O clarão VI

O clarão

 

VI

Betty Milan define-se como “uma escritora que faz psicanálise e uma psicanalista que escreve”. Morando metade do ano em Paris, metade no Brasil, serve-se dessa rica e complexa experiência para incrementar. Se em Paris pode perambular tranquilamente pelas ruas do Marais, o bairro onde mora, no Brasil, nas cercanias da avenida Paulista, a realidade é diferente. Nem bem sai à rua, é abordada por pedintes, dos quais um despertou na escritora uma compaixão que desconcertou sua secretária, Celina: “Esse menino todo dia conta chorando a mesma história, é tudo mentira”. Para a escritora, “o menino era um artista e fingia a dor que deveras sentia, por isso, não tive como resistir a ele”. Ela diz esperar o dia em que sua literatura chegará à rua onde mora e àquele menino.

Nesta entrevista a Deonísio da Silva, ela conversa francamente sobre temas e problemas que a têm acompanhado, fazendo revelações sobre conflitos que rondaram seu duplo ofício de escritora e psicanalista.

P: Você é uma escritora premiada, traduzida e que tem obtido excelente desempenho nas livrarias em várias obras. Você está satisfeita com a sua carreira literária?
BM: Não sou uma mulher de carreira . Nunca pensei em fazer uma carreira psicanalítica ou uma carreira literária. A prova disso é que, em 1985, logo depois do Congresso de Psicanálise do Rio de Janeiro – o famoso Congresso da Banana, organizado pelo Colégio Freudiano, que foi aberto pelo Gilberto Freyre e encerrado pelo Joãosinho Trinta –, eu fechei meu consultório e fui embora para a França. No auge da “carreira”, com o Gilberto Freyre me dizendo que eu era a psicanalista do Brasil e com um consultório lotadíssimo, 20 pessoas por dia. Achei que precisava escrever O Papagaio e o Doutor e que não podia fazer isso no Brasil, onde era difícil me concentrar. Foi uma decisão que valeu, mas primeiro custou muito caro. Por três motivos. Primeiro, porque eu não sabia escrever um romance, sobretudo aquele, e precisei descobrir a forma além de desentranhar os conteúdos. Segundo, porque muitas pessoas brigaram comigo, não suportaram a minha irreverência, a sátira que eu fiz dos doutores brasileiros e franceses, dos sorbonícolas de Tão (São Paulo) e dos sorbonícolas de Paris, a sátira dos discípulos do Lacan e dos meus ancestrais libaneses para quem a mulher era um ser inferior. Terceiro, porque a filha do Lacan impediu de todas as maneiras que o romance fosse publicado por uma grande editora francesa. Só saiu por uma pequena editora, a Editions de L’Aube, que neste ano surpreendeu o mundo literário, pois Gao Xingjian, também publicado por ela, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. A vida dá muitas voltas, não é?

Mas, voltando à sua questão, eu preciso dizer que penei nesse caminho da literatura. Porque o que me interessa é dizer a coisa que precisa ser dita e frequentemente isso implica não seguir a convenção literária. Então, mais de uma vez, o texto não foi compreendido pelo leitor da editora. Isso aconteceu com vários livros. No caso deste último, O clarão, por exemplo, houve uma leitora que recusou o texto, alegando que “libélula é para literatura infantil”. Ora, todos os críticos gostam da libélula e o Flávio Loureiro chegou a dizer que a libélula é uma metáfora tão importante quanto os olhos de ressaca de Capitu. Também penei porque os editores brasileiros não levam os autores brasileiros a sério. Nem por isso eu teria deixado de trilhar o caminho indicado pela escrita. Em suma, sejamos pessoanos: tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

P: Você é uma psicanalista que faz romances ou uma romancista que faz psicanálise? Qual é o seu ofício dominante entre os dois? Ou há um equilíbrio?
BM: Sou uma psicanalista que escreve e uma escritora que faz psicanálise. Isso significa que a interpretação no consultório é função da relação que eu tenho com o texto e que a literatura que eu faço não pode deixar de levar em conta o inconsciente e depende da oralidade. Isso significa que se trata de uma literatura moderna, menos ligada à leitura do que à escuta. Por isso, as pessoas leem com tanta facilidade o meu texto. O clarão é para se ler numa sentada, no máximo duas, e depois reler sempre.

