Psicanálise e o ancestral em nós

Psicanálise e o ancestral em nós

Congresso do Corpo Freudiano, 2026

 

São Paulo, Rio de Janeiro e Magno, 1978

Quando voltei de França para São Paulo, no ano de 1978, depois de ter sido analisanda de Lacan, sua assistente no Departamento de Psicanálise de Vincennes e a primeira tradutora do seu Seminário em português, todas as portas estavam fechadas. Nenhum lugar na Universidade e nenhum paciente no consultório. 

Já no Rio, as portas estavam abertas e eu ensinava Psicanálise no Colégio Freudiano, um colégio histórico fundado em 1975 por Magno Machado Dias e eu, no Petit Cluny, com o apoio de Lacan. Do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro saíram várias escolas lacanianas e entre elas O Corpo Freudiano. Magno Machado Dias já não está entre nós, partiu este ano e se tornou um dos nossos ancestrais. Foi um grande psicanalista por ser poeta. Entre os conceitos que ele introduziu na teoria, está o de “Améfrica Ladina”. 

 

O ensino no Rio e a escuta dos carnavalescos 

Graças à relação com Magno e o Colegio Freudiano, eu ia regularmente ao Rio de Janeiro. Isso me permitiu escutar os carnavalescos das escolas de samba e escrever Os bastidores do Carnaval (1). Só depois da publicação deste livro, a televisão brasileira se dignou a dar a palavra aos carnavalescos. 

Trabalhei durante três anos, de 1979 a 1981, com os carnavalescos de diferentes escolas de samba para saber qual o significado da festa e do desfile. O procedimento – que se deve à minha formação psicanalítica – foi novo e eu descobri que nós brasileiros criamos e recriamos a nossa identidade através do Carnaval.

 

Descoberta da importância da cultura do brincar

A escuta me ensinou que nós privilegiamos a “cultura do brincar”, conceito de Joãosinho Trinta, que era tão capaz de fazer o desfile quanto de falar com pertinência sobre ele. Para Joãosinho, de quem eu fui interlocutora durante duas décadas, o Carnaval é a grande festa da inclusão. Quando já estava paraplégico, e foi convidado para sair na comissão de frente de uma escola de samba, aceitou desde que outros paraplégicos saíssem junto. 

 

Características da cultura do brincar

A cultura do brincar não se manifesta através de dogmas como a cultura oficial, porém de um estilo que se renova incessantemente e deixa estar a ambivalência. Um bom exemplo é o travesti carnavalesco. Vale-se do masculino para ridicularizar o feminino, realiza o desejo de ser mulher sem deixar de ser homem. Noutros termos, ele faz a sátira da alternativa implícita na diferença sexual, a de ser isto ou aquilo

A cultura do brincar é indiferente ao princípio da não contradição e ao tempo cronológico. Assim, o colosso de Rodes, os jardins suspensos da Babilônia e as pirâmides do Egito podem coexistir no desfile de uma mesma escola de samba. Por outro lado, como o sonho, a arte dos carnavalescos se prevalece do deslocamento e da condensação. A exemplo disso, O Rei de França na Ilha da Assombração, desfile de Joãosinho Trinta, em 1974, sobre a invasão francesa no Maranhão. 

Segundo Joãosinho, Luis XIII, que era um menino, ouvia falar do ouro e da prata da França Equinocial e de um povo que só se vestia com penas. Não concebia um índio que não fosse afrancesado. Por isso, no desfile, o índio usava roupa francesa e um cocar que, em vez de ser de pena, era de renda. Como o menino rei, Luis XIII, também não concebia uma selva sem candelabros, Joãosinho introduziu no desfile candelabros sobre palmeiras de espelho para evocar Versalhes. 

A cultura do brincar só respeita de forma desrespeitosa as outras culturas que ela dessacraliza. Isso é o que faz a sua originalidade e produz a surpresa da qual nós todos precisamos. O Carnaval se exporta – trazendo os estrangeiros para o Brasil – porque ele sempre surpreende e faz reviver a experiência da infância. 

Breton considerava que a criança está mais próxima da verdadeira vida, que ela é surrealista sem ter a consciência de sê-lo. Pode-se considerar que Joãosinho Trinta foi um surrealista. A propósito da criança, ele disse: “Se o homem fosse suficientemente livre para ser ele mesmo… seria como a criança” (2).

 

A importância do brincar para Freud

Num texto de 1908, “O poeta e o fantasiar” (3), Freud diz que o brincar é sério e que, por estar ligado à fantasia do sujeito, não deve ser negligenciado. Trata-se, no brincar da criança, de uma interpretação da realidade. Num texto de 1918, “Bate-se numa criança” (4), Freud insiste na importância de se valorizar a infância.

 

Joãosinho Trinta, o ancestral

Foi graças à minha formação analítica que eu me debrucei sobre a cultura do brincar, que é a da criança, de que a educação infelizmente faz pouco. Graças à Psicanálise, mas também ao encontro com Joãosinho Trinta, que é um grande ancestral. Grande por três motivos. A sua importância como artista, a lucidez que o levou a falar de uma cultura própria ao Brasil e a comparação que ele fez do desfile da escola de samba com a ópera, inscrevendo assim o desfile num gênero artístico consagrado. 

