Consolação (2009)
P: Consolação começou a ser escrito em 2004, ano em que a senhora perdeu seu marido. Em que medida o percurso de Laura descreve também seu próprio percurso para superar e aprender a lidar com essa perda?
BM: Se eu não tivesse perdido meu marido, não teria tido a idéia deste romance. Mas, antes de Consolação, eu escrevi O clarão depois de ter perdido um grande amigo, o publicitário Carlito Maia. O tema da morte já me rondava. O fato de ter presenciado a agonia do meu marido num hospital francês, onde a médica não aceitava abreviar o sofrimento dele, me fez escrever sobre a eutanásia. Por outro lado, eu vivo a cem metros da Avenida Paulista há 30 anos e não tenho como não ver os mendigos e os moradores de rua, que são meus vizinhos. O luto é uma verdadeira travessia do inferno, e eu fiz da Paulista o espaço do inferno que Laura atravessa antes de ouvir o discurso da consolação. Ou seja, eu parti de fatos da realidade para criar uma realidade nova, que ilumina a primeira, permite refletir sobre o luto e a superação do luto bem como sobre a cidade de São Paulo, que, além de poderosa, é eminentemente cruel.
P: Em dado momento do livro, a viúva escuta de um coveiro: “A morte, dona, não existe. foi só passamento”. Depois, ouve do próprio marido morto: “A morte não anula a minha existência e não anula o que você e eu vivemos”. O desafio, portanto, é reinventar o significado da morte?
BM: Para superar o luto, nós precisamos diferenciar a vida da existência. Acho que a grande sacada do livro é esta. Pelo menos para mim, foi fundamental. A pessoa morre, mas, se for rememorada, não deixa de existir, e a vida de quem a perdeu pode continuar. Daí o culto dos ancestrais entre os povos primitivos e os ritos de rememoração nos países de cultura mediterrânea – a dos meus ancestrais, que são originários do Líbano. Recentemente, eu estive na Córsega e na Sardenha e me surpreendi com o fato de os cemitérios estarem sempre bem à vista, como se os vivos não pudessem ficar longe dos seus mortos. Na Sicília, em Palermo, existe um cemitério onde há mais de mil pessoas do século passado mumificadas. Estão com a roupa que usavam e têm a expressão com a qual morreram. Trata-se de um teatro da morte, que é regularmente frequentado pelos sicilianos.
P: Mais adiante, a senhora escreve que “lamentar a infelicidade atrai a infelicidade”. Há ou deveria haver limite para dar vazão à dor?
BM: A idéia de que a lamentação atrai a infelicidade permeia a obra de Sêneca, de Shakespeare, de Montaigne… Os ritos aos quais eu me referi têm como função enquadrar o sofrimento no espaço e no tempo. Agora, uma coisa é lamentar a perda e outra é rememorar o morto e a sua vida. O que a heroína de Consolação descobre é isso. Ela faz a travessia do inferno paulista para passar da lamentação à rememoração, para deixar de ter pena de si mesma e voltar à vida, lembrar da nossa tradição, que é a tradição da alegria.
P: Diante de um homem muito próximo da morte, mantido vivo artificialmente, sentindo dor e sofrendo por ter consciência da própria decrepitude, o livro questiona em mais de um momento por que não se pode escolher para si e para quem se ama uma boa morte. Qual a perspectiva de uma reivindicação como essa na cultura ocidental, em que a morte e o próprio envelhecimento ainda são temas tabus?
BM: A reivindicação da boa morte é hoje a de todas as pessoas esclarecidas. Existem no mundo inteiro associações para defender o direito à eutanásia quando a vida já não é mais possível. O próprio Humberto Eco escreveu recentemente num jornal italiano que não deseja que sua vida seja prolongada se ele estiver em condições terminais. Argumentou, para surpressa da igreja católica, que esta sua decisão é feita em nome do amor ao próximo. Ele se valeu de um dos mandamentos para sustentar a idéia da boa morte.
P: Em seu percurso, Laura conversa com os mortos e com personagens que passam despercebidos no dia a dia das grandes metrópoles – aqueles que a romancista Michèle Sarde chama de “quase mortos”. Que outras mortes e mortos ignoramos no mundo contemporâneo?
BM: Não basta ignorar os mortos e os pobres? Sem esta ignorância, a nossa vida seria muito melhor. Nós não sofreríamos tanto de solidão, porque pertenceríamos a uma família extensa, feita também dos mortos. Por outro lado, não andaríamos entre os miseráveis, os “santos, os mendigos desconhecidos, sofredores e fodidos” a que me refiro na epígrafe do livro, citando Ginsberg.
P: Como a senhora organiza sua vida e seu trabalho hoje entre São Paulo e Paris? Onde está atualmente? Onde é seu lar?
BM: Eu não vivo entre São Paulo e Paris, vivo numa e noutra cidade. Costumo ficar em São Paulo de novembro a abril, mas estou aqui agora para lançar o romance. O meu lar é aqui e lá. Tenho com as duas cidades uma relação intensa. Paris me inspirou Paris não acaba nunca, que é o meu best seller e foi publicado inclusive na China. São Paulo, eu focalizei longamente em Consolação. Agora, a minha idéia de lar não é a de todo mundo. Até hoje, na minha residência de São Paulo, eu não tenho um sofá convencional. Só me sento para trabalhar ou comer, diante do computador ou à mesa… Estou pensando em mudar isso, porque o meu filho é cineasta e reivindica uma sala com telão Como já tenho 65 anos, estou considerando a possibilidade de um sofá. Isso não vai me impedir de fazer alguma atividade física todos os dias – ioga, natação, tai chi chuan.
P: A senhora atende pacientes nas duas cidades? Caso sim, as questões se repetem, uma vez que dizem respeito à condição humana, ou em países com diferentes culturas e níveis de desenvolvimento social sobrevêm no divã algumas peculiaridades?
BM: Me formei com 24 anos na Faculdade de Medicina da USP e não parei de clinicar até os 60. Agora, só faço o consultório sentimental da Veja.com. Nele, respondo às questões dos leitores, procurando mostrar o que há de universal em cada história. Nessa atividade, eu trabalho na fronteira da psicanálise e da literatura.
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Entrevista ao jornal Zero Hora, Porto Alegre, agosto 2009.


