Memórias, ficções, cartas, diálogos e outras criações

 

Claudio Willer

 

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A obra de Betty Milan é extensa e múltipla. Compõem-na narrativas, ensaios, peças teatrais, crônicas, entrevistas. O conjunto se constitui em um “corpus”, com uma intrincada rede de relações Cada livro se relaciona aos demais; remetem-se uns aos outros. São partes relacionadas ao todo, microcosmos de um macrocosmo. Por isso, pedem uma leitura especial, captando inflexões, múltiplos significados, remissões de uma obra a outra.

Tais relações são mais evidentes em Carta ao filho, de 2013[1]. Nessa narrativa há uma reflexão retrospectiva, um balanço de boa parte do que escreveu e viveu. Tome-se, por exemplo, o que observa nesse livro sobre “o prolongamento inútil da vida”, a propósito do marido morto, devastado pelo câncer. Mas esse é o tema central do precedente Consolação (2009), relato do luto agravado por acompanhar um sofrimento desmesurado. E a reivindicação do direito de abreviar a vida vai retornar no subseqüente A mãe eterna, recentemente lançado (em 2016), desde o subtítulo: “Morrer é um direito”.

Autora mórbida, com uma propensão ao fúnebre? Jamais. De fato, o direito de morrer é afirmado, reivindicado: “Não quero viver com o que terá sobrado de mim. O aumento da sobrevida está danificando a sua vida. Por que nos incutiram a idéia de que estar vivo é só o que importa e que nós estamos vivos enquanto o corpo resiste?” Mas é inseparável da reivindicação de viver plenamente.

Norman O. Brown observa, em Life against DeathThe Psychoanalytical Meaning of History[2], que o homem é a espécie que separa vida e morte, pois “não é a consciência da morte, mas a fuga da morte que distingue o homem dos animais.” Segundo ele “se a morte é uma parte da vida, o homem reprime sua própria morte assim como reprime sua própria vida.” Como parábola, o trajeto em Consolação, do cemitério rodeado por miseráveis a uma celebração dionisíaca em um teatro.

Em algumas sociedades essa dicotomia é superada ou ultrapassada através da magia, pelo xamã, o mago tribal: um de seus poderes consiste em ir e vir do mundo dos mortos; em poder ser um agenciador entre as duas esferas – assim como aquelas da natureza e cultura, do humano e não-humano.

A rotação de temas ou símbolos torna possível identificar outras polaridades constituídas nesse “corpus”: além de vida e morte, também palavra e sentido, fala e escuta, união e separação, o masculino e o feminino, amor cortês e a cultura do brincar. Todas interagem, contrapondo-se e confundindo-se em um trânsito por vias de duas mãos. Conforme havia observado em outra ocasião[3], aplica-se a proclamação famosa de William Blake, em O casamento do Céu e do Inferno: “Não há progresso sem Contrários. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência Humana”. O grande poeta visionário reiterava o que havia lido em místicos; o que se expressa através da rotação taoísta de Yin e Yang (no qual cada hexagrama implica ou supõe seu contrário), do Ouroboros e dos símbolos correlatos do movimento e também da gênese do universo.

Exemplifico as polaridades através daquela constituída por dois personagens com uma carga simbólica especialmente forte, frequentemente evocados: Jacques Lacan, central em O papagaio e o doutor, de 1991[4], e o carnavalesco Joãosinho Trinta, principal inspirador de Os bastidores do carnaval, de 1994. Podem representar o consultório e a escola de samba; a introversão e extroversão – talvez o apolíneo e dionisíaco? Para alguns, seria preciso escolher entre um e outro, entre o que representam Joãosinho e Lacan. Mas a relação de opostos é mais complexa: um impulsiona o outro, pois “o encontro [com Joãosinho] foi tão importante quanto o encontro com Lacan”, diz em Carta ao filho. E mais: afirma que, se não tivesse conhecido Joãosinho, não teria escrito O papagaio e o doutor, relato no qual Lacan é personagem central, objeto de admiração; mas no contexto de uma narrativa que não exclui a ironia e até o tratamento carnavalesco.