P: Durante algum tempo, você manteve coluna semanal no Jornal da Tarde. Reunidas em livro, resultaram na sua obra que mais vendeu, tendo superado os 20 mil exemplares, marca difícil de ser atingida por aqui. Você atribui isso à sua presença na Galáxia Gutenberg semanalmente?
BM: Você se refere ao Paris não acaba nunca, que, na verdade, vendeu 30 mil exemplares, foi traduzido para o inglês e o francês (edição pela 00h00.com) e agora para o chinês, com um título que retraduzido seria: “Paris tem mil charmes”. Acho que o sucesso deste livro não tem nada a ver com a Galáxia. Saiu sem um único artigo no jornal. A única entrevista que eu dei foi para a TV Cultura e o filme queimou. Acho que tem a ver com o texto e com a edição, que inclui fotos antigas de Paris, compradas por mim e pela editora, Luciana Villa-Boas, no quarteirão onde eu moro na França. As pessoas viajam lendo, porque o livro é um convite à errância, e as pessoas, que normalmente só fazem viagens organizadas, gostam de errar e de se surpreender. Ademais, como disse o filósofo Gérard Lebrun, Paris é a minha cidade. Vivi muito sozinha lá e me consolava com as pedras e os caminhos da cidade. Quando passo muito tempo longe de Paris, fico com uma saudade louca e, para dizer a verdade, fico com saudade mesmo quando estou lá. Sabe por quê? Porque não basta estar em Paris para alcançar a Paris de que eu falo no meu livro. Tem a ver com o sonho, com a irrealidade. No meu próximo romance, que será um romance epistolar, vou falar muito de amor, de sexo e de Paris, os meus temas prediletos. Foi difícil escrever O clarão. Agora, quero escrever um romance fácil.

P: A mulher passou de personagem a autora. E, excetuando as pioneiras, tudo começa depois da Revolução de 1930, consolidando-se nos anos de após-guerra. Referências como Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector lhe dizem alguma coisa? E contemplando as mais recentes, como Neide Archanjo na poesia, Márcia Denser na prosa, pode-se dizer que há um caminho feminino na literatura brasileira contemporânea?
BM: Claro que há um caminho feminino na literatura, porque os temas também dependem do sexo, ainda que o escritor possa fazer seus os temas do sexo oposto. A exemplo dos seus Avante, soldados: para trás e Teresa. Mas há também outro fator, a relação com o inconsciente. Tendo a achar que as escritoras mulheres são mais abertas a ele, deixam o inconsciente aflorar mais. Porque a educação é diferente. Mas isso não vale se considerarmos um Joyce ou um Baudelaire. Para cantar os países quentes e azuis – “les pays chauds et bleus” –, é preciso estar muito próximo do próprio inconsciente, acariciá-lo, escutar o ritmo.

P: Você fez um périplo por dez capitais do Brasil para lançar seu mais recente romance, O clarão. O que você achou mais relevante nesses encontros?
BM: No périplo, eu passei por dez cidades, das quais oito capitais. Gostei de ver a exposição “Os Dizeres do Amigo”, que nasceu de frases do Clarão, sempre bem exposta. Me surpreendi com o interesse das pessoas pelo tema da amizade em todos os lugares onde estive. Pensava que preferissem o tema do amor, mas não é bem assim. No terceiro milênio, é a amizade que vai predominar, e o amor vai ter que se tornar amigo. Acho que os tempos da estratégia militar como modelo da estratégia amorosa já vão longe. Les liaisions dangereuses, que é um belíssimo romance, na vida real não vai inspirar mais ninguém. A história que se inaugura neste milênio é diferente. Os homens vão poder ser mais ternos e nós ainda vamos fazer um maravilhoso elogio à fragilidade.

P: Flávio Loureiro Chaves, autor de alguns dos mais respeitados ensaios críticos e interpretações de nossa prosa contemporânea, de que é exemplo seu trabalho sobre Erico Verissimo, disse e escreveu que O clarão é um dos mais belos poemas em prosa de nossas letras. O que significou tal reconhecimento para você? É decisivo o reconhecimento de profissionais como Flávio?
BM: Flávio disse, na intervenção que fez na Casa Mário Quintana, que O clarão é o primeiro poema longo em prosa da nossa literatura. Também disse que é a primeira obra bem-humorada. Fiquei muito surpresa e feliz. Porque, para mim, a boa prosa é poética e ser bem-humorado é decisivo. O amigo que inspirou o romance dizia que o humor é a delicadeza do desespero e ser delicado conta muito. Eu digo mesmo que a ética subjacente à amizade é a ética da delicadeza.

