quando Paris cintila II

quando Paris cintila

 

II

P: Você disse que escreveu Paris não acaba nunca como quem se despede. Como você escreveu quando Paris cintila?
BM: Como quem não se cansa de assistir ao espetáculo do mundo e sabe que ele um dia acaba.

P: Qual a relação que você estabelece entre os dois livros?
BM: Paris não acaba nunca é uma errância em Paris, a cidade em que eu me prometi viver, aos 18 anos, vendo a Vitória de Samotrácia no Louvre. O impacto da beleza foi tal que eu desejei ardentemente morar naquela cidade. Quando a ocasião surgiu, eu fui. Surgiu primeiro graças ao meu encontro com Lacan e depois com meu marido, Alain Mangin, que já não está. Era historiador e me formou na cultura francesa. Colaborou no Paris não acaba nunca, que é, no começo, um diálogo com escritores como Hemingway, Joyce, Fitzgerald e Victor Hugo. Com eles, o leitor anda pelos diferentes quarteirões e pelas margens do Sena, vê o desabrochar da primavera e as árvores amarelo-ocres do outono, senta-se nos bares para tomar um bordeaux ou um beaujolais. Descobre, através da leitura, que é possível se surpreender a cada passo. E, como Paris não é Paris sem as lojas de gastronomia, se deleita com o que o texto revela sobre uma cozinha tão pródiga em queijos e vinhos quanto o Carnaval brasileiro em fantasias e máscaras. Com esse livro, eu aprendi o quão importante é a gente se deixar guiar pelo que vê, se perder nos lugares para descobri-los de verdade. Daí, eu insensivelmente parti para o quando Paris cintila, que reúne crônicas cujas ideias surgiram em vários lugares do mundo – Paris, Barcelona, Oslo, Istambul, Tessalônica, Pequim, Dunhuang (na rota da seda), Madras, Ouro Preto, Praia do Forte ou Nova York. Mas foram todas escritas em Paris, onde eu moro uma parte do ano há décadas, precisamente para escrever. Usei acima a palavra insensivelmente porque não tinha a intenção de escrever o livro quando comecei. Fui escrevendo uma crônica depois da outra por prazer e, de repente o livro estava pronto.

P: O que levou você a compartilhar suas perplexidades e reflexões em um livro?
BM: A cada perplexidade, frequentemente nascida de um fato trivial, eu sentia a necessidade de expressar com clareza o que eu havia visto ou escutado com clareza. Na verdade, o livro é feito de pequenas iluminações. Posso inclusive usar o termo epifania.

P: Não é a primeira vez que você escreve sem usar maiúsculas nem ponto final. O que a fez optar por esse estilo?
BM: A convenção gramatical sempre me contrariou, porque na minha escrita o que importa é o ritmo, e é a ele que a frase deve obedecer. Lutei para encontrar a minha forma. Foram muitos livros para chegar a ela. Ou melhor, para poder me exercitar em diferentes formas. Uma das vantagens do texto sem maiúscula nem ponto final é que o leitor pode entrar nele com mais facilidade, criando a sua própria pontuação. Eu escrevo para ser lida e, se possível, muito lida.

P: Quando você adotou esse estilo? Por quê? Quais as suas referências para escrever com o mínimo de pontuação? Inspirou-se em algum escritor, como Clarice Lispector ou José Saramago? Foi influenciada pela poesia?
BM: Não adotei esse estilo, foi ele que me adotou. E, na verdade, há muita pontuação no meu texto, só que ela é feita com a vírgula e o espaçamento. A poesia certamente me influenciou.

P: Suas crônicas são como uma cena. O teatro foi uma influência na sua maneira de escrever?
BM: Nenhuma forma de expressão é tão fácil para mim quanto o teatro. Escrevi seis peças das quais duas foram encenadas. Paixão, por Nathalia Timberg, e O amante brasileiro, pelo elenco do Teatro Oficina, que, no próximo ano, também vai encenar Brasileira de Paris. A tendência é que eu escreva e trabalhe cada vez mais para o teatro. Eu, aliás, sempre estive nele, porque, à sua maneira, o consultório do analista é um teatro. Existe inclusive a expressão artifício analítico. O analista é um ator que encarna o morto para que o inconsciente do analisando possa se revelar.

P: Por que os títulos de todas as crônicas começam com quando?
BM: O livro ia se chamar “Quando”, porque o que importa nele é o instante privilegiado da iluminação. Acabou se chamando quando Paris cintila, porque este é o titulo da primeira crônica e todas foram escritas em Paris, que é tão minha cidade quanto São Paulo.

P: Fatos corriqueiros, conversas simples, viagens e curiosidades serviram de inspiração para suas crônicas. Uma história ou um fato vivido surge para você como uma crônica imediatamente?
BM: Surge como uma possível crônica. Depois, eu trabalho e retrabalho, leio em voz alta, gravo, escuto até bater o martelo e voltar de novo à errância. Para escrever a última crônica do livro, levei quatro anos.

P: Quando escrever é essencial?
BM: Sempre que algo me intriga. Ou quando a vida é insuportável. Acontece.

P: Quando Paris cintila pode ser lido como um guia de viagens? Um convite para conhecer o mundo sob um olhar, um ângulo diferente dos roteiros tradicionais?
BM: Numa das crônicas eu digo que, pela surpresa que a viagem propicia, ela é um bem. Com ela, nós voltamos à infância, ao tempo em que nos surpreendíamos continuamente, temos a felicidade de olhar o mundo com olhos de criança e nos alegrar.

P: Você comparou alguns aspectos da cultura oriental e ocidental, como a medicina chinesa e o modo de vida indiano. O que nos falta? O que deveríamos aprender com o Oriente?
BM: Estive num grande mosteiro tibetano no sul da China, o mosteiro de Labrang, onde tive a ocasião de trocar ideias com um lama que era médico. Entre outras coisas, ele me falou da importância da paciência para a cura da doença. Elogiou a medicina ocidental pelo avanço no campo da cirurgia, mas criticou os nossos remédios pelos tantos efeitos colaterais. Na Índia, eu me surpreendi com o fato de os indianos dormirem e meditarem em público. Entregam-se a si mesmos quando isso se impõe. Maravilhoso. Nós, ocidentais, somos vítimas do time is money. Falta-nos a paciência e o gosto da contemplação. Os dois são fundamentais para a longevidade.

P: Você escreveu as crônicas em diversas cidades. Alguma a encantou ou inspirou mais?
BM: Escrevi todas em Paris, que é a cidade das cidades, pelas mil e uma razões que estão explicitadas em Paris não acaba nunca. Por sinal, em chinês, o título do livro é Paris tem mil e um charmes.

P: Quando Paris cintila?
BM: Quando a gente está amando, ela cintila. Mas também quando a gente enxerga no Sena os furos de luz. Quando vê imaginando o Corcunda de Notre-Dame se balançando no sino da igreja, ou, de repente, na rua, ouve a voz de Edith Piaf. Paris é um milagre da civilização.

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Entrevista concedida à equipe de imprensa da Editora Record, janeiro de 2008, preparatória do lançamento.