O amante brasileiro (adaptação teatral)

O amante brasileiro (adaptação teatral)

 

O Teatro da Voz

P: A peça remete aos Fragmentos de um discurso amoroso, a Roland Barthes. No seu texto, a palavra se ergue soberana…
BM: No discurso amoroso, a palavra é soberana. Sem ela, o amor não existe. Mas o amor não se satisfaz só com a palavra. Ele vive do encontro e dos tantos prazeres que o encontro propicia. Prazeres que o ciberlover não alcança. Por isso, na peça, Sébastien atravessa o oceano para encontrar Clara. Faz isso depois de uma longa troca de e-mails, que são os novos dizeres do amor. Digo novos porque eles não precisam morrer, como Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta, para alcançar a eternidade. Os personagens do Amante brasileiro sabem que são mortais e por isso exaltam a vida e o erotismo, que é a fonte da juventude.

P: Clara e Sebastião se revelam amantes na sua plenitude. É colheita de maturidade, da travessia dos 50?
BM: Colheita dos 50, sim. Da idade em que a gente faz pouco da luta de prestígio e prefere o acordo. O amor não se confunde com a amizade, mas é bom quando tem a amizade como referência. Quando ele é delicado. O amor da maturidade só acontece no “tempo da delicadeza”, o da canção do Chico Buarque.

P: Liberdade, escravidão, virtude e sacrifício são conceitos que os amantes da peça também discutem. Seria um processo de descoberta ou a criação de uma nova ordem amorosa para suas vidas?
BM: Clara e Sébastien são e querem ser livres. A liberdade de um libera o outro e eles trocam vários e-mails sobre a liberdade. Porque sem ela o amor verdadeiro não existe. Noutras palavras, “acorrentado, ninguém ama”, como diz outra canção da nossa música. Os músicos, como os amantes, são sábios. Por isso, os atores do Oficina viram na peça uma forma de iniciação amorosa. Clara e Sébastien colocam em xeque a identidade estabelecida entre o amor e o casamento, eles recusam vigorosamente o masoquismo a que as convenções sociais nos condenam.

P: A peça também coloca em relevo uma geografia afetiva de Paris, de Copacabana…
BM: Sébastien está em Paris e Clara, no Rio. O amor deles acontece no eixo Paris-Ipanema, lugar onde errar é um privilégio e tudo se presta ao amor. São dois pontos míticos. Mas, como eles mesmos dizem, até numa cidade em ruínas eles estariam bem se estivessem juntos. A palavra “junto” é tão deles quanto a palavra “liberdade”. Acho que o amor deles é feliz, porque eles não querem se separar, mas aceitam a separação.

P: Como situar O amante brasileiro em relação às peças anteriores, Paixão e Paixão de lia?
BM: Paixão é uma colagem de textos meus e de poetas da lusofonia brasileira e portuguesa. Um texto encomendado pela Nathalia Timberg e depois encenado por ela em vários estados do Brasil. A paixão de Lia está centrada numa personagem que tem uma relação mística com o amor e o que ela mais quer é imaginá-lo. Porque o amante esperado por Lia não existe na vida real. Houve uma leitura da peça no Auditório da Folha com direção do Zé Celso. Giulia Gam encarnou Lia. No Amante brasileiro, o que prevalece é a relação entre os dois amantes. Porque Clara encontra na vida real o homem com quem sempre sonhou. O tema das três peças é o amor e nas três eu exalto a palavra e a oralidade. Por isso, há sempre um eco, que na Lia é uma personagem A VOZ e no Amante brasileiro é uma voz off, que reenvia ao ator a sua própria fala. Acho que estou escrevendo o Teatro da Voz.

P: Qual a sua expectativa em relação à passagem de O amante brasileiro para o teatro e a cena ao vivo?
BM: Já vivi a grande expectativa de ver o romance pronto. Depois, vivi a expectativa de escrever a peça. Esse trabalho foi feito de uma maneira maravilhosa com o diretor da leitura, Fransérgio Araújo, e com os atores, Luciana Domschke e Ricardo Bittencourt. À medida que eles iam trabalhando, eu ia cortando texto. Pude reescrever a peça inúmeras vezes. A partir das sugestões deles e da minha escuta. Nós tivemos um imenso prazer no trabalho.

P: Betty, por fim, importa-se em confirmar sua idade?
BM: Sessenta anos dentro de seis meses. Confirmo isso porque nunca estive tão bem na vida. Ou melhor, tão zen.

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“Betty Milan investiga o ‘teatro da voz’”, entrevista concedida a Walmir Santos, publicado na Folha de S. Paulo, 2/03/2004