O clarão I

O clarão

 

I

P: Qual a origem deste seu novo romance?
BM: O clarão é um romance que eu escrevi por causa de um amigo. Um homem notório, Carlito Maia, um mineiro de São Paulo, um paulista que foi diretor de Comunicação da Globo, fundador do PT e o homem que lançou a Jovem Guarda. Se eu tivesse que falar do Carlito em poucas palavras, eu falaria dele através de suas frases. Por exemplo: “Conta no teu jardim as flores e os frutos, mas não conta as folhas que tombaram”. Uma frase que ensina a ser leve, a não valorizar a tristeza. O clarão, aliás, foi inspirado numa fax que o Carlito me enviou em 1997, quando ele adoeceu: “Venha me visitar antes que eu já não esteja”. Por causa do medo de perder o amigo e do estranhamento diante da frase, eu escrevi o romance. Estranhamento, porque não é usual falar na própria morte. Nós, hoje, consideramos que a morte é um mau tema. O fato é que o pedido do Carlito me levou a escrever o livro, que primeiro se chamou “O amigo”. Só depois passou a se chamar O clarão, por causa de uma iluminação que eu tive enquanto escrevia. Foi quando eu percebi que só quem pensa na morte não perde tempo e não desperdiça a vida.

P: Do que trata o romance?
BM: O clarão é um livro que exalta a amizade. A história mostra que vale a pena não deixar de ser amigo em circunstância nenhuma. Eu estava tão convencida disso quando comecei a escrever que me empenhei em fazer um texto extremamente simples, muito acessível. Me obriguei a escrever capítulos pequenos, parágrafos curtos. Dei título aos capítulos, como nos artigos de jornal. Como o meu personagem é um publicitário, eu me vali dos recursos da publicidade. O resultado é um livro que o leitor vai escrever com as suas reflexões, à medida que for lendo. Trata-se, na verdade, de um convite à meditação, de um romance de sabedoria. De todos os meus livros, O clarão é o mais simples. Felizmente, pois a amizade vai contar cada dia mais, por causa da dissolução da família tradicional, mas não só por isso. A amizade vai ser decisiva no terceiro milênio, porque a paz é a vocação do amigo e nós que já chegamos na lua ainda não conquistamos a paz. O personagem do Clarão é um pacifista, como o Carlito Maia, que pregava o flower power, o poder da flor, cujo único poder é o de nos maravilhar.

P: Por que esta exaltação da amizade?
BM: O clarão exalta a amizade por mais de uma razão. Porque o amigo ilumina, é ele que permite enxergar quando a paixão cega – a paixão do dinheiro, do sucesso, do ódio. Porque o amigo é um anjo da guarda, ele é um protetor – ensina a não dar valor para o que é ruim. Ele ilumina, protege e escuta. E o amigo é generoso, por definição, ganha perdendo tempo com o seu amigo.

P: Por que você lança o livro com uma exposição?
BM: Quem é amigo é solidário e eu achei importante difundir o ideário da amizade. Isso deu origem à exposição “Os Dizeres do Amigo” e ao Projeto Amizade no Terceiro Milênio, que, valendo-se da rede de bibliotecas públicas, se realiza em oito capitais do Brasil, difundindo “o saber do amigo”, que é eminentemente moderno. Isso é valioso, porque pode ensinar a conter a violência e alcançar a paz, já que a paz é a vocação do amigo. Alcançá-la no mundo – o século XX foi, como nós todos sabemos, um século de guerras. Alcançá-la no âmbito do país, que está mais do que nunca entregue à violência.

P: Por que o amigo se tornou hoje tão importante?
BM: O amigo é o pacifista de que o tempo de hoje precisa. E ele é o interlocutor do homem moderno. Os “absolutos religiosos” não resistem diante do pluralismo que faz o jovem muçulmano se encontrar com o judeu ou com o menino católico no mesmo banco de escola. Ninguém mais diz “esta é a tradição verdadeira” ou “esta é a verdade”, porque agora cada indivíduo é o produtor da sua própria verdade. O homem moderno compõe a sua religião com toda a liberdade em função do seu bem-estar. Quem melhor do que o amigo para validar o conjunto de crenças desse homem? Por ser livremente escolhido, o amigo é o seu interlocutor privilegiado. O declínio da religião concebida como um sistema de crenças dogmáticas e a necessidade de uma nova espiritualidade são hoje evidentes. Isso porque tanto a ciência quanto as leis podem ajudar a prever as consequências das nossas ações, mas nenhuma delas é capaz de nos dizer como agir numa questão de natureza moral. A nova espiritualidade implicará, como nos séculos passados, a responsabilidade em relação ao próximo e a si mesmo – ou seja, uma conduta virtuosa, que pode encontrar na conduta do amigo o seu modelo, porque o amigo contenta e se contenta, ele consola e se consola.

P: O que é preciso para ser verdadeiramente amigo?
BM: A amizade supõe uma ética – a ética da delicadeza, ou da “contenção”, diz o Dalai Lama –, que tanto ensina o cuidado quanto o respeito. É a única esperança para superar a escalada de crimes e de violência no mundo contemporâneo. Conter-se é adotar deliberadamente uma disciplina baseada numa avaliação das vantagens de agir de um determinado modo e não de outro. Isso nada tem a ver com reprimir a emoção para mostrar autocontrole. O amigo se controla porque o controle é a condição da sua liberdade e da liberdade do outro, sem a qual a amizade não existe. Porque ela nasce espontaneamente, mas precisa ser cultivada para continuar florescendo.

P: O tema da amizade é central no Clarão, mas também o tema da morte. Por quê?
BM: Precisamente porque ele é hoje considerado um mau tema, fato que tem consequências nefastas, como, por exemplo, os jovens correrem o risco da morte violenta por não refletirem sobre a morte. Uma pesquisa feita recentemente pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, mostra que a morte violenta rouba três anos na média de vida do homem brasileiro e que ela o atinge principalmente no início da vida economicamente ativa. A morte violenta é uma morte selvagem, que pode ser evitada se nós não negarmos a possibilidade da morte. Não negar essa possibilidade é a condição para uma vida melhor. Por isso no Clarão a personagem descobre que a morte é uma estrela, uma estrela invisível, que a gente só vê com os olhos do coração. Ao descobrir isso, ela se dá conta de que a pessoa que não nega a morte não perde tempo e não desperdiça a vida.

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Entrevista preparatória do lançamento da obra, concedida à Editora de Cultura.