Fascínio de Picasso pela pré-história lembra descaso com o Museu Nacional

Fascínio de Picasso pela pré-história lembra descaso com o Museu Nacional

 

betty milan
Folha de S. Paulo, Ilustrada, 27 de agosto de 2023

 

A arte pré-histórica nunca foi tão contemporânea. Soubemos dela graças às escavações de arqueólogos feitas a partir do século XIX. O homo sapiens tinha uma organização social e um pensamento simbólico de que as expressões artísticas são testemunho. Não criava sem escolher cuidadosamente os seus suportes – paredes ou objetos materiais – e as técnicas de fabricação. Os homens pré-históricos são verdadeiros artistas e os modernos souberam reconhecer isso. Valeram-se da produção daqueles para criar suas obras. 

A Vênus de Lespugue, estatueta de marfim, datada do paleolítico superior (24.000 a 26.000 anos), inspira artistas há mais de um século. Descoberta numa gruta da Haute Garonne, ela ora é vista como uma deusa primitiva, ora como mulher ideal. Picasso se deixou inspirar continuamente por ela.

A fim de comemorar os cinquenta anos da sua morte, o Museu do Homem de Paris fez uma exposição sobre Picasso e a pré-história. As descobertas arqueológicas e a importação de esculturas permitiram que ele tivesse acesso a um catálogo de obras até então inéditas. Valeu-se das mesmas para o seu trabalho, privilegiando a arte universal da pré-história – universal porque diz respeito à origem da humanidade.

Quarenta pinturas, esculturas e desenhos dialogam na exposição do Museu do Homem com as obras dos ancestrais e os objetos que o artista guardava preciosamente no ateliê: cinquenta fragmentos de ossos trabalhados pelo tempo e a erosão das águas, além do crânio e dos cornos de um bovídeo, testemunhando a paixão de Picasso pela tauromaquia. Trata-se do seu memento mori – locução latina que serve para lembrar que somos mortais e bem pode ser traduzida por lembra que você vai morrer

A exposição se abre com uma vitrine onde estão duas réplicas da Vênus de Lespugue, o que se explica pela mudança radical na obra de Picasso, depois da chegada da estatueta no Museu de História Natural, em 1927. O artista passou a representar a mulher de forma inteiramente nova. Além de fazer a abstração do rosto, associou volumes lisos e abaulados evocativos da Vênus – cabeça oval desprovida de detalhes anatômicos, seios e nádegas muito volumosos – praticamente esféricos – e pernas curtas. 

Dois quadros se destacam na exposição: A mulher lançando uma pedra e O acrobata azul. No primeiro, a figura representada é simultaneamente humana e animal, mineral e orgânica, feminina e fálica. Mostra a ambivalência da natureza e do gênero e evoca o imaginário popular da pré-história: um mundo deserto, inquietante, em que dos povos originários só restam os ossos. 

Em O acrobata azul, chama atenção a postura dinâmica e estirada da criatura num movimento giratório, que faz pensar na liberdade de execução dos afrescos parietais do paleolítico. Uma liberdade que, segundo o curador, também se explica pelo relevo e a porosidade da rocha na qual a imagem do animal em movimento era representada. 

Quem visita a exposição se dá conta do fascínio de Picasso pela pré-história e da importância a ela conferida pelos franceses. Mas como não pensar no incêndio do Palácio Imperial Brasileiro que destruiu grande parte do acervo do Museu Nacional com 20 milhões de itens, entre os quais o crânio de Luzia? Um acervo comparável ao do Louvre. Trata-se de uma tragédia anunciada: salas fechadas – sem condição de uso –, falta de manutenção, infiltrações, gambiarras com extenções elétricas desemcapadas numa estrutura inflamável de madeira. Um risco de incêndio que os administradores não ignoravam e podia ter sido evitado. Não foi evitado e, como se não bastasse, o incêndio não pôde ser apagado em tempo hábil. Quando o Corpo de Bombeiros chegou, faltava água nos hidrantes das imediações. O fogo durou seis horas. Um descaso que comprometeu de forma irreversível o acervo e o conhecimento da nossa pré-história. 

Até quando o Brasil vai ser o país do tem mas falta