A paixão da escrita

A paixão da escrita

Clube Atlético Paulistano, 2026

 

A responsável pela escolha do tema desta minha fala foi uma confreira na Academia Paulista de Letras, a querida Mary Del Priore. Só na Amazon, eu contei 48 livros dela. Decerto, foi por ter a paixão da escrita que a Mary me sugeriu o tema. Também foi pela mesma razão que Lygia Fagundes Telles escreveu ao longo da vida inteira. Só na Amazon, 45 livros. E eu não posso deixar de mencionar Ruth Rocha, que escreveu mais de 200 livros para crianças. Quem é pego pela escrita se entrega a ela.

Beckett, autor de Esperando Godot, explica isso. Diz que a gente não escreve só para publicar, escreve para respirar. Me reconheço inteiramente nessa afirmação, porque ela mostra a que ponto a obra é indissociável da vida. Sem respirar, ninguém vive e a manifestação mais expressiva disso é o grito do recém-nascido, ele grita para abrir os pulmões e respirar. 

Segundo Fernando Pessoa, escritor a gente nasce. Mas para se tornar um verdadeiro escritor é necessário aprender. Ou seja, não basta ter talento, é preciso ter a vocação do próprio talento, como diz Clarice Lispector.

Citei seis grandes escritores e eu não posso deixar de citar um psicanalista que me é particularmente caro, Lacan. Segundo ele, a Psicanálise não faz um escritor. 

Mas o que faz um escritor? Uma disposição subjetiva particular e a vocação para aceitar esta disposição. O escritor deixa o que vem na sua cabeça se materializar de letra em letra até as palavras surgirem na tela ou no papel. Trata-se de uma voz muda que só o escritor ouve sem escutar e quase milagrosamente se transforma em texto. Só depois, ele se debruça sobre o texto e reescreve tantas vezes quantas forem necessárias. Consta que, para cada página publicada, Celine escrevia oitenta. Flaubert levou cinco anos para escrever Madame Bovary. Cinco anos para conseguir dizer: “La Bovary c’est moi”. 

Como a obra é indissociável da vida, eu me permito falar da vida que eu tive. 

Sou paulista. Nasci durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, quando as forças aliadas preparavam a libertação de Paris. Não duvido de que eu tenha nascido para viver nas duas cidades e para ser escritora. Agora, como sou a mais velha de uma família de origem libanesa sem filhos homens, eu não podia cursar literatura, devia me tornar uma profissional liberal. Só assim, do ponto de vista dos meus ancestrais, eu seria uma mulher emancipada capaz de suprir a falta do filho homem. “Ou você se torna uma Doutora ou…” Na época, eu ainda não sabia que às vezes é preciso dizer não aos ancestrais. Meu pai era médico e eu optei por ser como ele. Mas, já na Faculdade de Medicina, eu me encaminhei para a Psicanálise que tem muito a ver com a Literatura. Freud inclusive ganhou o prêmio Goethe, e Lacan, com quem eu me formei nos anos 70, se valeu continuamente da Literatura para explicar os conceitos psicanalíticos. Literatura e Psicanálise são almas gêmeas, entre elas os nexos são profundos e eu poderia ilustrar isso falando do meu romance O Papagaio e o Doutor e do relato da minha análise, Lacan ainda. Mas o meu tema é a paixão da escrita, que me enredou desde pequena. 

Na infância, eu escrevia pequenas peças de teatro, que eu montava com os primos na casa dos meus avós, em Capivari, a cidade da Tarsila do Amaral. Os figurinos nós fazíamos com as plantas do jardim e o tempo da preparação era tão importante quanto o da apresentação. 

A escrita, no meu caso, é vital. A cada vez que a coisa pega, eu escrevo e me desvencilho do impacto da realidade. Como um boxeador que evita o soco, jogando o corpo para o lado. A escrita me transporta do lugar onde eu estou para o outro onde eu desejo estar e, graças à distância, eu enxergo melhor a realidade. Por outro lado, fico conectada comigo mesma e faço descobertas, entre elas sobre o que eu realmente desejo. O tempo do relógio deixa de existir e o resultado são os muitos livros e artigos que eu escrevi. Vou falar de alguns deles. 

O primeiro, datado de 50 anos atrás, foi O jogo do esconderijo. Diz respeito ao Psicodrama, que tomou conta de São Paulo nos anos 70. A tal ponto que eu fui para Nova York estudar com o Moreno, ele foi um gênio da sua época, fazia a apologia da espontaneidade. Moreno desejava que as crianças largassem do brinquedo comprado e dramatizassem as histórias que ele contava nos jardins de Viena. O Psicodrama se originou nessa experiência, e Moreno depois fundou o Teatro da Espontaneidade, no qual as cenas são criadas sem roteiro e sem preparação prévia. Trabalhei em Nova York nesse Teatro. 

