O clarão VIII

O clarão

 

VIII

P: Em 2001, você publicou O clarão – o romance do amigo (Cultura Editores), que homenageia seu amigo Carlito Maia. Lançou o Projeto Amizade no Terceiro Milênio, com a exposição “Os Dizeres do Amigo”. Esteve em diferentes lugares do Brasil para dar palestras e expor dizeres sobre a amizade em bibliotecas. Com que propósito você fez tudo isso?

BM: O clarão nasceu da ideia da difusão de valores que pudessem tornar este país mais solidário. Não é um texto escrito com liberdade, ao contrário de O Papagaio e o Doutor e A paixão de Lia. Foi um momento de disciplina e contenção. É o que o ideário da amizade preconiza: contenção. O clarão tem a preocupação da inscrição social, embora não seja ensaístico. Foi a primeira vez, no Brasil, que houve uma reflexão sobre a amizade, e pessoas tiveram a consciência de que a amizade é um tema sobre o qual é possível refletir. A reflexão é necessária para a perpetuação da amizade, pois esta não vive só da experiência espontânea. Na Europa, isso é uma tradição, por causa de Montaigne, dos grandes clássicos sobre amizade. Aqui, a amizade foi tematizada marginalmente e ainda não teve uma tradição literária. O que garantiu este projeto foi a estrutura da rede de bibliotecas públicas, além do trabalho de Maria Celeste Garcia, da Biblioteca Nacional.

P: Nesse périplo, o que mais chamou sua atenção?
BM: Já na última apresentação do livro, em Goiás Velho, onde fui chamada para um evento que celebrava o fim de ano do Proler [Programa Nacional de Incentivo à Leitura], tive uma experiência importante. Era uma festa na qual se apresentavam crianças que haviam concorrido a prêmios de contar e escrever histórias. Vi crianças absolutamente maravilhosas, que tinham espontaneidade, crianças nascidas para o espetáculo. Tive o sentimento de que os novos grandes escritores brasileiros virão de lá, por causa dessa ênfase na importância da leitura. Um grande estímulo à invenção literária.

P: Costumo usar uma expressão “Brasil propriamente dito” para designar relances, percepções de um país vivo, com vida própria.
BM: É verdade, eu vi um país totalmente vivo, pois essas crianças, você não as vê na Europa, com essa liberdade, essa espontaneidade. A ternura dos professores com relação às crianças, então! Isso não existe na Europa. Aqui, há uma relação muito mais sadia entre professor e aluno. Por outro lado, eu me dizia também que essas crianças, tão brilhantes hoje, poderão estar arcaicas dentro de vinte anos, pois em nosso país falta tudo. Passada essa primeira fase de espontaneidade, já não há mais estímulo. Encontrei professores de ensino médio com dificuldade de ler os textos. Esse é um grande problema com o qual a educação nacional se defronta. Ademais, havia um grande interesse pela minha pessoa, pelo meu trabalho, mas houve desorganização no evento, um desperdício de energia intelectual. Me senti desperdiçada. Nós não temos um país porque o desperdício acaba com ele, são as pessoas que morrem nas enchentes, nas favelas…

P: Tanto para o melhor quanto para o pior, você teve outras percepções do Brasil real nessas suas viagens?
BM: Sim, no Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional, Joãosinho Trinta, que seria o grande homenageado, chegou com a Escola Grande Rio. Esse foi um momento importante na história da cultura brasileira, pois, pela primeira vez, uma escola de samba entrou na Biblioteca Nacional com seus tamborins. Também foi ótimo quando Zé Celso Martinez Corrêa, em São Paulo, disse que sem amizade o Teatro Oficina não teria existido. Na Bahia, a recepção foi ótima. E, em Belo Horizonte, houve uma grande homenagem e o título era lindo: “Amigos para sempre”.

