A força da palavra

A força da palavra (1996)

 

P: Qual a grande força da palavra?
BM: São os efeitos que ela tem sobre o sujeito. A palavra tem uma duração que transcende a matéria. Na Grécia antiga, quando os atletas queriam ter seus nomes registrados na história, preferiam que fossem escritos versos sobre eles a ter esculturas. Acreditavam que o verso daria maior durabilidade à glória.

P: No prefácio do livro, o filósofo Gérard Lebrun escreve: “A entrevista de uma personalidade literária é gênero perigoso. Entrevistado com respeito excessivo, o escritor nada dirá de novo sobre si mesmo. Se, ao contrário, ele for submetido a questões indiscretas, responderá furtando-se, querendo se livrar o quanto antes do importuno.” Como encontrar esse equilíbrio?
BM: A força da palavra está ligada à da escuta. Quando você sabe escutar, o outro vai dizer o que é essencial. O bom entrevistador é aquele que desaparece para que o entrevistado apareça. É aquele que está preparado, com boas questões, mas que não se submete a nenhum roteiro. O bom entrevistador autoriza o desvio.

P: Na introdução, você diz: “O trabalho de que resultou este livro me fez acreditar ainda mais na necessidade de uma escuta que não negue ao outro o seu estilo”. Escutar também requer estilo?
BM: Também… Que bonita observação! Essa é uma pergunta luminosa. A escuta implica o estilo. Aquele que escuta tem um texto subjacente. A entrevista é uma arte sempre que requer um estilo individual. O grande salão literário da França é o programa de Bernard Pivot na televisão, que entrevista há vinte anos os principais escritores do mundo. Eu me inspirei nesse programa para fazer meu livro.

P: Você questiona: “(…) o que unifica essas entrevistas com escritores e intelectuais estrangeiros publicadas na grande imprensa brasileira? Examinadas uma a uma, elas não têm unidade temática.” Essa unidade está no modo como você conduz as entrevistas?
BM: De certa forma, sim. Mas essa forma não pode ser generalizada. Cada entrevista é uma. Isso muda tudo. A boa entrevista leva o entrevistado a descobrir coisas que ele não sabia. Você, por exemplo, me fez ver que a escuta também implica um estilo.

P: Das vinte entrevistas do livro, alguma a inquietou mais?
BM: Todas me afetaram, graças a Deus. Mas existe a entrevista propriamente e a redação, na qual você faz os cortes que valorizam aquilo que o entrevistado disse. O entrevistador é como um retratista.

P: Ele retoca as palavras?
BM: Exatamente. Entre o que foi dito e o texto há uma distância, que precisa ser bem trabalhada.

P: Depois da entrevista com Octavio Paz, ele convidou você para tomar um café e conversou sobre Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Após desligar o gravador, já surgiu algum bate-papo que você gostaria de ter registrado?
BM: Sem dúvida. Mas isso não é possível. Esse fato só acontece porque já passou o momento oficial. É… talvez eu precisasse escrever sobre esses encontros.

P: Por que não escrever um livro sobre eles?
BM: Quem sabe? Provavelmente em minhas memórias. Mas isso ainda vai demorar.

P: Atualmente, você vive na França. Como a literatura brasileira está sendo recebida no exterior?
BM: Nathalie Sarraute me disse que gostava muito de Jorge Amado. Na verdade, a nossa literatura é mal reconhecida no exterior. Os livros brasileiros estão lá, traduzidos. O problema é que eles não são bem trabalhados junto à crítica e às universidades. Não são bem divulgados. Machado de Assis poderia ainda ser capa do Le Monde e continuar vendendo 5 mil exemplares.

P: Como você analisa a divulgação de livros na imprensa brasileira?
BM: O espaço ainda é pequeno. Adoraria fazer esse trabalho com autores brasileiros. Na França, a literatura é levada mais a sério.

P: O que é levar a literatura a sério?
BM: É ter uma crítica competente. Na França, existe isso. Quem escreve nos jornais brasileiros são resenhistas, que não são necessariamente preparados para esse ofício.

P: Você concorda que nem sempre eles têm tempo para isso?
BM: Concordo. É preciso muito estudo e dedicação para exercer a crítica literária.

P: Como foi o seu contato com o Parlamento Internacional dos Escritores?
BM: Foi uma grande experiência. Estive na Cidade Refúgio que abriga os escritores ameaçados de morte. É inconcebível que se censure o imaginário. Salman Rushdie inventou uma história sobre o Alcorão. A sua ficção foi censurada. Isso é muito grave. Não se pode negar a uma pessoa a possibilidade de imaginar.

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Publicada como A força do silêncio, Jornal Lector, Rio de Janeiro, ano II, no 17, setembro, 1996.