A Causa Freudiana

A Causa Freudiana

 

Brasília tem euforia no ar, dizia Clarice Lispector. Cito-a para me referir à Brasília desta Causa, que é a freudiana, que aqui se inaugura graças aos esforços de vários, aos esforços vários do país (1).

Brasília é perfeita e sem erros. A mim só me salva o erro, dizia ainda Lispector, que de novo cito para falar da psicanálise, pois não interessa o sucesso, mas o que falha e sucede através de sintoma.

Se assim não fosse, o discurso psicanalítico já não se reconheceria na ética que é a sua, e o lugar onde ele se pronuncia estaria ameaçado de desaparecer.

O que nos traz a Brasília e nos congrega, senão a certeza de que só o real – senão o impossível – revela o sujeito? a certeza de que este só se define pelo que lhe escapa?

O que no entanto no nível da Causa está para ser revelado e dar assim a esta nossa atividade um sentido novo? Talvez seja o significante Brasília, futuro que aconteceu no passado e quer vigorar significativamente no presente, saber de si através de nós, saber que significa ser o significante dos brasileiros.

Se é verdade que diferimos, que somos sem ser latino-americanos, resta-nos dizer quem somos. Nisso eu espero ver a Causa engajada, dizendo-nos em que o inconsciente de um brasileiro difere do inconsciente de um chinês ou de um francês, retomando assim uma proposta de Lacan que lamentavelmente, e não por acaso, ficou esquecida.

Lacan queria saber do inconsciente e por isso encontrou a censura pela frente. O sintoma da cultura brasileira pode até se dizer, mas não é ouvido, é sistematicamente abafado pela cultura oficial, que não quer saber da diferença e só se ocupa da nossa identidade para nos tornar idênticos aos outros todos que não somos.

A cultura da Causa, no entanto, é outra. A questão do analisando sendo “quem sou eu?” implica a análise da cultura onde este eu se inscreve. A psicanálise pode assim, no limite do seu campo, saber do país, reenviar a Brasília a sua própria mensagem – dotada entretanto de um sentido que Brasília desconhece.

A América é latina, mas, sendo brasileira, ela é ladina, gosta, como Macunaíma, de brincar e não nega que vê nisso um mérito. Onde, senão nesta América ladina, se ousaria afirmar a importância de brincar sempre, de não saber para sacar e de não guerrear para continuar, seguir vivendo como falesser, dois esses, o que fala para morrer e poderia, como Lispector, declarar: “Morri, morri assassinada por Brasília. Morri para pesquisar”.

Não fosse o cadáver, o analista não se conceberia. Ele então não se cadaveriza em vida para analisar? Para ocupar o lugar do Outro e daí reenviar ao sujeito a sua própria mensagem?

Mas como ser para Brasília o Outro? Assumir que nos cabe a tarefa de responder à questão da brasilidade, afirmar a diferença e nos inscrever na margem onde a psicanálise encontra a antropologia e se abre a partir do Campo Freudiano, o campo ainda inexplorado e no entanto fecundo da etnopsicanálise.

Isso se impõe precisamente por sermos nós quem somos, sermos sem ser latino-americanos. O que é no entanto ser um latino-americano? Antes de mais nada, se reconhecer numa ideia do espírito europeu que nega as diferenças.

A ideia de ser um latino-americano é triplamente incômoda. Primeiro, porque não queremos ser uma ideia do outro. Segundo e paradoxalmente, porque só nos concebemos através da Europa e não queremos ser percebidos por ela como diferentes. Terceiro e em consequência, por não querermos nos assemelhar aos outros latino-americanos.

O melhor exemplo que me ocorre da nossa dependência do espírito europeu se encontra nas sete teses de Celso Furtado sobre a cultura e a identidade, apresentadas recentemente, em Belo Horizonte, no Encontro Nacional de Política Cultural. Celso Furtado apresenta Aleijadinho como o último gênio da Idade Média, pois, diz ele, a sua mensagem, como a dos artistas medievais, atingia senhores e escravos. Ou seja, faz-nos descobrir que Aleijadinho não é daqui, já que não tivemos Idade Média. Furta-nos o artista, que, sendo grande, não pode ser nosso e neste mesmo ato valoriza o que não temos. Celso Furtado deixa de reconhecer como nosso o que é nosso, recusa o que somos pelo que não podemos ser, já que o outro não nos reconhece como idênticos. Não admira que ele se refira a uma crise de identidade.

O mal-estar que nos causa essa alienação resulta numa recusa de tudo o que é do outro, senão mesmo numa recusa do outro, que se manifesta através de descaso e onde o psicanalista pode detectar em ato o que Lacan chamava de hainamoration e cujos pressupostos já encontramos no texto de 1948, A agressividade na psicanálise.

