Anotações sobre Betty Milan e A mãe eterna
Claudio Willer
Vejo esta narrativa mais recente em relação íntima com duas anteriores, Carta ao filho e Consolação. Isso, não obstante as diferenças óbvias: enquanto já designei Carta ao filho como “amplo painel”, das três esta última é a mais intimista. Camerística, diria, onde Carta ao filho é sinfônica. Desta vez, a ação transcorre em duas moradias; aquela, também narrativa de viagens, passa-se no mundo todo.
O que as atravessa ou liga? Além da fala na primeira pessoa e de evocações que podem ter base biográfica, a morte. Ou não propriamente a morte, apenas, porém a tensão entre morte e vida. O subtítulo deste “memento mori”, alerta de que somos todos transitórios no mundo, é “morrer é um direito”. Valeria para Consolação, não obstante relatar situações e mostrar personagens tão diferentes. Naquele, ao término de uma dolorosa agonia; neste, acompanhando a decadência física natural de alguém que chegou à idade de 98 anos. Mas o direito de morrer é afirmado, reivindicado: “Não quero viver com o que terá sobrado de mim. O aumento da sobrevida está danificando a sua vida. Por que nos incutiram a idéia de que estar vivo é só o que importa e que nós estamos vivos enquanto o corpo resiste?” Insurge-se contra o “ponto de vista do médico”, e do “padre”, para quem “cabe a Deus decidir quando e como devemos morrer”. Contra as autoridades; e, diria, contra o dualismo, a separação das duas condições, de morte e vida, de modo tal que uma exclui ou recalca a outra.
Em Life against Death – The Psychoanalytical Meaning of History de Norman O. Brown, colossal comentário sobre a contribuição de Freud, algo contribui para mostrar o alcance do que Betty Milan vem criando. Observando que o homem é a espécie que separa vida e morte, que “não é a consciência da morte mas a fuga da morte que distingue o homem dos animais” (o mesmo também é dito por Betty), o formulador de uma teoria psicanalítica da história afirma: “Se a morte é uma parte da vida, se existe um instinto de morte assim como um instinto da vida (ou sexual), o homem está em fuga de sua própria morte assim como está em fuga da sua própria sexualidade. Se a morte é uma parte da vida, o homem reprime sua própria morte assim como reprime sua própria vida.”
Brown argumenta que o andrógino de Platão e das mitologias simboliza a superação dessa dualidade de vida e morte. Talvez isso adicione sentido á insistência na androginia, na atração por homens que podem ser femininos (e vice-versa), em Carta ao filho.
Aceita essa argumentação – complexa, e que simplifico ao recortar apenas algumas frases de Brown – então o subtítulo desta obra de Betty Milan também poderia ser, por reciprocidade, “viver é um direito”. E valeriam novas comparações com sua literatura de celebração de Eros, a exemplo de A trilogia do amor.
Continuidades: não posso furtar-me a relacionar o que vejo em A mãe eterna a alguns comentários que escrevi sobre Carta ao filho, relativos à memória. Citei, de T. S. Eliot em um dos Quatro quartetos, “Esta é a função da memória: Libertação”. E comentei a identificação da anamnese ao conhecimento e à liberação em Platão. Betty Milan reitera: “Você não está louca, está perdendo seu maior tesouro: a memória” “Foi com a rememoração que você evitou nossa orfandade”, ainda diz, referindo-se à perda prematura do pai. Mas Platão foi dualista: tratou da memória de outra vida, da libertação para chegar a outra esfera. Já em Freud, no Freud inicial dos estudos sobre a histeria, recuperar a memória, a capacidade de lembrar o acontecimento traumático, seria o caminho para a cura. Betty Milan é monista e vitalista: reivindica a realização da vida e o correlato ou conseqüente reconhecimento da morte no aqui e agora, na imanência.
Narrativa breve, em tom contido, descreve com inequívoca ternura as táticas e negaceios da idosa para contornar ou negar a perda do vigor e da autonomia. Fluente, escrito como se a autora falasse. Cresce, ganha pathos, intensidade, no capítulo final. Encerra-se com uma bela prosa poética, da qual não resisto a citar um trecho: “Não sabia ainda que, sem que eu fizesse esforço, você renasceria no meu coração e nós continuaríamos juntas. Vai ser enterrada num caixão de mogno, como combinado, e vai entrar no túmulo da família ao som de um silêncio grandioso – o dos que nunca renunciaram à independência.”
Eu grifaria “ao som de um silêncio grandioso”. Através de oximoros, paradoxos aparentes, é celebrada a superação. Algo pode ser seu aparente oposto. E a morte se torna reafirmação da vida; ao menos, através da criação literária; da poesia.


