O clarão
P: Quanto tempo durou o trabalho com O clarão?
BM: Três anos durante os quais eu me perguntava se não estava ficando louca. Porque não é evidente introduzir na literatura adulta uma libélula. Fiz o maior esforço para me inscrever na convenção literária. Fui inclusive para os Estados Unidos, a fim de aprender como se faz um romance. Me lembro de um amigo dizendo: “O que você vai fazer lá? Você escreve muito melhor do que eles”. Obviamente eu nunca acreditei nisso. Acho que os americanos fazem romance maravilhosamente bem. Viajei. Só que, por mais que eu estude, não consigo entrar na convenção. Porque eu sempre tenho alguma “coisa” que eu quero dizer e para dizer essa “coisa” eu preciso encontrar uma forma que seja compatível com a “coisa”. Eu queria fazer um romance sobre a amizade. Mas como fazer um romance sobre a amizade, que não é um tema passional? A amizade supõe uma ética. Uma ética da contenção, para o Dalai Lama. Prefiro chamar de ética da delicadeza. Na amizade, você não se entrega à paixão. Por isso, era muito complicado fazer um romance sobre esse tema. À medida que eu caminhava, eu me dava conta de que a personagem principal só podia avançar através da emergência de um saber que lhe vinha do outro. Sozinha, ela não podia fazer o percurso que faz no romance.
P: Como surgiu a libélula?
BM: Um dia, eu estava olhando um lago e vi uma libélula, que é de todos os seres o mais imaterial. A borboleta tem alguma consistência, a libélula, não. Daí me ocorreu que a libélula talvez pudesse simbolizar a palavra. Porque o João, o amigo de Ana, perde a palavra. Ou seja, ele perde aquilo que é essencial para a existência. A libélula é tanto uma aparição do saber inconsciente de Ana quanto uma pitonisa ou um analista. Foi em Delfos que resolvi introduzir a libélula. Foi quando fiquei sabendo da história da pitonisa. Depois que o pedido era feito, ela entrava em transe e produzia ruídos que o clero interpretava oralmente antes de dar por escrito a resposta à pessoa que pedia. Então, ficou bem clara para mim a questão das três instâncias: a voz, a palavra e a escrita. E eu acho que, no meu percurso subjetivo, O clarão significou a possibilidade de uma outra relação com a oralidade, porque eu tinha uma relação doutoral com ela, só sabia falar se tivesse preparado o texto – e agora não é assim. Aquilo que a gente produz espontaneamente é transformador.
P: Por que o romance é sobre a amizade e a morte?
BM: Jacques Lacan dizia que nós somos todos falesseres, seres para a fala, seres para o falo e seres que falecem. Com a perda da palavra, o personagem João estava, do ponto de vista do imaginário de Ana, praticamente morto, mas na realidade não estava morto, porque ele reivindica que ela vá se despedir dele, o que não deixa de ser um drama. Na nossa cultura, na nossa contemporaneidade, nós tendemos a negar a morte. Ana descobre que quem não nega a morte, não não desperdiça vida. Então, foi muito importante ter feito essa reflexão sobre a amizade e a morte, uma reflexão que foi desencadeada por um fax que eu recebi do meu grande amigo Carlito Maia, um dos homens importantíssimos de São Paulo, que fundou o PT, foi diretor da Globo e lançou o Roberto Carlos. O Carlito, que era um grande comunicólogo, perdeu a palavra. Foi um drama e, num certo momento, ele mandou um fax para os amigos dizendo: “Venha me visitar antes que eu já não esteja”. Um fax desconcertante, e eu então fui visitar uma amiga comum, que acabou me dando o tema do romance. Na verdade, tudo acontece por causa dos amigos. Eu acredito muito nessa rede de amizade, porque constatei que sem ela a literatura não existe, sem ela o teatro não existe, o Carnaval não se faz. E foram os amigos que lançaram esse livro. Por exemplo, no Rio de Janeiro, foi o Joãosinho Trinta, um amigo de outros carnavais para quem eu tinha escrito Os bastidores do Carnaval. Em São Paulo, foi José Celso Martinez Corrêa que falou da importância da amizade para o Teatro Oficina, e por aí vai.
