MDMagno continua entre nós
Betty Milan
Foi batizado com o nome Magno Machado Dias. Subverteu a ordem, atribuindo-se um nome digno da sua grandeza humana e intelectual: MDMagno. Foi um grande psicanalista por ser um grande poeta. A notícia do seu falecimento, no dia 4 de agosto de 2025, chegou com o poema “Chega de amor”.
Como Lacan, de quem ele foi discípulo, Magno sabia que o amor é o desejo impossível de fazer Um porque há dois. O poema termina com o verso: “De dois não fazer Um mas fazer dois”.
Nos encontramos no ano de 1975, em Paris, onde ele e eu fazíamos análise com Lacan. Pouco depois do encontro, no tradicionalíssimo Petit Cluny, que fica no Boulevard Saint Michel, ele propôs que fundássemos um Colégio para transmitir a Psicanálise. Magno era felizmente mais ousado do que eu. Lacan, com quem eu falei sobre a ideia do colega, gostou e nos deu o seu aval. Assim nasceu o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, do qual saíram vários excelentes psicanalistas.
Em 1985, graças à iniciativa dos membros cariocas do Colégio, fizemos um congresso no Copacabana Palace que reuniu quase mil pessoas. José Celso Martinez Correa compareceu, Ferreira Gullar, Maria da Conceição Tavares e muitos outros intelectuais e artistas. A pedido de Magno, eu fui ter com Gilberto Freyre no Recife para pedir que aceitasse ser o convidado de honra. Apesar da idade avançada, ele aceitou e fez um discurso exaltando a cultura negra do Brasil. O congresso terminou com uma festa gloriosa no Copacabana, oferecida por Joãosinho Trinta, que havia sido entrevistado por membros do Colégio e que levou a sua escola de samba para fechar o evento.
Magno, como eu, era adepto da cultura do brincar e foi também por isso que a teoria lacaniana pôde ser transmitida eficazmente pelo Colégio. Brincando com a língua, ele encontrava as soluções mais convincentes para os neologismos de Lacan. Também para definir e diferenciar a nossa cultura. Ainda me lembro do jantar no Copacabana Palace, em que ele introduziu o conceito de “Améfrica Ladina” para falar do Brasil.
Tive a sorte de encontrá-lo na estrada da vida. Não aconteceu por mero acaso. Foi um acaso objetivo, como diria André Breton.


