O clarão
P: Que relação você vê entre ser amigo e ser cidadão e os projetos voluntários que se multiplicam no país, muitos deles voltados para a formação de uma cultura da não-violência?
BM: O amigo, como eu digo no meu romance, tem como vocação a paz. Ele prefere empatar a vencer. Portanto, a ética da amizade pode sustentar uma cultura da não-violência e reforçar a cidadania. Acho que o bom amigo é um bom cidadão, porque o amigo é virtuoso. O contrário não é verdadeiro. Um indivíduo pode ser um bom cidadão – por ser respeitador das leis – sem ser um bom amigo. A amizade supõe o respeito, mas não só. Ela requer a generosidade.
P: O que o Projeto Amizade no Terceiro Milênio propõe na prática?
BM: Propõe a difusão da ética da amizade através da difusão de um ideário. Quem vir a exposição ou ler O clarão vai ser levado a refletir sobre o tema, a se perguntar se é ou não amigo, por que uma amizade se rompeu etc. O projeto se realiza numa primeira etapa através de exposições em várias capitais do Brasil, todas elas iguais, com o título “Os Dizeres do Amigo”. As exposições, constituídas por painéis com frases tiradas do Clarão, vão para as capitais dos estados e depois continuarão a circular no interior. O projeto se serve, portanto, da rede de bibliotecas públicas, que ele também realimenta. As exposições de frases vão introduzir as pessoas no meu romance, porém também no pensamento dos clássicos sobre o assunto.
P: Para uma profissional como você, que tem formação psicanalítica, é possível obter resultados a curto e médio prazos com esse tipo de projeto?
BM: A sociedade, normalmente, só costuma mudar quando existe alguma motivação individual. Você sente sinais de mudança nas pessoas? Acho que, através da reflexão, as pessoas podem se tornar um pouco mais amigas, e essa reflexão agora é possível, porque a família está em crise. O elo da amizade se tornou decisivo numa sociedade em que ninguém tem tempo para ninguém, em que só o amigo “ganha perdendo tempo com o amigo”. O clarão vai fazer as pessoas refletirem sobre a vida e a morte.
P: O Brasil, um país que não viveu os horrores das duas grandes guerras nem sofre tão fundo com as diferenças de etnias, seria um lugar com vocação para a amizade, ou essa história de que somos, por natureza, um povo pacífico e amigo não passaria de um clichê? Afinal, amizade pressupõe ética e nisso andamos meio falidos…
BM: Você tem razão, Simone. Não é porque nós somos naturalmente mais extrovertidos que somos mais amigos, porque a amizade só existe entre pessoas que são capazes de abrir mão da satisfação imediata do seu prazer, uma virtude que a nossa cultura não exalta. Será ótimo quando nós pudermos nos entregar ao prazer sem culpa, mas também pudermos adiá-lo para respeitar o próximo. Trata-se de um equilíbrio novo, que pode perfeitamente ser alcançado, desde que nos tornemos mais capazes de escutar. Para isso, o saber do psicanalista pode ser útil. Acho mesmo que o psicanalista e o amigo têm em comum o fato de serem capazes de escutar.
P: Você acredita que o começo de tudo é a escola ou a família?
BM: Começo de tudo o que significa? A vida do indivíduo tem mais de um começo – e ela, aliás, começa antes de o sujeito nascer. Nós somos o produto do sonho alheio, e o sonho dos familiares é tão determinante quanto o sonho dos contemporâneos, amigos e colegas, por exemplo. No Clarão, a Ana aprende a ser mais amiga graças ao encontro com o João, que a ilumina e a protege, porque ensina a não se delongar na tristeza, a só contar as flores e os frutos, e não contar as folhas que tombaram.
P: Como difundir a amizade em ambientes de trabalho tão competitivos como os que vivemos?
BM: A amizade, obviamente, não existe entre duas pessoas que competem, mas quem sabe ser amigo – e isso pode ser aprendido – se torna menos selvagem no ambiente de trabalho. Simplesmente porque valoriza a ética da delicadeza.
P: Como tem sido a receptividade nos lugares onde o Projeto Amizade no Terceiro Milênio já foi lançado? Algum fato curioso a relatar?
BM: Tanto o projeto quanto o livro estão sendo muito bem recebidos. Porque amigo todo mundo quer ter. A prova disso é que haverá lançamentos em dez cidades do Brasil, onde a montagem da exposição e a organização do evento ficaram inteiramente por conta das bibliotecas nas quais já há inclusive visitas organizadas.
P: Na sua opinião, qual o segredo das longas amizades?
BM: Acredito que seja uma alegria que brota espontaneamente e que depois é mantida graças à sabedoria dos amigos. Ao contrário do amante, o amigo não se entrega à paixão, ele sabe se conter. Isso nem sempre é fácil, porque todos nós estamos sujeitos à paixão do ódio e da ignorância, como diz a libélula do Clarão.
P: Amor e amizade podem andar juntos? Por que é tão difícil manter a segunda quando o primeiro se desfaz?
BM: O melhor amor é o amor amigo. A amizade verdadeira nunca desaparece. Por isso o meu personagem diz: “O nosso amor de agora não é de agora”. Desta frase eu fiz outra, que está na exposição: O amor dos amigos nunca é de agora.
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Entrevista concedida a Simone Ribeiro, Jornal da Tarde, São Paulo, Divirta-se, 28/04/2001.