P: Seria porque Carlito Maia é mineiro…
BM: … e da cultura mineira. Sempre um Papo é a única associação que lança verdadeiramente os autores no Brasil, é o que existe de mais eficaz. Em Belo Horizonte, eu já havia tido uma experiência maravilhosa quando lancei O Papagaio e o Doutor. Chegaram ao requinte de me receber com um banquete no qual havia as comidas, em especial o pé de moleque, que Seriema (protagonista de O Papagaio e o Doutor) cita na narrativa. A sofisticação de Minas, não a encontrei em nenhum outro lugar. Lúcia Castelo Branco fez também um texto lindíssimo sobre O Papagaio e o Doutor. É claro que havia o projeto de bibliotecas nisso tudo, a exposição estava na biblioteca e houve um coral, estavam a TV, o Secretário de Cultura, Angelo Oswaldo, e um público de crianças e de pessoas de todas as faixas etárias. Foi lá que me apresentaram as questões mais interessantes. Uma delas… “Mas Jesus Cristo então não é um amigo melhor precisamente por ser um amigo que não morre?” Essa questão serviu para explicar que, se aceitarmos a morte, podemos nos humanizar. Eu observei que a amizade é o que humaniza. Esse é o último painel da exposição: A amizade requer a aceitação da morte.

P: Que outras questões, em Belo Horizonte, chamaram sua atenção?
BM: … “Por que os médicos se tornam escritores, por que há tantos médicos escritores?” Dei a seguinte reposta: “Possivelmente, porque os médicos têm uma experiência que os leva a escrever. a experiência da morte. A escrita não imortaliza, mas eterniza o autor”.

P: Pedro Nava, grande memorialista mineiro, foi médico.
BM: Guimarães Rosa… André Breton… Rabelais… Agora o Dráuzio Varella, que é um bom escritor.

P: Onde mais você esteve?
BM: Depois da Bahia e de Belo Horizonte, fui a Curitiba, onde apresentei meu trabalho para os secretários da Educação. E a Florianópolis, onde Iaponan Soares, da Fundação Catarinense de Cultura, e o escritor Salim Miguel me receberam. Salim Miguel, com uma fala na qual estranhava o conteúdo lírico de O clarão, pois já conhecia O Papagaio e o Doutor, texto satírico. Sublinhou a diferença entre os dois textos. Um evento que chamou minha atenção foi o de Porto Alegre, na Casa Mário Quintana. Muito bem organizado. O livro foi apresentado por Flávio Loureiro Chaves, que fez uma comparação entre a metáfora da libélula em O clarão e a metáfora dos olhos de ressaca da Capitu, de Machado de Assis. Disse que O clarão era o primeiro poema longo em prosa da literatura brasileira. Havia gente que me conhecia por causa da psicanálise, e o debate me levou a refletir sobre a importância do brincar, sobre a relação entre o brincar e a sublimação.

P: Você teve uma diversidade extraordinária de públicos. Foi uma viagem aleatória e uma caixinha de surpresas. Ainda bem que teve boas surpresas.
BM: Boas surpresas mesmo, mas também algumas surpresas ruins. Por exemplo, em Brasília, quando cheguei, eu me dei conta de que a organização era precária. Não obstante, fui convidada a voltar para uma feira de livros que houve um mês depois. Até chegaram ao requinte de fazer balões com minhas frases. Depois de Brasília, estive no interior de São Paulo, São José dos Campos e Campinas. Em São José dos Campos, houve uma organização maravilhosa, absolutamente fantástica, com a exposição lindamente instalada na biblioteca, coberta pela Rede Globo, que aliás esteve presente em todos esses eventos. Depois, fui para Goiânia, convidada para falar aos professores do ensino médio, antes de ir a Goiás Velho. Dei uma entrevista para um jornal, cuja chamada foi “Para ser feliz, é preciso saber empatar”. Gostei desse título. Há outro: “Amizade é essencial ao amor”. Através desse meu romance, pessoas entenderam que o amor pode ser mais amistoso.

P: Me interessam essas captações de Brasil. As mais evidentes foram em Goiás e Belo Horizonte?
BM: Foram as experiências mais profundas, as mais significativas. Curioso, são dois Brasis que têm um lado muito arcaico, tradicional. São dois Brasis literários, mais do que os outros.

