{"id":4536,"date":"2018-07-09T15:16:45","date_gmt":"2018-07-09T18:16:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.bettymilan.com.br\/?p=4536"},"modified":"2020-10-28T11:58:05","modified_gmt":"2020-10-28T14:58:05","slug":"o-amor-nao-e-para-todo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.bettymilan.com.br\/fr\/o-amor-nao-e-para-todo-mundo\/","title":{"rendered":"O amor n\u00e3o \u00e9 para todo mundo"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<h2 class=\"cor-1\" style=\"line-height: 1.3em;\"><em><strong>Betty Milan relanc\u0327a \u2018O que E\u0301 o Amor\u2019, livro de 83 que estava fora de cata\u0301logo, bate no machismo e lembra que o desafio da liberdade \u00e9 suportar a solida\u0303o<\/strong><\/em><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"autor\" align=\"right\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<div>\n<figure id=\"attachment_2078\" aria-describedby=\"caption-attachment-2078\" style=\"width: 267px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2078 size-full\" src=\"https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/02p-credito-Lailson-Santos.jpg\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/02p-credito-Lailson-Santos.jpg 267w, https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/02p-credito-Lailson-Santos-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/02p-credito-Lailson-Santos-60x90.jpg 60w\" sizes=\"auto, (max-width: 267px) 100vw, 267px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2078\" class=\"wp-caption-text\">A escritora e psicanalista Betty Milan (Laison Santos\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando <b>Betty Milan<\/b>\u00a0foi convidada a escrever sobre o amor, no long\u00ednquo 1983, o mundo era outro. O Brasil vivia os \u00faltimos momentos de uma ditadura militar, j\u00e1 um tanto frouxa, \u00e9 verdade, mas a mentalidade, para resgatar um termo pouco usado, era ainda muito machista.\u00a0N\u00e3o que hoje n\u00e3o o seja, mas a quest\u00e3o de g\u00eanero, na ordem do dia, vem provocando uma mudan\u00e7a social percept\u00edvel \u2013 e combust\u00edvel para debates acalorados. Se hoje \u00e9 assim, h\u00e1 35 anos n\u00e3o poderia ser diferente. Ao bater no machismo e falar sem pudores sobre como o desejo pode mudar de objeto em\u00a0<i><strong>O que \u00c9 o Amor<\/strong><\/i>(Record), livro que relan\u00e7a agora, Betty foi alvo de duras cr\u00edticas \u2013 algumas, verdadeiras pancadas, desferidas especialmente por homens. De l\u00e1 para c\u00e1, o mundo pode ter mudado, mas o amor, em sua ess\u00eancia, n\u00e3o, diz a psicanalista. Por isso, para essa que chama de a \u201cedi\u00e7\u00e3o definitiva\u201d de\u00a0<i>O que \u00c9 o Amor<\/i>, ela fez poucas altera\u00e7\u00f5es no texto original e apenas ap\u00f4s uma breve introdu\u00e7\u00e3o. O machismo, afirma, ainda precisa ser combatido. \u201cChegou a hora do \u2018diga n\u00e3o\u2019\u201d, defende Betty, para quem \u00e9 dif\u00edcil conceituar o amor, que se quer eterno, \u201cmas\u00a0tem um pavio apagador\u201d, como dira o dramaturgo Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa, o Z\u00e9 Celso. E se quer livre. Mas ser livre\u00a0\u201cimplica suportar a solid\u00e3o\u201d. O amor, definitivamente,\u00a0\u201cn\u00e3o \u00e9 para todo mundo\u201d.\u00a0Leia abaixo a entrevista de Betty Milan a VEJA\u00a0:<\/p>\n<p><b>Na introdu\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o definitiva de\u00a0<i>O que \u00c9 o Amor<\/i>, de 1983, voc\u00ea diz que \u201co vento libert\u00e1rio de Maio de 68 ainda soprava nos anos 80\u201d. Esse vento sopra hoje ou est\u00e1 mais para brisa?