 

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[1] Os livros de Betty Milan vem sendo publicados no Brasil pela editora Record. Por isso, em vez da referência bibliográfica completa, apenas indico o ano do lançamento de cada um deles.

[2] A edição consultada: BROWN, Norman O, Life Against Death – The Psychoanalytical Meaning of History, Middletown: Wesleyan University Press, 1985

[3] No meu posfácio de Trilogia do amor, de 2010.

[4] O livro ganhou uma nova versão em 1998.

 

 

2

 

Podem ser examinados como um tríptico os já aqui citados O papagaio e o doutor, Carta ao filho e A mãe eterna, apesar da especificidade de cada uma dessas narrativas. Enquanto em outra ocasião designei Carta ao filho como “amplo painel”[1], a mais recente das três, A mãe eterna, é também a mais intimista. Camerística, diria, enquanto Carta ao filho é sinfônica. A ação em A mãe eterna transcorre, basicamente, entre duas moradias em São Paulo que são próximas, mesmo sendo atravessada por evocações de outros lugares. Já em Carta ao filho há um cenário ausente, o apartamento onde o filho se recolhe e isola; mas, sendo confessional, um balanço autobiográfico, é também narrativa de viagens; passa-se no mundo todo. Em O papagaio e o doutor, o cenário principal é Paris; uma Paris que vai sendo conhecida e desvendada, antecipando Paris não acaba nunca, de 1996, e Quando Paris cintila, de 2008; mas com referências constantes ao país natal, o “Tão” da língua do “ão”, e evocações do “Cedro” dos ancestrais.

Nesses relatos, alguém se expressa na primeira pessoa; há uma narradora que é protagonista. Alguns, inclusive esses examinadas aqui em maior detalhe, parecem autobiográficos. Mas sua autora lança dúvidas a respeito. Em Carta ao filho, comenta, a propósito de O papagaio e o doutor:

Trata-se de uma heroína na qual eu me reconheço, porém sou e não sou Seriema. A história dela é a que eu inventei escrevendo, não é a minha.

Escrevi sabendo que os leitores me identificariam com a heroína e alguns dos meus se reconheceriam nos dela. Pamuk[2] sempre misturou o imaginário e o real. Sabia que os leitores tomariam um de seus personagens por ele e, na verdade, desejava isso. Diz ter concebido o romance para ser considerado uma obra de ficção… porém também para que os leitores acreditassem que a história é verdadeira.

Querer traçar com exatidão a linha entre narrativa de ficção e relato autobiográfico deriva, me parece, de uma crença algo ingênua na mimese; em uma relação linear entre palavras e coisas; entre signos e “realidade”. A complexa questão dessas relações entre “ficção” e “realidade” justifica citar algumas observações de William Burroughs, a propósito de obras de Jack Kerouac nas quais ele, Burroughs, teria sido um dos personagens: “Assim, a questão não é ‘Isso aconteceu desse modo?’, mas, ‘Como Jack teria escrito isso?’ […] Cada escritor cria seu próprio universo. Quando você compra um livro, você está comprando um bilhete para viajar no tempo do escritor.”[3] Desde as mais factuais dentre as narrativas até as mais fantásticas – digamos, desde Autobiografia de Federico Sánchez de Jorge Semprún até Locus Solus de Raymond Roussel – o leitor tem contato com a voz do escritor, com seu universo; viaja em seu tempo.

A criação literária não poderia deixar de ser comentada por Betty Milan. Isso se evidencia particularmente em Quem ama escuta, de 2011: livro epistolar, registro de um consultório sentimental, no qual obras são citadas como modelo ou exemplo, para que os consulentes entendam o que se passa com eles. Aliás, esse também foi o tratamento dado à literatura pelo próprio Lacan: não mais como objeto de interpretação, mas como paradigma, como se vê, especialmente, no que escreveu sobre “A carta roubada” de Edgar Allan Poe.