Depois de O jogo do esconderijo, eu escrevi Manhas do poder, que reúne ensaios sobre as estratégias de que o poder se vale para se impor. São ensaios escritos a partir de experiências em centros de umbanda e no culto dos ancestrais na Bahia. Escrevi durante o período em que fazia a minha formação com Lacan para me aprofundar na cultura brasileira. Na tradição de Mario de Andrade, meu ancestral literário paulista, eu me tornei uma turista aprendiz e, sempre que podia, viajava pelo país. Descobri a importância da memória na cultura negra, ela faz toda a diferença. Gilberto Freyre, que eu fui conhecer no Recife, dizia ter aprendido o latim na escola, o francês com a mãe e o Brasil com Isabel, a sua babá negra. 

O meu primeiro texto de ficção, O sexophuro, foi escrito em 1977, quando a análise com Lacan estava terminando e eu ia voltar para o Brasil, o país que eu havia largado por causa da ditadura militar e do machismo. O título é construído com a palavra sexo e a palavra furo. Trata-se de um neologismo, na tradição de Oswald de Andrade, que celebrou os neologismos e “a contribuição milionária de todos os erros”. 

O sexophuro se origina no drama de um casamento impossível e focaliza uma mulher que procura uma outra saída para si. O livro está hoje na Trilogia do Amor, editado pela Record.

A ficção irrompeu na minha vida, para que eu conseguisse respirar ao me separar de Lacan e recomeçar a vida no Brasil, ensinando a Psicanálise e clinicando. 

Em 1983, eu escrevi um ensaio O que é o amor? Quando o livro saiu, a Folha de São Paulo deu primeira página da Ilustrada com uma foto minha em quatro colunas. Mas o título era “As metamorfoses amorosas de Betty Milan” e a matéria foi ilustrada com duas imagens: a caricatura de um homem abrindo a braguilha e a imagem de um livro atravessado por uma faca, vazando sangue. São imagens que remetem ao estupro e ao feminicídio. O escândalo favoreceu a venda e mobilizou o meio intelectual. Mais páginas foram escritas na imprensa sobre O que é amor do que as páginas que eu mesma havia escrito. A reação da Folha de São Paulo foi desencadeada pela minha crítica ao machismo, que é contrário ao amor porque o amor não existe sem a liberdade feminina. O machismo faz da mulher um objeto e está na origem do feminicídio. 

A matéria da Folha só não me levou a desistir da escrita porque a escrita não desistiu de mim. Em 1987, saiu Os bastidores do Carnaval.

O livro é o produto de uma pesquisa que eu fiz nas escolas de samba do Rio, onde eu havia fundado o Colégio Freudiano e fazia seminários regularmente. Nessa época, eu tive o privilégio de encontrar um grande artista, Joãosinho Trinta, o maior dos nossos carnavalescos, de quem eu me tornei interlocutora. Como os impressionistas, cuja arte não imitava a realidade mas a retratava com contornos imprecisos, Joãosinho não obedecia ao imperativo da verossimilhança. Deixava o imaginário se expressar o mais livremente possível. Baudelaire considerava que a imaginação é a rainha das faculdades e, mais ainda, a rainha do verdadeiro. Disse preferir os monstros da sua fantasia à trivialidade concreta. Joãosinho podia ter dito a mesma coisa e daí também a sua originalidade.

Para dar vazão ao seu imaginário, Joãosinho Trinta se valia do que estava ao alcance da mão. Uma bacia amassada ou uma boia de plástico se transformava numa escultura. Não era o material que importava, nem as funções originais do objeto, mas a transformação do mesmo em algo novo e original. Isso explica por que ele dizia que o luxo do Carnaval não era o do dinheiro mas o da criatividade. “O segredo é… fazer flores com sucata cujo destino natural seria o lixo.” Tratava-se de um procedimento análogo ao da criança, que não precisa de brinquedos para brincar. Serve-se de qualquer objeto. Uma cabana ela constrói com duas cadeiras e um cobertor. Uma cama, com algumas almofadas. Um prédio, empilhando caixas… A cultura da criança é a do brincar, que Joãosinho foi o primeiro a valorizar, dizendo que a nossa cultura é a que flui através da brincadeira. Os recursos e os efeitos da “cultura do brincar” são muitos, e o Brasil pode se valer dela para defender a democracia. A exemplo disso, as manifestações recentes. Joãosinho sabia que o Brasil tem uma contracultura de massa e ela é um recurso civilizatório. Dediquei ao Joãosinho Os bastidores do carnaval.

A imprensa recebeu o livro de braços abertos. O Jornal da Tarde publicou uma matéria de duas páginas, dando ênfase à ideia de que, através do Carnaval, nós rememoramos a nossa história e o Brasil se reinventa todo ano. Também deu destaque às ideias de Joãosinho que era tão capaz de produzir a festa quanto de falar sobre ela com pertinência. 

Entre 1987 e 1991 não saiu livro nenhum. Mas não porque eu não estivesse escrevendo. Com 45 anos, em 1985, por motivo familiar, eu tive que voltar a França e, para respirar, eu precisava existir na língua portuguesa. Na França, só a escrita me propiciava isso. Comecei então o meu romance mais significativo, O Papagaio e o Doutor, inspirado na minha análise com Lacan. Seriema, a heroína, que foi analisanda do Doutor, rememora a análise e o passado dos seus ancestrais imigrantes. Graças à rememoração, consegue se separar do analista, superar a autoxenofobia e ser quem ela deseja ser.

