Taslima Nasreen

Taslima Nasreen

 

Além de Rose Marie Muraro, nós hoje ouviríamos outra autora, Taslima Nasreen, a escritora perseguida de Bangladesh. Ontem, tive uma surpresa, porque, ao entrar no avião, recebi a notícia de que ela havia se acidentado e, por isso, não viria. Ainda que Taslima não esteja, eu vou falar dela, porque o não que ela disse à censura que pesa sobre as mulheres ecoou nos quatro cantos do mundo (1).

Como iniciar a apresentação de Taslima Nasreen? Contando que, por causa de um livro,os fundamentalistas de Bangladesh a condenaram à morte? Contando novamente a história da sentença que pesa sobre ela e faz com que sua cabeça valha tanto quanto a de Salman Rushdie, ex-presidente do Parlamento Internacional dos Escritores?

Não, para apresentar Taslima Nasreen, eu prefiro começar pelo seu texto. Porque, ainda que a sua grandeza seja indissociável da sua militância, foi pela escrita que ela se tornou grande. Assim, cito o texto de abertura do livro Uma jovem furiosa:

Tenho vontade de passear sozinha, a qualquer hora do dia ou da noite, à beira do rio, no campo, nas ruas da cidade, nos parques. Sozinha. Tenho uma vontade imensa de ir passar um tempo nas montanhas de Sitakund em cima de Chittagong, de ir sem mais passar a tarde em Shalbon Bihar, de ir à beira-mar em Saint-Martin, aí ver as gaivotas passarem… Numa tarde de mormaço, gostaria de ficar deitada na grama, só contemplando o céu, ficar sentada na escada do Parlamento, passar um tempinho no Parque de Romna, distraidamente encostada numa árvore, ficar horas com os pés na água em Crescent Lake, quando a noite cai. Ou então, de repente, o desejo me toma de ir passear de barco na Shitoloksha.

É pela qualidade literária do seu texto que Taslima subverte a ordem e faz ver que as vontades dela não são só dela, porque não há uma só mulher no Ocidente que possa, a qualquer hora do dia ou da noite, passear à beira do rio, no campo, nas ruas da cidade, nos parques. Este é o limite da nossa liberdade, que, às vésperas do terceiro milênio, ainda nada tem de sagrado.

Paradoxalmente, foi uma oriental que me fez reavaliar a importância do feminismo. No Ocidente, ele está fundado sobretudo na reivindicação da igualdade, e Nasreen procura fundá-lo na reivindicação da liberdade. Por isso, ela pagou com o exílio.

Mas o que foi que a levou a uma recusa tão vigorosa da censura? Faço, para responder a isso, um pequeno retrospecto biográfico.

Filha de uma família muçulmana de Bangladesh, Taslima Nasreen cursou medicina e se especializou em ginecologia. Sua experiência clínica a fez escrever sobre a violência sofrida pelas mulheres no casamento – e Taslima, aliás, se divorciou duas vezes “para (diz ela) não se tornar escrava”. Pelas crônicas nos jornais e pelos romances – cerca de vinte obras publicadas –, ela se tornou uma autora popular no seu país.

Desde a publicação de A vergonha, em 1993, os fundamentalistas de Bangladesh, acusando-a de ter blasfemado contra o Alcorão, querem a sua cabeça. A vergonha é uma história que se passa em dezembro de 1992, depois da destruição de uma mesquita por fanáticos antimuçulmanos.

Taslima declarou ter escrito o romance por ser contra toda e qualquer discriminação e afirma que a “vergonha” tanto são as minorias perseguidas quanto os perseguidores, porque uns e outros são obrigados a se renegar para sobreviver.

O que ela quer para Bangladesh é que ele se torne um país laico e moderno, e foi talvez por isso que ela tenha se disposto a vir para o Brasil, que é laico e moderno, apesar do arcaísmo das nossas elites.

Por ser um símbolo internacional da liberdade, sua obra pode nos fazer refletir sobre o que é contrário à liberdade no Brasil, que, por outro lado, podia interessá-la pela liberdade religiosa que aqui vigora, a coexistência tradicionalmente pacífica de todas as religiões graças ao nosso espírito antropofágico, ao pouco que nós fazemos das catequeses e dos tabus.

Nesse sentido, Taslima também é brasileira. Teve a ousadia de declarar em Bangladesh – um país cuja população quase inteira é muçulmana (90%) – que o Alcorão é supérfluo. Não é à toa que, depois de ter escrito A vergonha, ela vive refugiada na Suécia, “fechada (diz ela) como numa prisão”, desde 1994. No Ocidente, conta com o apoio dos governos e da opinião pública, mas nem sempre com o da inteligência laica, que, por não dispor do conceito de literatura de missão, por não saber que a aventura literária também passa pelo panfleto e por desprezar a imprensa, vê em Taslima um produto da mídia internacional.

A prova de que esta intelligentsia está errada é a invenção dos neologismos de Taslima. Nada mais nada menos do que a palavra feminino, que não existia na língua de Bangladesh. Ou ainda a invenção da palavra amante.

Mesmo que haja quem só veja nela uma mártir da liberdade, Taslima é sobretudo uma escritora. Pessoalmente, vejo nela uma irmã. Porque também eu fiz medicina antes de me tornar escritora e porque a liberdade foi a minha estrela quando tomei o rumo do exílio para escrever.

O convite feito a Taslima Nasreen para vir ao Brasil é um marco na história da nossa cultura, que não passa casualmente por Passo Fundo, cidade que soube acolher o Parlamento Internacional dos Escritores, porque ela não dissocia a literatura da missão que a literatura, pela sua natureza, incessantemente gera: a missão de se opor à censura e de acolher aqueles que são obrigados a se exilar por terem ousado a palavra. Aqueles que teriam ousado a questão lancinante de Taslima: O que é preferível ter? uma vida segura e longa ou uma existência curta mas ativa?

Isso posto, eu passo a palavra a Rose Marie Muraro, autora que representa vigorosamente o nosso feminismo. A obra da Rose Muraro também é uma declaração dos direitos da mulher e da cidadã, além de ser uma reflexão sobre a condição humana, que é tão contrária à oposição entre os sexos, porque ser Homem é ter nascido para a morte e para o amor.

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1. Proferida na 8ª Jornada Nacional de Literatura, Passo Fundo (RS), 17-20/08/1999, publicada no livro Palavra amordaçada, Passo Fundo: Editora Universidade de Passo Fundo, 2001.