Também nos demais livros, entre outros modos da metalinguagem, sempre há comentários sobre leituras e sobre escritores que, de diferentes modos, são figuras tutelares. Um deles, o Oswald de Andrade do Manifesto Antropófago, contraponto vital à metrópole sombria e sepulcral descortinada através de Consolação, além de interlocutor mais ou menos implícito em outras de suas obras. Mas, nas passagens finais de Carta ao filho, trata de James Joyce, que transitou do relato confessional e autobiográfico de Retrato do artista quando jovem, seguido por evocações mais ou menos ficcionalizadas e literariamente muito bem tratadas em Dublinenses, para uma alegoria labiríntica em Ulisses e a celebração final da autonomia da linguagem em Finnegan’s Wake. É o autor que Betty Milan “passou a adolescência lendo e relendo”, movida pela “esperança vã de entender tudo” em Ulisses. Tensões e aproximações de literatura e vida enriquecem sua visita a Dublin e a entrevista com o sobrinho de Joyce, suscitando uma reflexão sobre a família do irlandês na qual se observa a relação de oposição simétrica com relação a tudo o que ela escreveu sobre seus próprios familiares.

Já recebeu alguma atenção da crítica seus personagens serem e não serem “reais” ao combinarem traços biográficos e outros que lhes são atribuídos, em episódios ao mesmo tempo efetivamente ocorridos e inventados. Parece-me exemplar, por ilustrar essa tensão entre o mundo dos “fatos” e aquele simbólico, ela haver trazido sua própria mãe, que seria a personagem central em A mãe eterna, à noite de autógrafos e a um debate sobre esse livro. Assim mostrou que a quase centenária é e não é a personagem; confrontou a mãe física, uma senhora muito afável, visivelmente satisfeita com a boa recepção dada à obra da filha, e a mãe escrita, bem mais afetada pela idade – assim como dez anos antes, em Consolação –, em um perturbador jogo de espelhos. Qual das duas, próximas mas não idênticas, seria mais “real”? Conforme a reflexão de Burroughs, ambas: a mãe-personagem constituída e perpetuada através da publicação do livro ganha estatuto próprio; existe dentro do tempo do escritor, percorrido por seus leitores.

Por isso, narrativas de Betty Milan já foram designadas como ficção biográfica ou autoficção[4]. Semelhante classificação se aplica ao trítico aqui examinado. Em menor grau, a Consolação – o retorno a São Paulo após a agonia e morte do marido é “real”, no sentido de ser factual, assim como a dor da perda. Mas não são “reais”, em algum nível, as vozes que falam com a protagonista, embora alucinações, confusões da esfera factual e da subjetividade sejam registradas em outras obras, especialmente em O papagaio e o doutor. Certamente, não é “real” a Paixão de Lia, de 1994; ou é, pela efetiva existência dos desejos e fantasias expostas nessa série de relatos.

Enfim, a designação como “autoficção” não exclui outros modos de enxergar esse “corpus”, para mostrar como é sui generis, com características autônomas. Uma categoria que se aplica é a narrativa epistolar. A adesão ao gênero se traduz em Carta ao filho, ao expressar admiração por Madame de Sevigné na visita a seu castelo; e na caracterização de suas cartas como escrita movida pela paixão. No caso de Sevigné, pela filha, em outra relação especular: cartas à filha comentadas na Carta ao filho, assim promovendo um diálogo entre as duas autoras e entre leitura e escrita.

Dois de seus livros são especificamente epistolares, constituídos por cartas. Ambos têm como tema central o amor, a paixão, em suas vicissitudes e realizações. Um deles, Quem ama escuta, é a seleção de um consultório sentimental que manteve em um jornal e uma revista de grande circulação – realizando um desejo e transformando-se na versão não-ficcional da Miss Lonelyhearts de Nathanael West, ou na encarnação de Suzana Flag, pseudônimo adotado pelo dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. O outro é O amante brasileiro, de 2003: a troca de mensagens entre dois amantes – ela e “Oswald” – que teria ocorrido de fato, no plano da realidade. Seu livro mais epistolar seria, então, aquele mais diretamente relacionado a uma relação amorosa “real”, efetivamente acontecida.

