Fale com ela (2007)
P: Dá pra saber de quando e de onde vem essa ideia de “consultório sentimental”?
BM: O consultório sentimental se inscreve numa tradição do Ocidente e pode ser datado de Sêneca, que escreveu sua obra respondendo cartas de leitores. O consultório mais conhecido do Brasil é o do Nelson Rodrigues, cujas colunas estão reunidas num livro. Nelson Rodrigues inventou uma personagem chamada Myrna, uma cartomante, e ele respondia da posição dela. As colunas são lindas. O meu consultório tem como referências a psicanálise e a literatura. Respondo da posição do escritor que tem formação analítica, procurando transmitir duas ideias: a de que a liberdade é possível e a de que o inconsciente existe. Na verdade, trata-se de uma só ideia: a liberdade é possível se levarmos em conta a existência do inconsciente. A liberdade do sujeito depende da sua história, ou melhor, da rememoração e da reinvenção da sua história. Assim, por exemplo, a revolução sexual dos anos 60 liberou o sexo, mas, por outro lado, foi tirânica, porque obrigou as pessoas a transar. Nós apenas somos livres quando escapamos aos imperativos da moda. No meu livro, explico por que o sexo só é livre quando não há nem repressão, nem obrigação e nem compulsão.
P: Você já parou pra pensar o que leva alguém a escrever a uma pessoa desconhecida pedindo um conselho pra sua vida? É solidão?
BM: O que leva o leitor a me escrever é o desejo de ser escutado. Porque a escuta verdadeira é rara. As pessoas ouvem, mas não escutam. A maioria das pessoas, aliás, não se escuta. Por isso é que a análise existe, e o que eu quis no meu consultório sentimental foi colocar a escuta analítica ao alcance de todos. Nunca pretendi curar pelo jornal, porque essa possibilidade não existe. Partindo da pergunta, procuro oferecer alternativas novas. Conselho eu não dou, porque não adianta. Indico caminhos, dou referências. Na realidade, nós ficamos perdidos depois da revolução sexual, pois surgiram questões sentimentais de que nem a família e nem a escola dão conta.
P: Na apresentação do livro, você diz que “assume a posição do escritor que tem formação psicanalítica e não de analista”. Explica isso melhor, por favor.
BM: O analista ouve e só intervém quando o analisando está no ponto de encontrar a resposta. Ou seja, dispõe da continuidade das sessões para isso. O consultório sentimental se limita a uma pergunta e a uma resposta. Não é possível ocupar a posição do consultor da mesma maneira que se ocupa a posição do analista, pois as condições de trabalho são completamente diferentes.
P: Imagino que seus conselhos ou orientações são todos baseados na psicanálise, não é? Fale sobre isso.
BM: Não dou conselhos, mas como a minha orientação é analítica, eu levo o sujeito a se debruçar sobre a sua própria história e a olhar para ela com olhos novos, ou melhor, escutá-la com outros ouvidos. Não existe recurso mais poderoso, mais vital do que a escuta. Bastaria que Freud tivesse descoberto isso para justificar a psicanálise – caso ela precisasse ser justificada, não precisa. Ainda que nos Estados Unidos, por exemplo, ela esteja em vias de desaparição. Talvez por não terem surgido lá analistas capazes de encontrar formas de transmissão compatíveis com a cultura americana, que é extremamente pragmática. Nos Estados Unidos, time is money, e o analista precisa levar isso em conta lá, mesmo que o time is money nada tenha a ver com a cura analítica. Nesta, a relação com o tempo é de outra ordem, porque é sempre por acaso que a gente diz o essencial. O melhor exemplo disso é o lapso. Através dele, a gente expressa sem querer o que verdadeiramente deseja. O fato é que o modo de transmissão que serve num país não serve noutro. Para transmitir a psicanálise lacaniana no Brasil, nós brasileiros recorremos ao jornal e, na época, nos anos 80, foi um procedimento novo, inimaginável na França, por exemplo. Refiro-me ao grupo do Colégio Freudiano, que fundei com Magno Machado Dias no Rio de Janeiro. Foi um grupo original, porque não nos restringíamos à escuta no âmbito do consultório.
P: Como assim?
BM: Fomos os primeiros a ouvir os carnavalescos. O CFRJ publicou em livro uma entrevista maravilhosa do Joãosinho Trinta, em que ele falou da sua homossexualidade. Na época, isso causou surpresa. Escrevi um livro chamado Os bastidores do Carnaval, que resultou da escuta dos carnavalescos nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Só depois da edição desse livro a televisão passou a se interessar pelo que acontecia nos barracões, ou seja, nos bastidores do desfile.
