Os efeitos do negacionismo climático
betty milan
Folha de S. Paulo, Opinião, 18 de agosto de 2026
Não posso falar dos efeitos do negacionismo no mundo inteiro. Mais do que acontece na França e no Brasil eu sei porque vivo nos dois países. A França foi tomada por ondas de calor que provocaram a morte de 6.000 pessoas. Houve um recorde trágico de incêndios florestais. Por causa da secura do clima, as chamas apagadas logo renasciam noutro lugar. Os incêndios devoraram quase 100 mil hectares de floresta.
A existência de piromaníacos é inegável, mas ainda que a mudança climática não esteja na origem do incêndio, ela criou as condições ideais para esse tipo de cenário. Os alertas do governo francês – numerosos e regulares –, os bombeiros e o estado do equipamento colocado à disposição deles não estiveram à altura da ameaça e 200 mil pessoas foram obrigadas a deixar as suas casas.
A França está ameaçada pelo fogo e o Brasil pela redução da água. São Paulo corre o risco de um colapso hídrico, como diz o secretário de mudanças climáticas da cidade, Renato Nalini. Nossos rios foram convertidos em “condutores de imundície”, esgoto a céu aberto.
O pior é a situação dos reservatórios que abastecem os paulistanos. A represa de Guarapiranga tem sido vítima de ocupações clandestinas e criminosas, que despejam esgoto nos afluentes. O esgoto faz proliferar algas macrófitas, que tomam o leito do reservatório e dificultam a captação da água. Consequentemente, a fim de fazer a captação, é preciso lançar sobre as algas substâncias químicas perigosas para a saúde – algumas delas cancerígenas. O tratamento não elimina coliformes fecais, cocaína, microplásticos e resíduos fármacos.
Enquanto a sociedade civil não exigir atuação de todos os setores responsáveis a fim de impedir o loteamento de terras destinadas a serem depósitos de água, o problema só vai se agravar. A prefeitura mantém atuante a OIDA – Operação Integrada em Defesa das Águas–, resultante de um convênio com o estado, que se ocupa de demolir construções criminosamente edificadas às margens do manancial. Mas o ritmo da invasão é superior ao da defesa.
A indústria da construção civil, que inunda São Paulo com novos edifícios, poderia se tornar um exemplo de cidadania, protegendo a reserva de Guarapiranga – a única abastecida com nascentes locais. Para tanto, bastaria cada incorporadora fazer uma “adoção afetiva” de um espaço do perímetro da represa. Daí, já não seria possível se apropriar de pequenas vilas, onde moram oito pessoas, a fim de construir edifícios para 400.
A indiferença à preservação da represa se explica pela negação do que pode acontecer, exatamente como na pandemia. Sabemos hoje que 400 mil pessoas não teriam morrido no Brasil, se o alerta da OMS fosse levado a sério. A negação é um mecanismo de defesa inconsciente contra fatos insuportáveis. Sobre isso Freud escreveu em 1925, há um século, explicando como lidamos com o que é traumático.
Os negacionistas são humanos e devem ser tratados como tal. Mas, além de punir severamente os criminosos pela poluição da água, o poder público precisa fazer uma campanha de difusão sobre o risco do colapso hídrico para convencer a sociedade civil a se manifestar, exigindo atos de cidadania.