Fale com ela: esse título se aplicaria ao conjunto da sua obra. É coerente a autora também expressar-se através da dramaturgia; de uma fala diretamente dirigida ao público, capaz de dispensar a mediação da página. Narradores epistolares procuram a fala; cartas fixam diálogos. “Escrevo para uma interlocutora imaginária”, diz em A mãe eterna – mas essa afirmação vale para toda a sua obra, pois seus interlocutores são sempre imaginários, por mais que também sejam reais.

No título O amante brasileiro, novamente o gosto pelo paradoxo: a protagonista brasileira troca mensagens com um francês que ganha um nome homenageando nosso modernista da Poesia Pau Brasil. Qual o sentido dessa inversão, trocando papéis, nacionalidades? Ambos são outros, pois amar é ultrapassar os limites da individualidade, do papel social, da identidade convencional, da nacionalidade. O amor cria sua própria geografia.

A interlocução, imaginária ou real, exige a escuta como recíproca. O prazer de expressar-se é vazio, um solilóquio, se não for correspondido pelo prazer de ouvir. Inclusive de ouvir a si mesmo: especialmente em Quem ama escuta, recomenda sempre aos consulentes que escutem o inconsciente. Há complementaridade das cartas com as entrevistas feitas para jornais, transcrições da fala do outro, registros diretos da escuta que resultaram em dois livros, A força da palavra, de 1996, focalizando escritores, e O século, de 1999, com especialistas de diferentes campos que teriam algo a dizer sobre a virada do milênio.

Sendo autoficcional e epistolar, Betty Milan é em primeira instância uma memorialista – também da espécie paradoxal, pois as evocações de passados são um chamado para viver plenamente o presente, mais que um registro da perda. É como se lembrar fosse o passaporte para esquecer, para liberar-se do que já foi. Trata-se de memorialística de vários planos ou níveis simultâneos. Isso é evidenciado, de modo especial, em O papagaio e o doutor, que, mesmo já sendo seu quarto livro publicado, precedido por ensaios e outra narrativa biográfico-ficcional, é um início, obra matricial. Contém a semente de livros futuros que, por sua vez, retomam ou contém referências a essa narrativa.

É um dos relatos em que funde a memória pessoal, atinente à sua própria biografia, e aquela coletiva, da “tribo” de imigrantes; dos desterrados voluntários, endogâmicos, preservando hábitos e tradições, resultando na “incrível tirania da tribo, do nome!”. Mas, tribo desterrada em outra sociedade, que abandonou a própria língua, descartou o que é central na sua visão de mundo ou na sua identidade.

Considere-se a passagem seguinte:

O passaporte do Cedro para o Ocidente era a língua francesa. Podia Seriema não falar o francês? Já o açuano o ancestral requeria para que na América estivesse a nova pátria. Desdobra-te e, sem suspeitar ainda que agia para satisfazer tal ancestral, eu vertia e traduzia sem cessar.

Há uma quantidade de afirmações e questões contidas em um parágrafo. A protagonista dominará o francês e tem que falar em português do Brasil, para poder ser uma descendente dos libaneses que mantiveram tradições, mas abandonaram a língua. Ser é traduzir; mas a tradução é infinita, pois cada símbolo se traduz em outro símbolo, gerando um trajeto circular, como é observado nessa narrativa, a propósito da decisão de traduzir o próprio Lacan (resultando na edição brasileira do primeiro volume dos Seminários): “Ora a açuanazinha que se virasse com sua louca obsessão de verter, ir e vir de uma a outra língua, insistindo numa identidade impossível e engolindo as várias impossibilidades, os tantos sapos”. Várias impossibilidades? Inumeráveis, diria. Mas ser brasileiro não é isso? Alguém em trânsito, em mutação, vivendo sobre um solo instável? Que dispõe de uma língua móvel, em processo de fazer-se ou refazer-se, obrigando à permanente e infinita tradução?

