Marcos Akayaba: um arquiteto tão genial quanto humano (2026)
Betty Milan
Um primeiro apartamento foi comprado no Hotel de Tallard em 1982 e nós vivemos só nele até 1997. O apartamento ao lado era de uma iraniana com a qual eu conversei algumas vezes. Só algumas, porque na França os vizinhos não se frequentam. A ponto de Henry Miller escrever que preferia procurar pão no lixo a pedir para o vizinho. O fato é que, na residência da iraniana, eu me surpreendia com as esculturas da cornija e de uma frisa de madeira inteiramente caiada de branco. Acaso também seriam do século XVIII?
Quando meu filho completou 15 anos, o apartamento foi posto à venda e ele insistiu com o pai para que o comprasse. Sua paixão era o cinema e Mathias havia instalado no nosso apartamento um telão para assistir a filmes com os colegas. Não queria os pais por perto o tempo todo. A insistência foi tal que Alain se dispôs a fazer o negócio e o apartamento vizinho foi adquirido, um duplex que precisava de reforma.
Depois da compra, ficamos sabendo que era a sala de música do Hotel de Tallard e as esculturas haviam sido feitas para decorá-la. Na cornija, havia figuras da mitologia grega – pequenos pégasos –, da comedia del arte – máscaras – instrumentos de música e anjos por toda parte. Na frisa, os rostos de dois homens e de uma mulher da nobreza esculpidos. Alain quis que a cornija e a frisa fossem valorizadas. Para tanto, seria preciso fazer um quarto grande na parte de cima, na qual elas estivessem inteiramente à mostra, exaltando o teatro, a música e os nobres que frequentavam a residência do conde de Tallard.
Marcos Akayaba, que foi o arquiteto da renovação, concordou. Mas achava necessário fazer também um closet no andar de cima. Isso implicava dividir o espaço em dois e perder de vista a cornija e a frisa na sua totalidade. Alain não quis e Marcos encontrou outra solução: um único armário para a roupa e gaveteiros à volta do quarto inteiro. Não podia ter sido melhor.
Terminado o projeto, Alain contratou uma empresa. Mas o apartamento só ficou pronto um ano depois, porque a frisa de madeira precisava ser restaurada e nós só teríamos como financiar a restauração com Les Compagnons du Devoir, uma rede de jovens artesãos que, além da excelência técnica, enaltecem a solidariedade. São jovens que trabalham em diferentes áreas, também em marcenaria. Alain entrou em contato com a rede dos Compagnons e conseguiu a sua adesão.
Me lembro ainda do marceneiro que só ia trabalhar à noite por querer silêncio absoluto para se concentrar. Do seu nome eu me esqueci, porém sou muito grata a ele porque admiro a cornija e a frisa há vinte cinco anos, imaginando como teria sido a vida ali no século do iluminismo e da libertinagem. Sei perfeitamente que sou uma privilegiada e o meu tempo no lugar está datado. Por isso mesmo gosto ainda mais dele. A finitude ilumina e engrandece o presente.
No andar de baixo do apartamento eu trabalho quando estou na França – seis meses por ano. Durante o dia, o espaço é só meu. Há nele duas mesas, uma menor que é redonda e outra retangular bem maior. A pequena serve para comer no dia a dia. A maior, feita sob medida para escrever, fica em frente a um armário onde eu guardo o computador, que aparece se eu abrir a porta. Com isso, a mesa serve para almoçar ou jantar com várias pessoas. O que era escritório vira sala, graças a um projeto que oferece a possiblidade de usar o espaço de diferentes maneiras. Uma arquitetura que faz do usuário um interprete e é, portanto, contrária ao autoritarismo. Tão genial quanto humana.
Hoje, que Paris foi tomada pelo turismo de massa e deixou de ser um lugar no qual se pode andar sem preocupação e sem medo, sinto um alívio quando chego no 78 rue des Archives e vejo a porta do Hotel de Tallard, que é tombada pelo patrimônio histórico. Me sinto segura ao entrar no pátio por onde as carruagens passavam no século XVIII e olho para o prédio onde vou me abrigar. Bendigo então o fato de ainda estar na cidade, repetindo o título do livro que eu escrevi há três décadas: Paris não acaba nunca.
A Cidade Luz é um museu a céu aberto, cuja beleza freia a violência e sustenta a civilização. Como Alain, para quem todo minuto vivido fora de Paris era um minuto perdido, Marcos exaltou a cidade criando um espaço em que o presente valoriza o passado e vice-versa, tão moderno quanto eterno.


