Paris não acaba nunca (1996)
P: Comecemos pelos fatos: Há quanto tempo você mora em Paris? E quais foram os seus contatos anteriores com essa cidade?
BM: Eu moro em Paris desde 1974, com muitas idas e vindas entre a França e o Brasil. Imaginariamente, eu moro lá desde que tinha 18 anos. Subindo a escadaria central do Louvre, pela primeira vez, vi a Vitória de Samotrácia, uma figura de proa alada que foi descoberta em 1863 no lugar de um antigo santuário grego. A estátua foi esculpida para comemorar um vitória naval e ela dá uma incrível sensação de liberdade. Vi a Vitória de Samotrácia e me disse que um dia haveria de viver em Paris. Muitos anos depois, a fantasia se concretizou – eu, aliás, fiz tudo para que isso acontecesse. Paris significava, antes de mais nada, a liberdade de escrever para quem estava destinada, como as paulistas da minha classe e geração, a ser uma boa profissional liberal e sobretudo uma excelente esposa. Não nasci para me enquadrar no projeto da burguesia paulista. Para não passar a vida contrariada e tendo que contrariar os outros, fui embora. Claro que eu revesti a ida de mil argumentos convincentes, mas eu fui mesmo para não ter de responder aos imperativos do meio social onde nasci e me criei.
P: A percepção da riqueza simbólica de Paris, de uma cidade meio mítica, parecendo sair de um sonho, configurou-se aos poucos ou foi um repentino insight, algo como uma revelação?
BM: Tive repetidamente a sensação de que Paris era um sonho. Sentando, por exemplo, na margem do Sena ou atravessando a Pont Neuf e vendo à distância a Île de la Cité, que parece um camafeu gigante. A consciência de que se trata de uma cidade mítica eu fui tendo à medida que escrevia as crônicas. Paris, que eu tratei como um personagem, foi se revelando, e eu descobri que a cidade tem a dimensão mítica de uma obra de arte. Por isso atrai os artistas e os escritores, favorece e ilumina de maneiras diferentes. Paris vale pelas iluminações, e é nesse sentido que eu entendo a expressão “Cidade Luz”.
P: Sua visão de Paris é literariamente informada. A leitura de autores franceses e de autores que escreveram sobre Paris foi constitutiva do que você viu e sentiu? Ou, ao descobrir a cidade, esta ia lhe evocando referências literárias?
BM: Me vali do livro de Hemingway, Paris é uma festa, para começar a escrever o meu e até para escolher o título definitivo. O último capítulo do livro dele se chama “Paris não tem fim”. Daí ao título Paris não acaba nunca foi um passo. Paris, aliás, só é uma festa porque é inesgotável. O fato é que eu comecei as crônicas graças à leitura de um texto literário, mas foi a escrita, inspirada pela errância através da cidade, que depois me fez recorrer à literatura para continuar a escrever.
P: Parte dos autores que você cita é de estrangeiros que estiveram em Paris em momentos decisivos ou lá escreveram sua obra. Autores franceses aparecem mais como referências, marcos físicos – casa onde morou Balzac, onde morou Desnos. Há mais Hemingway e Henry Miller que Baudelaire em seu livro. Isso decorre de uma identificação com o estrangeiro, com o olhar que vem de fora?
BM: Claro, porque a cidade da qual me interessava falar é a Paris que surpreende, e os estrangeiros são particularmente sensíveis a essa Paris. Não escrevi sobre a relação entre Baudelaire e a cidade, porém ela me interessou particularmente porque Baudelaire foi o primeiro que falou da grande metrópole como uma droga contra a solidão, e eu vivi muitas solidões. Sem elas, não teria conseguido escrever.
P: A propósito, você vê continuidade no seu trabalho desde o livro O Papagaio e o Doutor? Neste, há uma experiência interior da alteridade e busca de identidade. Em Paris não acaba nunca, uma experiência mais voltada para o exterior. Não seriam complementares, a mesma história sob ângulos distintos? Nos dois, o sujeito como alteridade, mas em Paris não acaba nunca, tentando decifrar a cidade, e não só a si mesmo.
BM: Obrigada por essa pergunta. É disso mesmo que se trata, só que eu não tinha me dado conta. No romance, a heroína atravessa Paris com uma só e mesma questão: Quem sou eu? Seriema ora deseja ter o cavalo da Joana d’Arc para ser como o pai desejava que ela fosse, ora entra numa verdadeira luta de prestígio com as estátuas dos grandes homens que encontra no caminho. Topa nelas topando na ignorância dos autores que a civilização havia entronizado: Rousseau, Voltaire, Corneille, Molière. Seriema vai se descobrindo através da cidade. No Paris não acaba nunca, a cidade é a personagem que deve ser decifrada, e o narrador está inteiramente a serviço disso. Quer saber por que Paris é uma cidade tão luminosa e tão amada.
P: A sua Paris é francesa. A Paris multicultural, recorte de etnias e nacionalidades, está menos presente em seu livro.
BM: Você agora me pegou… O fato de ter privilegiado a França francesa deve ter a ver com as minhas origens. Sou descendente de cristãos libaneses, e eles se identificam muito com a cultura francesa tradicional, que eu procurei conhecer melhor e agora focalizei no livro. Sou mestiça por causa das raízes francesa e brasileira, e eu enfim assumi o que sou. O biculturalismo, aliás, fez com que eu descobrisse o que há de comum entre a França e o Brasil, entre a cultura rabelaisiana e a cultura do brincar, ambas filiadas ao riso.
P: As grandes metrópoles culturais – não só Paris, mas Nova York, Londres, Berlim, Roma – não possibilitam, todas, a viagem permanente, a descoberta de coisas? Até que ponto, no livro, há de um lado a revelação de um específico francês e, de outro, a exaltação da vida nas metrópoles cosmopolitas?
BM: Qualquer metrópole ou cidadezinha possibilita a viagem. Você e outros poetas da nossa geração viajaram muito em São Paulo. Mas é possível que eu tenha escrito sobre Paris porque nela o horror fica mais velado pela beleza. A gente também precisa se esquecer do Mal. São Paulo me inspira um livro que até poderia ser interessante, só que também poderia não ter leitores, tamanho é o horror. Se eu tivesse que focalizar São Paulo, teria que falar da miserabilidade da cidade, dos prédios em completa decadência, das ruas esburacadas e sempre cheias de lixo, dos mendigos envoltos em cobertor sob um sol cáustico, dos meninos abandonados que dormem nas ruas exibindo corpos supliciados… São Paulo me obrigaria a tratar daquilo que as pessoas querem ignorar, mas obviamente poderia ser um grande tema literário.
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Entrevista a Claudio Willer.