Experiência abissal: “mise em abîme” é o termo usado para essas escritas especulares. Daí suas narrativas em geral e O papagaio e o doutor em especial serem autorreferentes, auto reflexivas. Não focalizam apenas a narradora, mas sua criação. Sendo uma escrita que se pensa, por isso pensa a língua. É recorrente a dúvida sobre a significação, a relação de palavras e seus referentes. A instabilidade dessa relação é ilustrada por jogos de palavras como este, buscando o sentido de sua análise com o mestre: “Seria para do renome fazer o nome?”. Ou, ao tratar das rupturas com ortodoxias e o consequente banimento de ambos, analista e analisanda, de sociedades psicanalíticas: “Disso já resultava uma outra classificação da espécie: os perversos, os conversos e os submersos […]” Nessa e em outras passagens de O papagaio e o doutor, o significante toma a frente e passa a gerar sentidos. Inclusive no episódio central, a interpretação da alucinação com ratos, cuja chave está em um fonema, “Rah”. Este fonema remete à palavra banida, “a que tinha se corporificado no rato imaginário” e diz respeito ao nome do pai, Raji. Um nome sempre omitido por revelar as origens que a personagem deseja esquecer “para não ser vítima da xenofobia alheia”. E que também é o nome do bisavô, que não completou a travessia: “Morto no navio, atirado no fundo do mar”

Aceitar a autonomia do significante está a um passo de conferir-lhe valor mágico. Por exemplo, quando, ao se dizer uma palavra como “abracadabra” ou desenhar um símbolo, entoar um canto ou usar um talismã, supor que essas ações teriam o poder de interferir nos fatos ou desencadear acontecimentos, assim subvertendo ou invertendo a relação entre símbolos e coisas, tal como postulada pela idéia aristotélica de mimese. Esse passo é dado. Há um amuleto perdido em O papagaio e o doutor; um fetiche. É “real”? Pertence à esfera das crenças e superstições, ou detém mesmo poderes mágicos? Observe-se como é ambivalente a relação da protagonista, não só com este objeto, mas com a magia em geral; em especial, com os sincretismos brasileiros. Ela os evoca, valorizando as sonoridades:

A tia que na infância dançava requebrando o dabke, primeiro foi espírita e umbandista depois, um ponto mais açuana, cantando… minha Jurema/ meu Jurema… licença mamãe Oxum/ Aiê Ieu…. licença mamãe Oxum/ nosso pai Oxalá…. Epê Epê Babá/ nosso pai Oxalá.

Passagens em prosa poética reforçam o vínculo de poesia, loucura e magia. Gérard de Nerval, poeta louco, adepto do esoterismo, referiu-se a sua derradeira narrativa, Aurélia, como “efusão do sonho na vida real”. Tal efusão caracteriza O papagaio e o doutor. E não apenas por haver tamanha presença do sonho, a ponto de sentir-se sonhada por Luis XIV por estar palácio de Versalhes. Mas por acontecimentos parecerem obedecer à lógica do sonho; daí a narrativa ser, toda ela, alucinatória. Por isso, ambivalente: tudo pode ser outra coisa, pois “o negócio do homem [de Lacan] era valorizar os dizeres todos, qualquer um e seu oposto.” Voltaria a afirmar, em Carta ao filho, sobre Carlito Maia, um de seus amigos e personagens, homenageado em O Clarão, de 2001: “Carlito fazia pouco da lógica das contradições”. O homem da linguagem plena, por isso um importante profissional da comunicação, que enviava flores acompanhadas por breves mensagens, inspirou um livro sobre o período que precedeu sua morte, no qual se tornou afásico: moveu-a não apenas a perda gradual do amigo, o registro de estar partindo, porém o paradoxo de alguém tão expressivo e comunicativo haver deixado de ser capaz de comunicar-se e mal conseguir expressar-se.

 

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[1] Em um artigo publicado no jornal O Estado de Minas.

[2] Orham Pamuk, escritor turco, ganhador do prêmio Nobel de 2006.