P: Por que a insistência na amizade?
BM: Porque o amigo é solidário, é ele que ganha perdendo tempo com o amigo, é ele que escuta, é com ele que a gente pode pensar em voz alta, é o amigo que é virtuoso e que, portanto, pode ser um bom cidadão. Estou convencida de que através da ética da amizade é possível fazer muita coisa por este país, onde somos muito cordiais, afáveis, sorridentes, mas nem sempre muito solidários, salvo as classes mais pobres ou em circunstâncias extremas. Me pareceu oportuno escrever um romance sobre a amizade. Em seguida, eu fiz essa exposição que vocês vão ver. Ela se multiplicou. São dez exposições que vão para as bibliotecas das capitais do Brasil e depois ficam num circuito itinerante pelo interior do estado. E o que a gente espera é ter mais alianças, mais exposições, mais viagens, porque a amizade é suprapartidária. O partido da amizade é o dos artistas e de muitos outros. Ele é diferente dos partidos políticos, porque o princípio da relação entre os amigos é a renúncia ao dogmatismo que tende a vigorar nos partidos políticos, porque não podemos escapar à paixão e ao ódio, não é mesmo? A perfeição não é deste mundo.
P: Gostaria de saber o que o lançamento do teu livro tem a ver com o Ano do Voluntariado.
BM: Quando comecei a escrever O clarão, eu não tinha em mente o Ano do Voluntariado, mas, por uma feliz coincidência, o livro saiu neste ano. Além disso, na época em que o livro ficou pronto, criaram o Troféu Carlito Maia, que é um troféu de cidadania. Até pensaram que eu havia escrito por causa do troféu… O fato novo é que, no Clarão, é uma mulher que conta e exalta a relação de amizade com um homem. Isso é novo não só na literatura, mas no pensamento ocidental, porque as relações de amizade são basicamente entre homens ou entre mulheres. Acho que é imperioso cantar a amizade, porque a partir da década de 1970, em nome da liberação sexual, houve uma hipervalorização do sexo. Houve inclusive a tirania do sexo. Quem não transasse estava fora de moda. Então, eu acho importante as pessoas poderem dizer não ao sexo, porque quem não pode dizer não, não pode dizer sim.
P: O livro é uma consequência de tuas observações pessoais sobre a amizade ou de pontos de vista de outras pessoas?
BM: Há grandes textos sobre a amizade. É curioso que ela tenha sido tema de tantas reflexões. Na minha opinião, os maiores textos são os de Cícero e Aristóteles. Estudei muito, meditei muito e durante três anos não fiz nada além isso. Três anos para escrever 200 páginas.
P: Eu gostaria de saber como introduzir a amizade no currículo escolar. Eu ouvi você dizer isso ontem no rádio e me parece ser interessante essa história.
BM: Obrigada por esta questão. Tenho a intenção de encontrar o Secretário de Estado da Educação para propor a introdução da amizade no currículo, porque eu acho que o jovem se interessa sobretudo pelo amigo, mais do que pelo pai ou pela mãe. Tenho um filho de 18 anos e vivo isso. Eu acho que é possível abordar a questão da ética na escola através da amizade, porque os amigos são necessariamente virtuosos, os outros são cúmplices. A escola precisa se ocupar da virtude. Montaigne diz que nossos pais procuram mobiliar nossas cabeças com saberes vários e não se interessam pela virtude. E ele acrescenta: “Prefiro uma cabeça bem-feita a uma cabeça lotada”.
P: Pode-se estabelecer amizade na relação terapêutica?
BM: A clínica me inspirou muito para fazer O clarão. Há um painel da minha exposição que é “o amigo escuta” e outro que é “o amigo ganha perdendo tempo com o amigo”. Essas frases poderiam ser extraídas da relação analítica, que pode virar relação de amizade, mas que em princípio não é. Porque na amizade há uma reciprocidade que não existe na relação analítica, não pode existir. Essa é a condição para o desvendamento do inconsciente. O analista não pensa em voz alta, como o amigo. Se o analista pensar em voz alta, acabou a análise. O amigo pode, porque ele sabe que nada do que ele disser vai se voltar contra ele e que o amigo vai escutá-lo para encontrar o caminho.
