O clarão
P: Em que épocas a amizade foi mais valorizada?
BM: Não sou historiadora, mas, quando escrevi O clarão, li os clássicos, sobretudo Aristóteteles, Cícero e Montaigne. Aristóteles era grego e era filósofo. Viveu no quarto século antes de Cristo. Cícero, o autor do famoso De amicitia, era romano e, além de homem de Estado, era um grande escritor. Viveu no primeiro século antes de Cristo. Montaigne, o autor da mais bela frase sobre a amizade – “Porque era ele e porque era eu” ––, era um escritor francês renascentista. A amizade foi valorizada em todos os tempos. Pelos gregos, que a consideravam mais honrada do que o amor, pelos romanos, que fizeram templos em sua honra, pelos homens da Idade Media, da Renascença e pelos modernos, que também escreveram sobre o assunto. Através da amizade, os grandes pensadores meditaram sobre o amor, a vida e a morte.
P: O conceito de amizade variou com o tempo?
BM: Variou, mas, para todos os pensadores, a amizade sempre nasce do coração e o que une os amigos não são os interesses, embora eles possam vir a ter interesses comuns. Procurei dar ênfase no Clarão aos traços do amigo que são comuns a todos os tempos e por isso apresento o amigo, que no romance se chama João, como alguém que ilumina – sabe clarear o espírito de Ana, a amiga, quando a paixão a cega. O amigo ilumina e ele protege – sabe, por exemplo, ensinar a contar as folhas e os frutos e não contar as folhas que tombaram –, é desprendido – sabe suportar que o amigo não esteja disponível –, sabe escutar e é sempre de paz. O amigo não fala para ganhar, ele prefere empatar a vencer. A propósito do que variou no conceito de amizade ao longo do tempo, acho que o mais importante é que, no passado, ela era inconcebível entre sexos diferentes. Só agora está se falando de amizade entre um homem e uma mulher. A originalidade do Clarão está nisso. João e Ana são amigos independentemente do que os outros possam pensar e do que possa lhes acontecer. São amigos até que a morte os separe. Os verdadeiros amigos são assim, o amor deles nunca é de agora, como disse o Carlito Maia, que inspirou o livro.
P: O que a amizade representa para o homem de hoje?
BM: A amizade verdadeira é rara, mas existe e pode servir de modelo para as diferentes relações. Por um lado, os tempos não são favoráveis à amizade, por outro, ela está sendo revalorizada, porque nós precisamos de uma espiritualidade nova, fundada num saber novo. O saber do amigo é eminentemente moderno. Valioso, porque pode ensinar a conter a violência e a conquistar a paz no terceiro milênio, já que a paz é a vocação do amigo. Alcançar a paz no mundo – o século XX foi, como nós todos sabemos, um século de guerras. Alcançar a paz no âmbito do país, que está mais entregue do que nunca à violência. O amigo é o pacifista de que os tempos de hoje precisam.
P: Como ter amigos verdadeiros numa sociedade como a nossa, em que a maioria das pessoas alega falta de tempo para se dedicar aos outros?
BM: Verdade que na sociedade do time is money o amigo tende a rarear. Porque, do ponto de vista do mercado, perder tempo gratuitamente é sinônimo de perder dinheiro. Mas o amigo se enriquece com a gratuidade, ele ganha perdendo tempo com o amigo. Aprendi o valor da gratuidade cultivando a amizade, mas também praticando a psicanálise, onde a associação deve ser livre e a pura perda deve vigorar para o analisando chegar à verdade. O amigo é uma figura essencial na existência do homem em qualquer tempo e em qualquer lugar. Quem não tem inventa. O filme O náufrago mostra isso. O náufrago transformou uma bola de vôlei num amigo, desenhando nela com o próprio sangue um rosto. Ele fez isso para sobreviver. O momento mais dramático do filme é quando a bola cai da jangada e ele perde o amigo no mar. O náufrago então chora como quem vai morrer, chora a perda do seu querido “Wilson” como quem perde a vida.
P: Na sua opinião, qual o impacto da comunicação e da internet na experiência da amizade?
BM: A comunicação pode enfraquecer a experiência da amizade, suprindo a falta de maneiras virtuais, mas também pode enriquecer, e é o caso da internet. Porque a amizade depende das palavras e pode se construir através de uma troca epistolar. Tudo o que o amigo faz pelo amigo pode ser feito através da internet : iluminar, proteger, contentar, consolar etc.
P: Por que escrever um livro sobre a amizade inspirado na vida do Carlito Maia ?
BM: Carlito foi o amigo que eu conheci que poderia ter inspirado o livro. Porque ele sustentava a amizade com frases que hoje se tornaram lapidares. Porque ele fez a ética da delicadeza vigorar a vida inteira, ensinou a todos o valor do flower power, com as flores da Globo que ele enviava a cada lançamento, inauguração etc. Carlito foi um anjo como poucos. Tive o privilégio de ter sido escolhida por ele como amiga.
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“A quantas andam suas amizades?”, entrevista concedida a Daniela Falcão, Folha de S. Paulo, Equilíbrio, 19/04//2001.