\u00a0<\/b>O vento libert\u00e1rio n\u00e3o deixou de soprar. N\u00e3o tem volta. O problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o sabem o que fazer com a liberdade. Liberdade pressup\u00f5e a possibilidade de dizer n\u00e3o, ou seja, de escolher e de impor limites. N\u00f3s n\u00e3o somos educados para ser livres, s\u00f3 para obedecer. Por isso, a transgress\u00e3o \u00e9 t\u00e3o valorizada e o ass\u00e9dio \u00e9 t\u00e3o frequente. S\u00f3 os homens livres podem aceitar a liberdade feminina e s\u00f3 eles s\u00e3o capazes de amor. O verdadeiro amor sempre foi uma joia rara. Requer a generosidade e suporta a espera. Um bom exemplo disso est\u00e1 na\u00a0<i>Odisseia<\/i>. Pen\u00e9lope espera Ulisses, durante toda a err\u00e2ncia dele, espera castamente.<\/p>\n<p><b>No livro, a senhora afirma que o sexo \u00e9 \u201cuma forma de interditar o amor, fazer de n\u00f3s puritanos ao contr\u00e1rio\u201d. O amor ou a forma como amamos mudou? Hoje valorizamos mais o sexo?\u00a0<\/b>O amor implica compromisso. O sexo, n\u00e3o. Como diz a Rita Lee, o amor \u00e9 um livro, sexo \u00e9 esporte. N\u00f3s, hoje, somos mais imediatistas e consumistas do que nunca, mais propensos a valorizar o sexo independentemente do amor. Para o gozo sexual, \u00e9 poss\u00edvel ter mais de um parceiro. J\u00e1 no amor, \u00e9 diferente. O amado \u00e9 um ser \u00fanico, ele \u00e9 um outro que n\u00e3o \u00e9 inteiramente outro, no qual eu me espelho. O puritanismo, ao contr\u00e1rio, faz frente \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de transar, que surgiu com a revolu\u00e7\u00e3o sexual dos anos 1960. O puritanismo interdita o sexo. O contr\u00e1rio da interdi\u00e7\u00e3o \u00e9 a obriga\u00e7\u00e3o. O dif\u00edcil mesmo \u00e9 ser livre. Isso implica suportar a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Na Fran\u00e7a, ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos, sempre houve uma grande liberdade sexual. Trata-se de um ind\u00edcio de civilidade<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O amor \u00e9 indissoci\u00e1vel do sexo?\u00a0<\/b>O sexo entre os que se amam verdadeiramente \u00e9 a maior fonte de contentamento. Freud diz isso e n\u00e3o h\u00e1 como discordar. Agora, o amor plat\u00f4nico existe e o sexo pode ser contr\u00e1rio a ele. Conto no meu livro a hist\u00f3ria de Baudelaire, que tem uma concubina, chamada Jeanne, mulata viciada no \u00e1lcool e nas drogas, \u201cum inferno\u201d. A mulher que ele cultua se chama Apollonie, uma loura amiga das letras e das artes. Sem revelar a sua identidade, Baudelaire envia poemas e bilhetes para Apollonie. Ele a trata de mui bela, mui boa e mui cara, Anjo da guarda, Musa e Madonna, celebra o amor ideal, desinteressado e respeitoso. Durante cinco anos, tudo se passa anonimamente. At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>As Flores do Mal<\/i>, um livro de sucesso e provocador de esc\u00e2ndalo. No livro, est\u00e3o os poemas que Baudelaire enviou para Apollonie, que ent\u00e3o se entrega a ele. A decep\u00e7\u00e3o do poeta \u00e9 completa \u2014 \u201cH\u00e1 alguns dias\u201d, escreve ele, \u201cvoc\u00ea era uma divindade, o que era c\u00f4modo, belo, t\u00e3o inviol\u00e1vel\u2026 agora, voc\u00ea \u00e9 mulher\u201d. Apollonie, a mulher idolatrada, era uma \u201ccarne espiritual\u201d e n\u00e3o, como Jeanne, feita para o gozo desta terra.<\/p>\n<section><\/section>\n<\/div>\n<p><b>E o \u00f3dio, anda mesmo junto com o amor?\u00a0<\/b>O amor pode virar \u00f3dio. A substitui\u00e7\u00e3o do amor pelo \u00f3dio \u00e9 comum, como se o \u00f3dio fosse a cara-metade do amor. Isso acontece porque o amado \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do ser do amante, que n\u00e3o suporta a separa\u00e7\u00e3o. Se o outro \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do meu ser, se para existir eu dependo dele, \u00e9 \u00f3bvio que, se o outro n\u00e3o me quiser, eu tendo a passar do amor ao \u00f3dio. O amante n\u00e3o suporta a recusa e, por isso, o crime passional, como em Shakespeare. Quando Otelo se convence, erradamente, de que Desd\u00eamona o trai, ele diz: \u201cVou