Foram cinco anos para escrever o livro, mais cinco trabalhando na tradução para o francês. Duas décadas depois, o romance foi adaptado em Nova York para o cinema por Richard Ledes. O filme se chama Adieu Lacan e pode ser visto no streaming.

Durante a primeira tradução de O Papagaio e o Doutor, feita em casa, eu me deparei com a extrema dificuldade de passar do português do Brasil – que é uma língua sintética – para o francês – que é uma língua analítica, na qual tudo que se quer exprimir deve ser explicitado. Isso me levou a comparar o francês a um espartilho e a desejar, como nunca, a liberdade de escrever na língua natal. A tradução me deixava em falta com meu idioma e em falta comigo mesma. Consequentemente, uma personagem, Lia, surgiu no meu imaginário, falando português e expressando livremente as suas fantasias eróticas. Escrevi, me deleitando, A paixão de Lia.

Para compensar a falta do amado, Lia se deixa levar pela imaginação, vai a um bordel, se torna uma cortesã, lésbica e, no final, se realiza como mãe. Paradoxalmente, a rigidez da língua francesa me liberou para cantar o amor materno. 

Foi depois disso que, em 1996, eu escrevi Paris não acaba nunca. Não podia imaginar que ele chegaria a ser publicado em mandarim, a língua oficial da China, a mais falada no mundo. 

Sei que todos aqui gostam de Paris e por isso eu me permito ler um fragmento, o fim do livro: 

 

“do alto da Notre Dame, quem se volta para a Île Saint-Louis e baixa os olhos, deleita-se vendo de cima o jardim à francesa da catedral, as aleias retas de árvores como quadrados, geometricamente cortadas

virando um pouco a cabeça para a esquerda, vê o Sena que se abre e envolve a ilha

poderá ouvir a voz de Piaf cantando ‘o céu de Paris ama a Ilha São Luís’ ou ‘nas imediações de Notre-Dame tem conserto para tudo’

olhando mais e percebendo que Paris é feita da cor da pedra, do cinza, e da cor verde-garapa do rio, a gente se diz que a cidade talvez seja assim para que o imaginário nela possa se liberar e a cor, explodir

… fazer um Renoir pintar, um Manet, um Monet…

no alto da torre, ao som de Edith Piaf, da rudeza sublime da voz, a gente só lamenta não estar ainda na Terra para ver o mesmo cenário no fim do ano 3000”

 

O século XXI começou para mim com a publicação de um novo romance, O clarão, inspirado por Carlito Maia, que lançou Lula e Roberto Carlos.

Com o livro, eu lancei um movimento chamado Amizade no Terceiro Milênio. Acreditava que ele teria um grande impacto no Brasil, onde não é a relação de amizade, mas de cumplicidade que prevalece, dando sustentação ao crime. Havia no projeto uma exposição de frases sobre a amizade e eu quero evocar aqui uma delas:

 

O AMIGO GANHA PERDENDO TEMPO COM O AMIGO

 

A exposição foi feita pela DPZ, graças a um membro memorável da Academia Paulista de Letras, Roberto Dualibi. Depois de O clarão, aconteceu Consolação

O romance também tem a ver com a perda e se passa em São Paulo, onde, para se consolar da morte do marido, a heroína conversa com os mortos no cemitério da Consolação e, entre eles, Mario de Andrade. Procuro sempre estilizar a oralidade, na tradição de Mario, para quem era importante atrelar a língua escrita à língua oral. 

Ao Consolação se seguiu o romance Baal, que eu escrevi por nunca ter me conformado com a demolição dos palacetes de São Paulo, particularmente com o da minha avó-materna, que ficava no Morro dos Ingleses e foi construído pelo meu avô libanês. Assim como O Papagaio e o Doutor, o romance Baal trata da diáspora e da xenofobia de que o imigrante é vítima. O tema obviamente é da maior atualidade.

Como a morte é inevitável, em 2020, eu perdi minha mãe com 102 anos. Dona Rosa inspirou o filme cujo nome é Dona Rosa, feito pelo meu filho, Mathias Mangin, que se debruçou sobre a história da avó. Ele ganhou o prêmio de melhor direção de curta metragem. Rosa também inspirou meu romance A mãe eterna, cujo começo poderia ter sido escrito por quase todos os filhos: “Se eu pudesse te dar de novo a vida… fazer você nascer de mim como eu nasci de você… Não paro de desejar o impossível. Apesar da sua idade, não suporto te perder. Eu, que sei do fim de tudo, não me conformo com o seu fim”.

Antes de me despedir, agradecendo pela escuta, eu quero acrescentar que a paixão da escrita me trouxe muitos amigos, gente que ganha tempo perdendo tempo comigo. Me trouxe saúde, porque com a escrita eu não parei de respirar e, last but not least, me trouxe clareza. Para enxergar a realidade, é preciso se distanciar dela. 

Obrigada.

 

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Clube Atlético Paulistano, São Paulo (SP), 12 de março de 2026.