P: Você disse que, quando o brasileiro puder brincar sem sacanear, o Brasil vai ter solução. Eu gostaria que você falasse um pouco mais sobre isso.
BM: Digo que o brincar é um significante-chave de nossa cultura, tão importante quanto o humour para os ingleses, quanto o droit para os franceses, quanto el honor para os espanhóis. Resta ainda teorizar a diferença entre o brincar e o sacanear. Quem brinca em serviço, por exemplo, está sacaneando. O brincar faz com que o Brasil não se torne um país “pesado”. Essa capacidade que nós temos de tirar de letra, inventar palavras, encontrar soluções novas é extraordinária. Essa é, aliás, uma característica do personagem João, que diz: “Quando as portas estão fechadas, eu escapo pela janela”. O brincar é uma capacidade de sublimação, de invenção, de criação e nós brasileiros somos criativos. Agora, quando nós pudermos ficar com o brincar e não considerar que o prazer é a lei do nosso desejo, que há outra lei que não a do prazer, este país vai ser irresistível. Eu me dei conta disso na Copa do Mundo. O Brasil perdeu a Copa por falta de solidariedade. Quando vi a imagem dos franceses no jornal L’Équipe, aqueles onze jogadores de braços dados, eu me vesti de azul – mesmo porque o azul era a cor dos dois países. Naquele dia, eu vi a França comemorar a festa à moda brasileira, e foi um dia realmente extraordinário para mim, porque eu estava descendo o Champs Elysées e, de repente, chegou um preto enorme e me abraçou dizendo: “Madame, nous avons gagné”. Pela primeira vez na França um preto ousou se aproximar de mim e me abraçar, as barreiras tinham sido inteiramente superadas naquele dia. E isso também se deve ao Brasil, que tem um fervor mestiço e tem muito a transmitir para o resto do Ocidente.
P: Também sou professora de educação física e me pergunto o que a libélula diria para o professor de educação física, que precisa transmitir a amizade através dos jogos, ensinar a desenvolver a competição junto com a amizade.
BM: A competição é legítima, ela é que faz a gente procurar ser melhor, se superar. O fato de ter vivido no exílio, de ter vivido sozinha durante muitos anos, me obrigou a trabalhar o dobro do que eu teria trabalhado no Brasil, e isso foi muito bom. Para não me isolar, eu tinha que fazer entrevistas para a Folha de S. Paulo. Implicou que eu aprendesse a viver em duas línguas o tempo todo, a ser competente nas duas. A competição em si pode ser um fator de melhoria, de avanço, desde que os fins não justifiquem os meios.
P: Como é que tu consegues ter uma consciência tão boa do Brasil estando longe?
BM: Olha, o fato de viver na França faz com que eu seja uma estrangeira lá e com que eu estranhe o Brasil quando chego aqui. Essa é a condição do escritor, ele precisa do estranhamento para escrever. A escrita requer o distanciamento. Isso nem sempre é fácil, porque a tendência da gente é se apegar. Em Curitiba, eu ouvi um poema lindo: “Ser livre é ser leve, é ser livre de todos os apegos”. Desapegar-se é, na verdade, uma longa iniciação, a gente nasce e vai aprendendo a se desapegar. Quanto mais se aprende isso, melhor se vive, acho eu. Nós, infelizmente, somos educados para a paixão, o limite é sempre imposto de maneira dura, rígida. A gente não sabe ensinar a criança a dizer não de maneira afável. A criança pensa que quando a gente diz não a gente a está rejeitando. A dificuldade que existe é a de transmitir serenamente o limite. O clarão é um romance que eu não teria escrito se não tivesse me analisado. Talvez seja a expressão mais clara do meu aprendizado com a psicanálise.
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Entrevista coletiva concedida a professores no lançamento em Porto Alegre (RS), maio de 2001.


