A história não para de se repetir

A história não para de se repetir

 

betty milan
Folha de S. Paulo, Opinião, 28 de dezembro de 2025

 

2025 se esvai e não findará verdadeiramente no dia 31 de janeiro.

A guerra que começou no dia 7 de outubro de 2023, com o ataque surpresa organizado pelo Hamas contra Israel, continua. A guerra no leste europeu, iniciada no dia 24 fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, continua no ar. Todos lutando por conquistas territoriais, quando o planeta está ameaçado por eventos metereológicos extremos.

Até quando as nações vão obrigar os jovens a integrar o exército para cumprir a ordem de matar ou morrer. Por que, além de ser recorrente, a guerra foi normalizada? Freud diria que somos descendentes de gerações e gerações de assassinos e, como os ancestrais, estamos sujeitos à pulsão de morte. Só que nós temos o poder de frear a pulsão e é isso que nos diferencia dos animais.

A guerra dá vazão ao que é bárbaro em nós. No entanto, insistimos nela, independentemente das consequências nefastas: os mortos e os que perderam os seus, os feridos e os amputados, os que ficaram cegos ou surdos. O espetáculo das consequências, que não para de ser exibido na televisão e nas redes, é aterrador.

Matamos na guerra e condenamos os feridos a viver com terríveis sequelas até o fim. Sem que isso seja considerado um crime. A expressão crime de guerra serve para desviar a atenção do verdadeiro crime: a guerra. Trata-se de uma expressão enganosa.

O paradoxo é que matar na guerra é legal, porém ajudar quem precisa morrer é ilegal na grande maioria dos países. A eutanásia e o suicídio assistido só foram legalizados em Luxemburgo, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal, Canadá, Colômbia, Uruguai, Nova Zelândia, Austrália (alguns estados) e EUA (alguns estados – Oregon, Washington, Califórnia, Montana, Vermont). A não legalização tem consequências desastrosas. Entre outras, as tentativas frustras de suicídio.

Um dos argumentos invocados para não legalizar a eutanásia e o suicídio assistido é a dificuldade de determinar o momento certo de agir. Para tanto, bastaria escutar quem precisa morrer e a participação do psicanalista deveria ser considerada. O que mais importa é ser solidário e aliviar o sofrimento humano. Só quem não presenciou a agonia na morte natural ignora isso.

A eutanásia no Brasil é considerada crime pelo Código Penal. O suicídio assistido também, mas com a possibilidade de atenuante (homicídio privilegiado, com pena reduzida) se for a pedido do paciente para aliviar sofrimento intenso e incurável. Só a ortotanásia é legal, ou seja, a suspensão de tratamentos fúteis ou desproporcionais para permitir a morte natural, com consentimento do paciente ou da família, buscando o conforto e não a antecipação da morte.

O apego à vida pode ser nocivo. Porque a vida não é um bem em si. O verdadeiro bem é a qualidade de vida. Assim como nós temos o direito de viver, deveríamos ter o de morrer. A liberdade requer este outro direito também.