[3] “Heart Beat: Fifties Heroes as Soap Opera”, publicado em The Rolling Stone book of the Beats, organizado por Holly-George-Warren, Rolling Stone Press, 1999.

[4] Inclusive por Michèle Sarde no posfácio de Consolação.

 

 

 

3

 

Se predomina a ambivalência e tudo pode ser outra coisa, isso vale para o gênero ou sexo. O que é ser mulher para Betty Milan? Um movimento; um processo; evidentemente, aquilo que não for o papel designado à mulher na sociedade patriarcal, constituída a partir da família nuclear na onipresente “cultura que discrimina as mulheres”. Daí proclamar no confessional Carta ao filho sua “ambiguidade sexual”, relatando que “eu não participei da revolução sexual como mulher, e sim como homem”. Acrescenta: “E a concepção foi difícil pela impossibilidade de me identificar com o sexo feminino”. Para deixar mais claro ainda, abre Carta ao filho deste modo:

Essa androginia me predispôs a grandes encontros com homossexuais, inclusive na época em que, além de marginalizados, eles eram assassinados no Brasil. Quando eu tinha 18 anos, Michel Foucault, que estava em São Paulo como conferencista, me disse: “Você é tão afável quanto um rapaz”. Demorei para entender a frase. Por ser particularmente sensível, além de homossexual, ele percebeu que havia em mim um rapaz. Isso explica por que sempre me apaixonei por homens com traços delicados, verdadeiros andróginos. A gente se espelha no outro que espelha a nossa alma, e, quanto maior o espelhamento, maior é a paixão.

Sim – mas é possível avançar na interpretação dessa múltipla identificação (dela mesma, dos companheiros e de amigos) com o andrógino. Isso, por sua colossal carga simbólica. Não só no Platão de O banquete, mas em incontáveis mitos de tantos e tão diversos povos, o andrógino, ser bissexuado, representa a completude, a perfeição. O homem anterior à queda, o Adam Cadmon dos textos paralelos ao Gênesis bíblico. Daí, conforme os relatos de antropólogos e historiadores da religião, ocorrer de xamãs, magos ou sacerdotes tribais, se travestirem ou adornarem com adereços femininos. Alguns, tomando o símbolo “in concreto” (para utilizar o termo de Mircea Eliade), seriam de fato bissexuais ou homossexuais.

Uma lenda particularmente ilustrativa é aquela do vidente Tirésias: após matar uma serpente fêmea, transformou-se em mulher e viveu muitos anos nessa condição; aconteceu, porém, de matar uma serpente macho, e isso o fez recuperar a condição masculina; mas a dupla sexualidade, ou a passagem pelos dois sexos resultou em ele ganhar muitos anos a mais de vida[1]. É como se a história de Tirésias fosse uma parábola a ilustrar Norman O. Brown, para quem, em Life against Death, o andrógino de Platão e das mitologias também simboliza a superação da dualidade de vida e morte. É possível arriscar uma interpretação adicional da lenda de Tirésias: o adivinho, que ultrapassava a barreira do tempo ao ver o futuro, teve sua vida ampliada, não só na extensão, mas no sentido da plenitude, de viver mais a cada momento.

É interessante como o valor conferido á bissexualidade acaba migrando dos ritos tribais para o nosso carnaval de rua, no qual tantos homens normalmente convencionais podem desfrutar seu momento de androginia através do travestimento.

Há ainda um paradoxo adicional: o valor conferido à maternidade, à importância de ter um filho. Antecipada em O papagaio e o doutor, a maternidade seria o modo de fixar raízes em algum dos solos pelos quais transita: o Líbano remoto dos ancestrais, a França, especialmente o Brasil. Poderia parecer contraditório, vindo do aparente “rapaz” para Foucault, que participou de protestos como “homem” e se uniu a homens com traços “femininos”. Mais ainda, a propósito de identidades, por acabar tendo o mais cosmopolita dos filhos, bilíngüe, franco-brasileiro, que vai filmar judeus na Índia. E que suscita um espelhamento, pela relação tensa com o rigor formalista do ensino europeu.

