Fale com ela II

Fale com ela (2007)

 

II

P: Como foi que surgiu o Fale com ela?
BM: Há muito eu queria responder a cartas de leitores. Desde os anos 80, quando O Globo me convidou para substituir Shere Hite, autora do Relatório Hite sobre a sexualidade. O jornal me pediu para fazer um teste, mas não aprovou a resposta, pois não era politicamente correta. Passadas duas décadas, propus o consultório sentimental ao Otavio Frias Filho. Depois de um teste em que respondi a três cartas de leitores, a Folha de S. Paulo aceitou a proposta. Em vinte anos, houve uma evolução dos costumes, uma liberdade de expressão maior se tornou possível. O que a modernidade precisa, depois da “revolução sexual” é de uma nova educação sentimental.

P: Podia explicar isso?
BM: Quando se fala em sexualidade, é preciso mencionar Alfred Kinsey, cujos relatórios O comportamento sexual do homem (1948) e O comportamento sexual da mulher (1953), foram subversivos. Mostraram que os homens e as mulheres transgrediam secretamente as regras estabelecidas. O primeiro relatório mostrou que 50% dos homens tinham atração por homens até o fim da adolescência. Que 54 % dos solteiros de 30 anos tiveram relações homossexuais e 37 % dos homens tiveram pelo menos uma relação homossexual na vida. Os números falavam e falam por si. O segundo relatório mostrou que 62% das mulheres se masturbavam. Que um terço das mulheres casadas tinha tido uma relação sexual antes de casar. A repercussão do relatório Kinsey no mundo inteiro foi enorme. Provocou um escândalo liberador. Quem podia insistir nos tabus diante dos dados apresentados pelo cientista visionário? Isso foi nos anos 40 e 50. Depois, nos anos 60, houve a “revolução sexual”, condicionada pela descoberta da penicilina e da pílula. Já não havia por que ter medo da sífilis e da gravidez indesejada. A palavra de ordem era transar livremente, sem freio algum. Foi um grande passo à frente. Mas existiu o outro lado da moeda. Nós escapamos da repressão imposta às gerações anteriores, só que, para ser liberada, a mulher precisava dizer sim a todas as propostas masculinas e o homem precisava obedecer o imperativo de ter uma atividade sexual intensa. Houve uma tirania do sexo, nós éramos obrigados a transar para provar que éramos livres. O que aconteceu nos anos 60 mostra que, sem uma educação sentimental consequente, baseada nos conhecimentos da psicanálise, a verdadeira liberdade sexual não existe. Porque ela depende da liberdade subjetiva, que nenhuma revolução ensina. O sexo só é livre quando escapa à incriminação, à obrigação e à compulsão. Ou seja, quando o sujeito é livre e isso é uma conquista. Nós não nascemos livres, podemos nos tornar livres, além de independentes.

P: Em que consiste a nova educação sentimental?
BM: Uma educação que procura transmitir duas ideias. Primeiramente, que é tão possível se liberar dos preconceitos quanto da tirania da moda. A exemplo disso, a tirania a que eu já me referi – a de ter que chegar ao orgasmo, meta que os sexólogos impuseram à sexualidade e contra a qual Bruckner e Finkielkraut se rebelaram em A nova desordem amorosa (1977), mostrando que a liberação sexual se acompanhou de uma codificação rígida, em que o modelo da sexualidade passou a ser a sexualidade masculina. A segunda ideia da nova educação sentimental sustenta que, para não estar continuamente sujeito ao inconsciente, é preciso levar em conta a sua existência e decifrá-lo quando isso se impõe.Trata-se de uma educação que procura fazer a palavra liberdade ressoar, valorizando a particularidade de cada história e promovendo a diferença de cada um. Isso é o que eu procuro fazer na coluna.

P: Como é que você desenvolve a coluna?
BM: Me baseio na queixa e no pedido do leitor, assim como no estilo do seu texto, nas repetições e nos lapsos. Procuro esquecer o que estudei para me debruçar livremente sobre a pergunta – até encontrar a resposta que ela sugere. Só então eu me remeto às minhas leituras, a fim de ilustrar a afirmação com textos de outros autores, os que mais me marcaram ao longo da vida e, de certa forma, serviram para a minha própria educação sentimental. A coluna se inscreve numa tradição da nossa cultura – a do consultório sentimental, que data da antiguidade. Assim, na maioria de suas cartas e tratados morais, Sêneca atende a amigos que escrevem pedindo conselhos. No Brasil, o consultório sentimental mais conhecido foi o de Nelson Rodrigues, que se valia do pseudônimo Myrna e respondia como se fosse uma cartomante.

