Núcleo Moreno

Núcleo Moreno

 

Beacon, New York, às margens do rio Hudson. De que forma retomar hoje uma experiência que é datada de 12 anos atrás? O que nela pode me interessar? Quais os seus limites?

Para responder a isso, retrocedo e me coloco no cenário da dita experiência – Formação Psicodramática em Beacon, EUA.

Um teatro, um método terapêutico, uma ação dramática. Não fosse a expressão “método terapêutico”, eu poderia dizer que a experiência era lacaniana. A expressão “método terapêutico”, entretanto, é um divisor de águas, ele separa Moreno e Lacan. Por quê? Pelo que a terapia visa, isto é, reconduzir de volta o sujeito a seu modo de estar anterior a uma doença.

Ora, ninguém pode passar por uma psicanálise e voltar atrás, a menos que não seja uma psicanálise. Aliás, o termo psicoterapia, de origem grega, é justamente o termo que o cristianismo grego usa para nomear a conversão dos infiéis. Nada a ver com a psicanálise, que não converte infiéis, não se propõe a fazê-lo, nem teria mesmo como. Sendo uma cura, a psicanálise não é portanto uma terapia. O analista, contrariamente ao psicoterapeuta, não é um diretor de consciência, isto é, ele não opera através da sugestão.

Mas o que é a cura? a cura no sentido lacaniano? A cura é uma experiência na qual o analisando torna presente o evento passado, faz de um discurso arcaico um discurso atual, isto é, faz de um discurso arcaico a narrativa viva de uma epopeia para se tornar o ator a quem o analista responde da posição do coro, isto é, reenviando ao analisando a sua própria mensagem e, como ele, se tornando espectador do que se passa. Ou seja, a cura supõe uma epopeia, um ator (o analisando), um coro (o analista) e os espectadores (analista e analisando). Trata-se, portanto, de um teatro – daí a expressão “artifício freudiano” para designar a situação analítica, um teatro onde o analisando é simultaneamente o ator e o espectador do seu próprio drama e o analista, apenas o coro.

Se eu retomei a noção de cura para falar de Moreno e Lacan, foi precisamente pela teatralidade que marca as duas posições, que certa vez me fez dizer ao Dr. Lacan que ele era o mais psicodramático dos analistas.

Para ilustrar isso, eu recorro à memória e leio aqui certas anotações sobre o que ocorria na minha própria análise.

Primeira anotação: teatralidade do doutor (que está no ato de funcionar como o coro).

Segunda anotação: teatralidade a que, através do corte, ele me obrigava.

Última anotação: o que evidencia a teatralidade da cura analítica é o fato de que ela reenvia a uma epopeia.

Isto posto, eu gostaria de dizer que foi para responder à questão de saber “quem sou eu” que a experiência moreniana me interessou – ainda me interessa, na medida em que nela a cura se concebeu como um teatro – e que eu abandonei porque ele era acionado por um dever ser, um imperativo categórico, um juízo moral, que me impedia de saber quem sou.

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Sem referências.