Maria Lúcia Balthazar
Betty Milan
Primeiro eu não quis acreditar que Maria Lúcia tivesse morrido. Depois, me perguntei se devia acreditar. Meu corpo ficou tão rígido que eu não me mexia, parecia cadaverizada. Isso durou pouco. Até me certificar de que ela estava comigo e, como no passado, a nossa conversa ia continuar.
Maria Lúcia foi minha analisanda, nos anos 80, e depois a principal interlocutora ao longo da vida. No apartamento onde eu sempre trabalhei e morei, nós tinhamos uma salinha para conversar. A amiga chegava no fim da tarde e nós íamos para lá; eu me sentava na cadeira de analista e ela no sofá que havia sido o seu divã. Passávamos horas falando sobre tudo que nos concernia: a Psicanálise e a Literatura, a política e a vida cotidiana. Na verdade, nós falávamos sobre o amor, a vida e a morte. O assunto não se esgotava e só dávamos a conversa por terminada quando uma das duas precisava descansar.
Foram décadas de colaboração intelectual. Nunca escrevi um livro sem que fosse lido por ela. Tanto a sua escuta quanto a sua leitura eram fundamentais para mim. Aos domingos, eu enviava uma foto dos meus netos que ela não parou de presentear. Uma empatia sem limites.
A perda foi tão grande que, por uma razão de sobrevivência, o luto se fez rapidamente. Maria Lúcia passou a existir em mim através da lembrança, mas não só. Quando quero falar com ela, falo e respondo pela amiga, sou eu e sou ela. Assim, nós continuamos ainda mais juntas do que antes, porque Maria Lúcia não pode se separar de mim.
Era um anjo e foi levada por um outro para uma constelação onde ela vai transmitir SABEDORIA – e, por que não, a Psiquiatria e a Psicanálise.