P: Com um registro mais popular em Goiás Velho…
BM: … e de grande amor pela literatura, tanto em Belo Horizonte quanto em Goiás Velho. E de línguas particularmente bonitas, sofisticadas. Em Goiás Velho, tive uma experiência tocante, que me lançou uma luz sobre o Brasil. Foi a visita ao presídio construído pelos portugueses, no qual ainda havia uma sala – a sala da punição. Nela, os presos ficavam imersos na salmoura durante um período ilimitado. Não podendo sair desse lugar, defecavam em vasilhames que nem eram recolhidos todos os dias. O cheiro era tão terrível que as pessoas tinham que atravessar a rua ao passar por lá. Ao visitar esse presídio, eu me dei conta da razão pela qual existe uma grande violência no Brasil. Embora sejamos pacifistas, temos uma grande violência, um grande descaso pelos pobres, uma relação sádica com eles. E eu me disse que a origem desse sadismo vem de Portugal. Foi impressionante imaginar as pessoas imersas na salmoura depois de terem sido chicoteadas, torturadas. Tivemos uma tradição sadomasoquista na origem da nossa formação social. Acho que não se falou disso o suficiente. Gilberto Freyre fala da relação do branco com o negro, mas não fala disso na relação do branco com o branco. O Brasil é um país paradoxalmente sádico. Digo “paradoxalmente” porque ao mesmo tempo existe uma amenidade, um convívio no trato… O brasileiro não é irritado, impaciente, como o francês, ele tem uma tolerância muito grande, tende a ser cordial, mas é sádico. Este é um país incrivelmente repetitivo. Os trópicos não são alegres. A alegria fica confinada ao Carnaval, o Brasil é um país trágico por causa da repetição. Na verdade, nosso país é dantesco. Mereceria que fizéssemos um romance que seria, de A a Z, uma tipologia do crime, com procedimentos semelhantes aos de Dante, que, certamente, antes de escrever A Divina Comédia, estudou todos os tipos de crime. Tendo a achar que, para escrever o romance brasileiro, seria preciso fazer o afresco dessa patologia, a tipologia do crime, e escrever baseado nisso.

P: Retomando o que você disse antes, sobre os clássicos da amizade, como Montaigne, e sobre a contenção na amizade, seu caráter regrado, tive amigos que foram desregrados. E tenho a impressão de que você teve Carlito Maia pela frente quando ele já estava mais calmo. Em matéria de transgressores e desregrados da década de 1960, Carlito Maia foi sem dúvida um deles.
BM: Mas conheci Carlito numa fase ainda gloriosa! Não há nenhum livro meu em que Carlito não esteja presente, por ter contado histórias maravilhosas. Por exemplo, em O que é o amor, há histórias que ele me contou. Uma, aquela da dona do bordel do Nordeste por quem se sentia seduzido, a quem foi visitar, mas com quem resolveu não transar, para depois dizer: o melhor da festa é esperar por ela. Outra frase dele que está em O que é o amor: “O meu amor de agora / é só amor, / não é de agora”. E mais esta: “Se você diz que me ama, prove./ Impossível, as provas são para os atletas e não para os amantes, que se amam e nada mais”. Já estavam presentes em O que é o amor, isso em 1980.

P: Lembro-me de vocês juntos na década de 1980.
BM: Nessa época, assim que voltei para o Brasil e lancei o ensaio Manhas do poder, ele me mandou uma carta. A partir daí, começamos a trocar cartas, livros etc. Essa amizade foi crescendo e Carlito se tornou amigo de todos os meus familiares.

P: Ele a adotou na fase de revisão de sua memória e biografia. Há duas fases dele que têm uma relação dialética. O Carlito da Magaldi & Maia…
BM: Que lança Roberto Carlos…

P: … e a segunda fase, da reconstrução e reavaliação.
BM: A fase em que, justamente, ele estava simbolizando mais. Não era mais de entregar-se à paixão do álcool etc., mas de simbolizar. E a época em que ele mandava não só as flores, mas também poemas, lembra-se? Tantos poemas que mandava… poemas de Sophia de Mello Breiner, de Fernando Pessoa, poemas de todos os grandes. Não havia e-mail, ele mandava por fax, por carta, naquele envelope com o símbolo da Globo.

P: Como isso faz falta numa conjuntura como a atual!
BM: Agora, em 2002, todas as pessoas, os políticos inclusive, estão dizendo que a solidariedade e a paz social estão acima dos partidos. Está havendo uma grande convocação para que haja paz e solidariedade.

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“Os valores da amizade”, entrevista concedida a Claudio Willer, publicada no jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 23/03/2002.