A exemplo disso, temos Celso Furtado afirmando que a assimilação de novas técnicas pode mutilar a nossa identidade cultural, como se tudo o que temos, à exceção da cultura indígena, não resultasse da assimilação.

O outro lado da dependência é a xenofobia, pois, se assimilar é perigoso, tudo o que é produzido fora em princípio nos ameaça. O resultado é uma política da clausura. Para não correr o risco de não importar absolutamente nada, transformar logo este continente numa ilha.

Ser latino-americano é impossível e a saída é uma só, atrevermo-nos a ser (saber) o que somos, afirmar a universalidade através da diferença.

Isso o Brasil que não duvida da sua identidade faz ladinamente, seja datando do Carnaval a sua origem, com Lamartine Babo – “Quem foi que inventou o Brasil/ Foi seu Cabral… Foi seu Cabral/ No dia 21 de abril/ Dois meses depois do Carnaval” –, seja datando-as da felicidade, como Oswald de Andrade – “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade” –, ou ainda como Joãosinho Trinta. Dele ouvi que a possibilidade de carnavalizar tudo nos define, a cultura fluindo através da brincadeira, ou seja, descontextualizando a cultura, trazendo do Japão o kabuki, da China o Buda e da Índia as dançarinas para a Marquês de Sapucaí.

A cultura do brincar faz de nós ladino-americanos e assim precisamente nos confere universalidade – ela então não me permite sonhar acordado, ser criança embora adulto? realizar essas possibilidades por todos desejadas. Ali se molda a brasilidade, mas ainda a humanidade, donde, aliás, a vocação internacional da cultura do brincar. Sonhar acordado… trazer a Estátua da Liberdade para a Avenida, os Jardins Suspensos da Babilônia, ver ali os nossos índios numa sala só de espelhos, a cabrocha encarnar Maria Antonieta e a vestal rebolar como só a mulata, tudo isso na ignorância feliz do princípio da não-contradição. Ser criança… viver desculpabilizando a alegria que me toma, realizar na inocência as várias fantasias – tudo só segundo o princípio do prazer. Sonhar e ser, atualizando ademais o mito universal do Paraíso na Terra, exibindo seres inusitados da sua geografia fantástica – sereias, amazonas, cinocéfalos –, sua fauna e flora exuberantes, o ouro, a prata, o brilho e a transparência das minas de cristal.

A cultura do brincar é a do Brasil épico, que não se realiza através da literatura, mas do teatro, da grande ópera de rua que é o Carnaval das escolas de samba, onde, como na epopeia, o irreal, coteja o real e a lenda rememora a história para celebrar a descoberta imaginária do Paraíso na Terra. Ali, a realidade brasileira se reorganiza a partir do mito originário da conquista, oferecendo-se como uma realidade onírica. A epopeia nacional não se exprime pelo verbo e no ritmo só do verso, mas pela representação e no ritmo do samba. O poema épico que nos exprime é visual e musical. Precisamente por assumir esta forma, não foi reconhecido como tal. A prevalência da música encobria o sentido que, assim, não foi captado. Nisso também contou o descaso da cultura oficial pela cultura do brincar.

O ladino-americano, entretanto, sabe a sua força, reconhece os seus valores e preserva cuidadosamente o patrimônio, a memória das suas tradições. “Yes, nós temos Braguinha” é o que a Mangueira gloriosa opôs à crise para mostrar que esta não a afeta, que é bem outro o seu país, homenageando Braguinha que yes é nosso, rememorando através das alegorias os sambas de sucesso e a história de passados carnavais. A cultura satírica do brincar esquece que o velho é marginal e cultiva a criança para se renovar, ela não exclui, integra. E a sua reivindicação profunda é a da nossa diferença:

Eu fui às touradas de Madri
(…)
Eu conheci uma espanhola
natural da Catalu…unha
Caramba… caracoles…
Sou do samba não me amoles
João de Barro (Braguinha) e Alberto Ribeiro

Através do brincar e pela sua escuta, podemos afirmar como valores os que ladinamente elegemos, e a que de fato não damos ouvidos, os valores da nossa identidade; podemos talvez deixar de ser um país de sobremesa, como dizia Oswald – “café, açúcar, fumo e bananas” – e conquistar enfim a mesa para exigir então “que nos sobrem ao menos as bananas”.

Assim, fica aqui o meu voto de uma prática psicanalítica outra, bananalítica, e ainda que brasileiramente seja alegre este congresso, que, na boa companhia de Nazar, Humberto e Magno e de todos os presentes, eu também abro.

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1. Conferência proferida no II Congresso Brasileiro de Psicanálise da Causa Freudiana do Brasil, Brasília, 4-6/10/1985.