P: Quais são os temas preferenciais dos leitores que escrevem para a coluna?
BM: Os temas são os mais variados, porque recebo e-mails dos dois sexos e de todas as camadas sociais. Da mulher desesperada porque deseja que o marido seja violento na cama. Da que é infeliz por gostar de um homem que “é tudo na cama”, porém “é um cachorro”. Do marido que veste a esposa de call girl  e se maldiz por ser exibicionista. Do rapaz que prefere o amigo à namorada para transar, só que não gosta de gay. Do jovem da favela, que não sabe se vai pelo caminho do crime ou pelo caminho do bem. Respondi inclusive a um policial que me escreveu perguntando como aplicar a lei sem ser violento. Mas a maioria das pessoas quer orientação relativa a questões de amor ou sexo.

P: Qual a carta de leitor que mais a surpreendeu?
BM: A carta do policial. Não podia imaginar que o Fale com ela tivesse sensibilizado a polícia. Isso significa que, além de um efeito no plano subjetivo, a coluna tem um efeito social. Justamente porque eu não parto do conhecimento, mas do meu não-saber. Suspendo o conhecimento da teoria para me deixar surpreender pela questão do leitor e vir a saber algo novo graças a ela. Só estou interessada na novidade que o trabalho revela.

P: A que você atribui o sucesso do projeto?
BM: A coluna revela ao leitor a sua particularidade. Acho que isso é uma novidade na imprensa. Em geral, quem faz consultório sentimental assume a posição de quem aconselha ou cura. Não faço nem uma coisa nem outra. Não acredito na eficácia do conselho e sei que não existe cura pelo jornal. O que me interessa é fazer o método analítico vigorar e levar os leitores a se identificar com quem enviou o e-mail ao qual respondo.

P: Antes de Fale com ela, você esceveu um ensaio muito polêmico e três romances sobre o amor…
BM: Em 1983, a Editora Brasiliense lançou O que é amor, um livro controvertido por eu ter escrito que o amor no Brasil é diferente do amor na Europa, cuja referência é Tristão e Isolda, é Romeu e Julieta…Estes amantes querem o impossível e só vislumbram uma saída através da morte. Nós, brasileiros, não cultuamos o amor infeliz. Valorizamos a alegria e cultuamos o brincar. Acho que isso causou polêmica na época por causa do nosso desejo de ser iguais aos europeus. Seja como for, o livro foi bestseller e depois foi reeditado pela Record com o título E o que é o amor.

P: E os três romances de amor?
BM: Escrevi três romances nos quais os personagens falam livremente de amor e de sexo. No primeiro e no segundo, O sexophuro e A paixão de Lia, o que me interessava era dar voz ao desejo feminino, porque eu estava às voltas com essa questão. Escrevi A paixão de Lia depois de ter ouvido o monólogo da grande personagem feminina de James Joyce, Molly Bloom. Fiquei maravilhada, mas achei que ela sustentava o desejo do gozo sem dar asas ao imaginário erótico feminino, não era tão livre como eu gostaria que fosse. Depois de A paixão de Lia, escrevi O amante brasileiro para dar voz ao desejo do amor que é indiferente ao sexo das pessoas.Os três romances formam uma trilogia. A primeira parte é a história de uma mulher infeliz. A segunda parte diz respeito a uma mulher que é feliz porque tem liberdade de imaginar, mas não encontra o amante que procura. A terceira parte é a experiência do amor feliz entre um homem e uma mulher, Clara e Sébastien. Todos os personagens são atrevidos – e, se eu tivesse escrito nos anos 70, os livros teriam sido censurados. Por sorte, o que me interesssava naquela época era viver a experiência da liberação sexual. A escrita veio depois. Seja como for, também foi por ter escrito os três romances que eu fiz o Fale com ela. A literatura possibilitou várias descobertas de que eu me vali neste livro.

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Entrevista concedida à jornalista Thaís Oyama, que serviu de base para o perfil da autora, publicado sob o título de “Você fala e ela escuta de verdade” na revista Veja, 4/04/2007.