Da simbologia do andrógino pode-se avançar até o tema da liberdade. Cabe distinguir dois estágios ou níveis da liberdade. Um deles é a liberdade transitiva: aquela, por exemplo, de poder ser mulher e ter todos os direitos como mulher respeitados; de não submeter-se à opressão das instituições e costumes; não precisar ser uma mera extensão de valores familiares, tribais, sociais, corporativos; de estar livre das desigualdades e das contingências econômicas. O outro é a liberdade intransitiva[2]. Consiste em ser e não ser mulher, simultaneamente; ou melhor, ser e deixar de ser, não “a mulher”, mas múltiplas mulheres e não-mulheres, constituindo um elenco de possibilidades que inclui, entre outros personagens, o desfile de tipos díspares e até antagônicos à primeira vista de A trilogia do amor.

A confusão propositada de papéis – ou superação das distinções entre gêneros e papéis na sociedade ainda patriarcal – ganha uma metáfora através dos comentários, ao final de Carta ao filho, sobre “a velha dama indigna, a heroína de Brecht”. Aquela que, após enviuvar, tornou-se “Madame B, uma pessoa sem obrigações”; que “comeu o pão da vida até a última migalha.”

Mas Betty Milan não esperou a viuvez e a ruptura de laços; foi sistematicamente indigna; diria que metodicamente transgressora, desde sua formação, suas sucessivas rupturas com instituições e determinações familiares, de grupos e outras.

A mãe eterna encerra-se com uma bela prosa poética, da qual cito um trecho: “Não sabia ainda que, sem que eu fizesse esforço, você renasceria no meu coração e nós continuaríamos juntas. Vai ser enterrada num caixão de mogno, como combinado, e vai entrar no túmulo da família ao som de um silêncio grandioso – o dos que nunca renunciaram à independência.” Grifo “ao som de um silêncio grandioso”. Através do oximoro, do paradoxo aparente, é simbolizada a superação. Na esfera simbólica – que constitui a realidade – algo pode ser seu aparente oposto. E a morte se torna reafirmação da vida dos que nunca renunciaram à independência, através da criação; da poesia. Expressão da rebelião, aspiração a viver plenamente, de alguém que deu seus primeiros passos associando-se a rebeliões, nesse trajeto tão pessoal e, na mesma medida, tão estimulante e produtivo.

 

Betty Milan é paulista. Autora de romances, ensaios, crônicas e peças de teatro. Além de publicadas no Brasil, suas obras também circulam com selos de França, Argentina e China. Colaborou nos principais jornais brasileiros e foi colunista daFolha de S. Paulo e da revista Veja. Trabalhou para o Parlamento Internacional dos Escritores, sediado em Estrasburgo, na França. Em 1998 e 2015 foi convidada de honra do Salão do Livro em Paris. Em 2014, representou a literatura brasileira contemporânea na Feira Internacional do Livro de Miami (EUA). Antes de se tornar escritora, formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo e especializou-se em psicanálise na França com Jacques Lacan. Mais em http://www.bettymilan.com.br/

Claudio Willer (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor. Publicações recentes, A verdadeira história do século 20, poesia, Manifestos – 1964-2010, Os rebeldes: Geração Beat e místicas da transgressão, ensaio, Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia, ensaio; Geração Beat, ensaio; Estranhas Experiências, poesia. Traduziu Lautréamont, Ginsberg, Kerouac e Artaud, entre outros. Doutor em Letras na USP, onde fez pós-doutorado. Mais em http://claudiowiller.wordpress.com/about

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[1] Essa e outras observações sobre androginia, eu as extraí de Jean Libis em Le mythe de l’androgyne Jean Libis em Le mythe de l’androgyne; na edição espanhola, El mito del andrógino, Ediciones Siruela, s/d.

[2] Aqui, estou adaptando algo da contribuição de Foucault em As palavras e as coisas; sua contraposição de uma linguagem “intransitiva”, sem compromissos com a significação ou a referência externa, àquela apenas “transitiva”.