O risco de normalizar a obesidade
betty milan
Folha de S. Paulo, 2 de junho de 2026
Nem tudo se pode em nome do respeito à diferença. A exemplo disso, a normalização da obesidade. Um terço da população mundial é obesa. O problema é particularmente grave nos Estados Unidos. Segundo levantamento Behavioral Risk Factor Surveillance System de 2024, 40% dos adultos americanos estão obesos com impacto direto na saúde – risco de diabetes, hipertensão, disfunção cardíaca e câncer.
No Brasil, o número de adultos com obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde. No mesmo período, houve crescimento significativo de diabetes (135%) e hipertensão (31%). São dados expressivos da relação entre a obesidade e a doença.
Ninguém ignora que a indústria de fast food, que cresceu exponencialmente, seja responsável. No ano de 1970, os americanos gastavam US$ 6 bilhões por ano em fast food; em 2020, US$ 278 bilhões. Mas a obesidade também resulta de uma relação perversa com o corpo, que exclui a possibilidade da contenção. A única lei do desejo do perverso é o prazer, ao qual ele se entrega sem questionamento algum.
A cultura alimentar americana, mundialmente difundida, incita ao consumo, contrariamente à francesa, que valoriza o ato de degustar. A ponto de o escritor Cyrano de Bergerac imaginar um povo que se nutria apenas de sabores. A ingestão compulsiva de alimentos é contrária à cultura da França, onde comer não é sinônimo de se alimentar, implica a fantasia que a comida propicia e a conversa. Comer, para os franceses, é simultaneamente degustar, comportar-se à mesa segundo determinadas regras e trocar ideias. Trata-se de um ato que não tem só a ver com a necessidade biológica, é também espiritual.
A indústria de fast food é tão responsável pelo desacerto da cultura alimentar americana quanto a propaganda, cujo teórico foi um sobrinho de Freud, Edward Bernays, também nascido em Viena e 35 anos mais jovem do que o seu eminente tio. Bernays foi um dos maiores influenciadores do século 20. Se valeu da teoria psicanalítica – que nasceu da clínica, tendo em vista a cura – para manipular pessoas. Sumariamente, usou o conhecimento do inconsciente para fazer o contrário do que Freud fazia e foi bem-sucedido por trabalhar nos Estados Unidos, o país que mais promove o consumismo.
Bernays se baseava na ideia de que as pessoas não são guiadas pela razão, mas por pulsões inconscientes, e suas decisões podem ser determinadas pela propaganda. Valia-se da informação para acessar o inconsciente e produzir narrativas e símbolos, a fim de convencer. Uma de suas obras se chama A engenharia do consentimento.