P: E você não tem que abrir mão de nenhum “princípio” psicanalítico para fazer esse trabalho?
BM: Não. Simplesmente porque eu não me proponho a fazer o que eu não posso fazer no âmbito do consultório sentimental, não caio na armadilha de quem pretende curar ou salvar. Não respondo à demanda para não enganar o meu leitor. Indico a ele um caminho. Parto do seu caso singular, considero o discurso, o estilo, as repetições e os lapsos e procuro encontrar o que há de universal no caso, para que o sujeito aprenda a se escutar e os outros leitores se identifiquem e possam tirar uma lição da coluna. O drama de uma mulher que foi estuprada pelo pai pode se tornar universal, se mostrarmos a sua universalidade. Para fazer isso, eu frequentemente recorro à literatura. Daí as tantas notas do Fale com ela, que eu escrevi evocando os meus autores prediletos, os autores com quem eu própria me eduquei. Como Octavio Paz, cuja obra A dupla chama é um livro de cabeceira para mim. Trata-se de um grande ensaio sobre o amor, que Paz escreveu com mais de 80 anos. Tive o prazer de entrevistá-lo longamente em Paris.
P: Parece que as mulheres escrevem mais do que os homens, não é? Você já descobriu por que isso acontece?
BM: Você está se referindo aos leitores da coluna? Se for isso, respondo que recebi mais e-mails de mulheres, porque elas se autorizam mais a falar dos próprios sentimentos. Até recentemente, os homens nem chorar podiam. Agora, os tempos mudaram, mas, ainda assim, o machismo tende a inibir a fala. Macho que é macho não fala de si. Porque, para ele, falar é dar o braço a torcer. Sendo contrário à contenção, o machismo está fundado na repressão.
P: Há casos mais difíceis de serem respondidos? Quais e por quê?
BM: Todos os casos são surpreendentes e difíceis, porque são tratados na sua singularidade. Não há dois casos iguais e, para dizer a verdade, não me lembro de casos que se assemelhem. A cada vez, eu respondo a uma questão única. Procurei esquecer o que sabia para aprender no ato de responder. Quem lê as colunas tem a impressão de estar lendo contos da vida real. Daí, talvez, a forma de diagramação do livro, que apresenta as colunas como contos. Olhada de perto, a vida real é inacreditável, faz pensar na ficção. Também por isso o consultório sentimental é interessante, ele revela fatos inimagináveis.
P: Quais os assuntos mais frequentes? Sexo? Ou você diria Amor? Por quê?
BM: Não sei quantas colunas eu respondi sobre sexo e quantas sobre amor ou outro assunto. O que eu sei é que a dependência sexual é nefasta e é preciso se educar para escapar disso. As pessoas frequentemente confundem essa dependência com o amor, mas não tem nada a ver, porque o amor libera. Neste livro, eu escrevi uma máxima para cada coluna e uma delas é QUEM AMA LIBERA. Octavio Paz diz que “o amor é uma aposta extravagante na liberdade”. Levei um bom tempo para entender a frase, que depois inspirou a máxima.
P: Parece que a fala é o grande “instrumento” da psicanálise. Dá para analisar essa “fala” quando ela é escrita?
BM: Esta questão é ótima. A pergunta do leitor chega por e-mail, trata-se, portanto, de um texto. Mas o que interessa na análise é justamente o texto implícito na fala. Habitualmente, só a fala é escutada. O psicanalista escuta o texto a ela subjacente. Daí a relação da escuta analítica com a escrita, da psicanálise com a literatura. Para Lacan, a poesia e a psicanálise são irmãs gêmeas. Prova disso são os tantos neologismos que ele inventou. Como, por exemplo, falesser, que designa o ser humano, um ser que nasce através da fala e vive prometido à morte. Nasce para um dia falecer.
P: Por que publicar este livro? A quem ele se destina? Quem, na sua opinião, vai se interessar por ele?
BM: O livro se destina a quem quer se debruçar sobre a vida alheia para meditar sobre a própria, às pessoas de todas as classes sociais e de todas as tendências sexuais. Aos homos, aos héteros e aos que eu chamo de falanjos, aqueles cujo sexo é como o dos anjos, ou seja, ambíguo. Refiro-me aos bissexuais, aos transexuais e aos travestis. Fale com ela pode ser lido como um romance, ou como uma nova educação sentimental. Mas também como o romance propriamente dito. E há mesmo um cujo título é A educação sentimental. Refiro-me a Flaubert, que, além de romancista, foi um educador.
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Entrevista concedida ao jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, 2007.