Por ter trabalhado como dançarino no Teatro Municipal e ter figurado em O Guarani, de Carlos Gomes e na Aida, de Giuseppe Verdi, ele enxergou no desfile uma ópera: “O diretor é o carnavalesco. O maestro é o mestre da bateria. A orquestra é a bateria. O libreto é o enredo. O corpo de baile são os passistas. Os personagens principais da ópera são os destaques. A cenografia são os carros alegóricos”.

Vale lembrar que os desfiles assinados por Joãosinho mudaram a estética do Carnaval, com alegorias grandes e muito luxo. Mostravam ondas coloridas em toda a sua extensão. Tudo passava rapidamente, sem separação entre as alegorias e as alas e sem performances individuais. O que o espectador via eram as tonalidades do conjunto. O desfile de Joãosinho pode ser comparado a um quadro dos impressionistas. 

Como esses pintores, cuja arte não imitava a realidade mas a retratava com contornos imprecisos, Joãosinho não obedecia ao imperativo da verossimilhança. Deixava o imaginário se expressar o mais livremente possível e o espectador se maravilhar com o fantástico. 

Baudelaire considerava que a imaginação é a rainha das faculdades e, mais ainda, a rainha do verdadeiro. Disse preferir os monstros da sua fantasia à trivialidade concreta. Joãosinho podia ter dito a mesma coisa.

Para dar vazão ao seu imaginário, o carnavalesco se valia do que estava ao alcance da mão. Uma bacia amassada ou uma boia de plástico se transformava numa escultura. Não era o material que importava, nem as funções originais do objeto, mas sua transformação em algo novo e original. Isso explica porque ele dizia que o luxo do Carnaval não é o do dinheiro mas o da criatividade. “O segredo é fazer flores com sucata cujo destino natural seria o lixo.” Trata-se de um procedimento análogo ao da criança que não precisa de brinquedos para brincar. Serve-se de qualquer objeto. Uma cabana ela constrói com duas cadeiras e um cobertor. Uma cama, com algumas almofadas. Um prédio, empilhando caixas… A cultura da criança é a do brincar, que Joãosinho foi o primeiro a valorizar, dizendo que a nossa cultura é a que flui através da brincadeira. O samba confirma isso: “Com pandeiro ou sem pandeiro/ Ê, ê, ê, ê, eu brinco/ Com dinheiro ou sem dinheiro/ Ê, ê, ê, ê, eu brinco”. Os recursos e os efeitos da cultura do brincar são muitos, ela incita à resistência e possibilita a superação.

No Carnaval de Joãosinho, o sincretismo aparece de várias maneiras. A exemplo disso, o desfile de 1988, cujo enredo era Sou Negro do Egito à Liberdade. Havia, neste desfile, uma alegoria em que as divindades egípicias figuravam junto com as do candomblé. Além de privilegiar o fantástico e o sincretismo, Joãosinho apostava na transmutação. Deixava que a sua imaginação transformasse a realidade histórica e mitológica. Assim, no desfile da Viradouro de 1998, O Negro do Carnaval, ele fez do Orfeu mitológico um Orfeu negro, cuja Euridice morreu por causa de uma bala perdida.

Baudelaire dizia que dos gregos e dos romanos podem-se fazer românticos quando se é romântico. Joãosinho poderia ter dito que deles se pode fazer brasileiros quando se é verdadeiramente livre.

Joãsinho Trinta é um grande ancestral pela compreensão profunda do Brasil e porque, através dos seus enredos, ele militou contra o racismo e denunciou incessantemente a desigualdade social. Numa entrevista de 2002, ele declarou:

 

“Quero ir para uma escola bem pequena, não quero levar a glória de ganhar Carnaval, de fazer festa em cima de escombros humanos, em cima de carências humanas, não quero fazer festa em cima de crianças abandonadas, em cima da miséria humana. Quero a menor das escolas, onde eu possa fazer aquilo que a minha mente e meu coração estão mandando. Quero fazer festa, mas uma festa também da comunidade, quero um Carnaval de 365 dias, onde as crianças tenham orientação, educação, onde o povo possa viver humanamente.”

 

Joãosinho sabia que o Brasil dispõe de uma contracultura de massa e que ela é um poderoso recurso civilizatório. Uma contracultura capaz de impedir que golpistas sejam anistiados e a PEC da Blindagem seja aprovada. 

O Brasil se salva pela sua arte. E é por isso que há nele lugar para a Psicanálise, cuja doutrina se quer científica mas cuja prática é arte, como Lacan não parou de mostrar, insistindo na necessidade de se reinventar a prática continuamente – como, aliás, o Carnaval faz. Neste ano, no Rio de Janeiro, o Carnaval exaltou um artista camaleônico, Ney Matogrosso, porque camaleão é o que nós precisamos ser para vingar e viver. Quem não muda de pele não resiste às cambalhotas que a vida dá.

Obrigada e até mais.

 

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Congresso do Corpo Freudiano, Belém (PA), 5 de março de 2026.

 

(1) Betty Milan, Os bastidores do Carnaval, aOutra, 1988.

(2) Fabio Gomes e Stella Villares, O Brasil é um luxo, CBPC, 2008.

(3) Sigmund Freud, Le poète et l’activité de fantaisie, Œuvres Complètes, v. VIII (1906-1908), PUF, 2007. 

(4) Sigmund Freud, Un enfant est battu: contribution à la connaissance de la genèse des perversions sexuelles, Œuvres Complètes, v. XV, 1919.