O clarão IV

O clarão

 

IV

P: O que a levou ao formato de narrativa do Clarão?
BM: Quis escrever um texto acessível. Por isso, fiz deliberadamente capítulos curtos, do tamanho de uma crônica de jornal, precedidos por um título, como a crônica é precedida de uma manchete no jornal. Também procurei não escrever frases complexas e não usar palavras raras. O Daniel Kondo, que fez o projeto gráfico do livro e da exposição que nasceu do livro, “Os Dizeres do Amigo”, achou que os títulos eram excepcionais e precisavam ser trabalhados como poemas. O fato de eles estarem escritos na vertical faz o leitor se deter e pensar. Essa era uma das minhas metas. O clarão é um livro que o leitor de certa forma escreve, justamente por ser uma escrita minimalista, uma escrita para a qual eu tenho vocação.

P: Por que o Carnaval é um tema recorrente em seus livros?
BM: Porque o Carnaval é uma fonte inesgotável de prazer e de sabedoria. Com O clarão, eu descobri que Momo e Buda podem ser comparados e que a cultura do samba ensina a encarar a morte, que é um dos grandes temas do meu romance. O que a Ana percebe no fim do romance é que a morte é uma estrela, porque ela indica o caminho. Quem sabe dela não perde tempo e não desperdiça a vida. Digamos que a morte é uma estrela invisível, que a gente só vê com os olhos do coração. Se nós nos detivermos nas letras dos sambas, nós aprenderemos muito. A Ana aprende a não ser uma carpideira com Noel Rosa, com a canção que diz: “Quando eu morrer, não quero choro nem vela”. Gosto muito da nossa cultura popular, porque talvez seja a única grande contracultura de massa do mundo. Não conheço outra. O que me prende ao Brasil é ela. Porque o Brasil não é moderno. Às vezes parece que é, mas não é. Apesar do computador, a maioria das pessoas ainda vive com uma noção do tempo que é a da Casa Grande & Senzala. Tudo no país demora muito e nós até conseguimos começar o milênio com o “apagão”.

P: Você não teme que o conteúdo de um “romance de sabedoria” ou iniciático possa ser confundido com os best seller) de autoajuda? Há um evidente tom de ajuda em O clarão, coisa que a Lya Luft, por exemplo, já tinha feito também em seu último livro, de 2000.
BM: Sua pergunta é boa. Eu esperava por ela. Como o publicitário do meu romance é um filósofo popular, que afirma “Penso nos outros, logo existo”, é natural que a amiga do publicitário, a Ana, que é a principal personagem, seja ajudada por ele para vencer o medo da morte. Digamos que ele indiretamente a ajuda. Mas isso nada tem a ver com os livros de autoajuda, porque nestes o projeto de ajudar o leitor é explícito e o título em geral diz isso: Aprenda a vencer o medo da morte ou Aprenda a não sofrer etc. A minha posição enquanto autora é completamente diferente da posição do autor de um livro de autoajuda, que é sempre um diretor de consciência. A libelulazinha do Clarão está mais para a pitonisa ou para o psicanalista. Faz a Ana encontrar o caminho através de afirmações ou respostas frequentemente enigmáticas. Acho que O clarão ajuda as pessoas como um romance pode ajudar. Ou seja, produzindo uma realidade na qual elas não haviam pensado e, assim, introduzindo-as em questões novas. Por outro lado, é preciso não esquecer que O clarão é um romance sobre a amizade entre um homem e uma mulher e que os amigos desde sempre se ajudam.

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“A morte como uma estrela”, entrevista concedida a Cris Gutkoski. Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 16/06/2001.