P: Você mora um semestre em Paris, outro em São Paulo. Quais os prós e os contras de tal afastamento? Você não me lembra um Eça de Queiroz de saia, porque veste calça comprida, mas faz uma luta semelhante à dele, nutrindo-se na capital do livro no mundo e incluindo essa vivência na interpretação do seu país. Já comentamos uma vez que o Eça dizia que uma revista para leitores de língua portuguesa deveria ter muitas ilustrações. E você vive dizendo que é preciso inovar no trajeto que leva o livro do autor ao público. Quais são suas propostas para tais inovações?
BM: Acho que o minimalismo é um recurso importante, porque ninguém mais quer ou pode ler muito. Acho também que precisamos incorporar recursos da internet e da oralidade, introduzir o vazio e o tempo de silêncio na prosa. E por que não os recursos tipográficos que o computador pôs à nossa disposição? No Clarão há, por exemplo, frases escritas em letras garrafais, como nos outdoors, e eu cheguei a dizer que O clarão é um livro de publicitura. O autor precisa ser moderno, não imitar os outros, não ser papagaio de outros autores e nem de si mesmo. Quando eu termino um livro, já tem outro na pista, que é completamente diferente. Talvez porque eu tenha em mim três autores. O satírico, que escreveu O Papagaio e o Doutor e criou a mais irreverente das minhas personagens, a Seriema. O lírico, que produziu A paixão de Lia e O clarão. E o trágico, que escreveu O sexophuro, o primeiro dos meus romances, e voltará quando eu escrever o meu afresco do Brasil focalizando o Ayrton Senna e a minha rua, que é a do Banco Central, onde eu todo dia vejo os carros blindados da Brink, soldados com metralhadoras, mendigos que são verdadeiras reencarnações de Cristo, meninos de rua que são escolados na arte de mentir…

P: Betty, por que no Brasil é tão rara a amizade entre homens e mulheres? De alguma forma, isso tem a ver com o fato de nossa proclamada exuberância sensual? Ou se trata de conhecidos atavismos, que têm o fim de pôr a mulher num dos dois únicos lugares na vida de um homem que o machismo admite, os célebres cama e cozinha?
BM: Será mesmo que a amizade entre homens e mulheres é tão rara no Brasil? O meu maior amigo é um brasileiro. Seja como for, o que impede o desenvolvimento da amizade é o preconceito, a ideia de que entre os sexos só pode existir amor, paixão. Mas esse preconceito está datado. Sei disso pelo bate-papo que faço toda segunda-feira na UOL. E o nosso papel, como formadores de opinião, é difundir tanto quanto possível o ideário da amizade. Porque o amigo ilumina quando a paixão cega, ele é um anjo da guarda, protege, ele escuta, porque ganha perdendo tempo com o amigo e ele tem como vocação a paz, porque prefere empatar a vencer. Estou tão persuadida da importância da amizade que fui a uma reunião de secretários de Educação pregar a introdução de uma reflexão sobre a amizade no currículo escolar. Aleguei que o jovem prefere o amigo a qualquer outra pessoa e que, através da figura do amigo, é possível ensinar a ética da delicadeza ou da contenção, como diz o Dalai Lama, e controlar a violência social. Fui muito aplaudida. Tomara que a ideia vingue. Porque precisamos de paz e porque nós, brasileiros, somos cordiais, mas solidários nós não somos. Além de ser de paz, o amigo é solidário.

P: As mulheres não aceitam certa pureza masculina? Às vezes, tenho a impressão de que não se pode ser amigo de mulher bonita ou que tenha atrativos que vão para além da beleza física, que elas mesmas fazem ar de que ali há mais do que, por exemplo, interesse intelectual. Como você interpreta isso?
BM: A beleza pode ser um empecilho, porque predispõe ao narcisismo, que é incompatível com a amizade. Mas isso não é necessariamente assim. Conheço mulheres lindas que não são narcisistas. A Maria Fernanda Cândido, por exemplo, que por sinal é muito jovem. Ou a Nathalia Timberg, lindíssima. Escrevi sobre ela, dizendo que ela era grau zero de narcisismo.

P: Nosso presidente [Fernando Henrique Cardoso] é um homem culto, seus ministros também. No Congresso, na chamada alta sociedade, em lugares decisivos para os rumos do Brasil, onde pontificam instâncias formadoras de opiniões, o livro é sempre raro. Quando aparece, não é romance, não é conto, não é poesia. Fala-se em filósofos-amigos do presidente, mas não se fala em escritores-amigos do presidente. Parlamentares nunca estão lendo um romance, a alta classe no máximo ouve música, vai ao teatro, vai a shows. Nossa elite não lê?
BM: Nossa elite não lê os poetas e os ficcionistas. Por imaginar que só vão encontrar ideias novas nos filósofos ou nos cientistas? Curioso isso, porque não existe uma grande obra literária sem uma grande ideia subjacente. Dante escreveu que o amor move o sol e as estrelas e, ao escrever isso, falou como ninguém da condição humana, que os políticos não podem deixar de levar em conta. Os políticos se formam armazenando conhecimentos, mas seria melhor se eles se formassem refletindo sobre a virtude. Para fechar, eu gostaria de citar Montaigne: “Prefiro uma cabeça bem-feita a uma cabeça lotada”.

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Entrevista concedida a Deonísio da Silva, Especial para O Estado de S. Paulo, novembro de 2000.