberculose, e a lei não autoriza o doente terminal a dispor do próprio corpo!

P: É um romance sem maíusculas e ponto final, como as crônicas? Você acha que este estilo impacta muito fortemente? Todo mundo fala disso, não é?
BM: No romance, há vários estilos, mas eu escrevi com maiúscula e ponto final. O estilo é função das vozes. O texto se deixa fazer por elas.

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Entrevista a Cássia Montenegro, jornal A Tarde, Salvador, 2008.