mat\u00e1-la\u2026 Maldita seja ela a partir de agora. Que apodre\u00e7a. Que desapare\u00e7a. Desd\u00eamona n\u00e3o viver\u00e1. Meu cora\u00e7\u00e3o virou pedra. Bato nele e ele machuca minha m\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"titulo\">Liberdade pressup\u00f5e a possibilidade de dizer n\u00e3o, ou seja, de escolher. (\u2026) O dif\u00edcil mesmo \u00e9 ser livre. Isso implica suportar a solid\u00e3o<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-4511\" src=\"https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Capa_O_que_eh_o_amor_Record_2018_web.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"648\" srcset=\"https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Capa_O_que_eh_o_amor_Record_2018_web.jpg 617w, https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Capa_O_que_eh_o_amor_Record_2018_web-185x300.jpg 185w, https:\/\/www.bettymilan.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Capa_O_que_eh_o_amor_Record_2018_web-56x90.jpg 56w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>Como a senhora teve o insight de distinguir a paix\u00e3o do amor da paix\u00e3o do brincar, que seria tipicamente brasileira?\u00a0<\/b>Foi de fato um insight que eu tive por ser interlocutora do carnavalesco Jo\u00e3ozinho Trinta. Ele dizia que a verdadeira cultura do Brasil \u00e9 a cultura que flui atrav\u00e9s do brincar. Cada cultura tem a sua caracter\u00edstica. Na Fran\u00e7a, o que prevalece \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de direito,\u00a0<i>le droit<\/i>. A crian\u00e7a cresce ouvindo \u201ctu as le droit\u201d (\u201cvoc\u00ea tem o direito\u201d), \u201ctu n\u2019as pas le droit\u201d (\u201cvoc\u00ea n\u00e3o tem o direito\u201d). Na Espanha, o que conta \u00e9 a honra,\u00a0<i>el honor<\/i>. Os ingleses valorizam sobretudo o humor,\u00a0<i>the humor<\/i>. N\u00f3s temos o brincar, que \u00e9 um valor civilizat\u00f3rio e nada tem a ver com o sacanear, que \u00e9 o uso da lei para lesar o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><b>Como o brasileiro desenvolveu essa rela\u00e7\u00e3o particular com o amor?\u00a0<\/b>Fui encontrar Gilberto Freyre no Recife para saber qual a origem da cultura do brincar. Me permito citar o que ele me disse e foi publicado no meu livro\u00a0<i>A For\u00e7a da Palavra<\/i>. \u201cO brincar veio sobretudo do negro, que \u00e9 um extrovertido\u2026 O negro \u00e9, mais do que o euro-portugu\u00eas, mais do que o amer\u00edndio de origem asi\u00e1tica e n\u00e3o tropical, o verdadeiro filho do tr\u00f3pico\u2026 De modo que, no Brasil, ele n\u00e3o veio para um meio estranho, veio para um meio ao qual estava predisposto\u2026 O negro transpira pelo corpo inteiro. Transpirando pelo corpo inteiro, ele \u00e9 extrovertidamente feliz no seu modo de respirar o tr\u00f3pico.\u201d Para saber mais, seria necess\u00e1rio fazer uma pesquisa. O fato \u00e9 que o nosso her\u00f3i, Macuna\u00edma, brincava que mais brincava com a sua amada Ci\u2026<\/p>\n<p><b>H\u00e1 quem diga que a paix\u00e3o precede o amor. Eles s\u00e3o, de fato, coisas distintas? Como defini-las e entender a rela\u00e7\u00e3o entre elas?\u00a0<\/b>O amor \u00e9, na verdade, uma das tr\u00eas paix\u00f5es humanas. As outras duas s\u00e3o a paix\u00e3o do \u00f3dio e a da ignor\u00e2ncia. As pessoas separam a paix\u00e3o e o amor, considerando que a paix\u00e3o \u00e9<i>\u00a0vapt vupt<\/i>, passageira, enquanto o amor \u00e9 duradouro. O amor se quer eterno. Os que se amam verdadeiramente s\u00e3o almas g\u00eameas. N\u00e3o concebem o afastamento, preferem at\u00e9 morrer a se separar. A hist\u00f3ria de Romeu e Julieta, a grande pe\u00e7a de Shakespeare sobre o amor. Imaginando que Julieta est\u00e1 morta, Romeu toma um veneno e morre. Julieta, que n\u00e3o estava morta, se suicida com o punhal dele. \u00c9 isso. H\u00e1 muitos exemplos. Um deles \u00e9 o de Mariana Alcoforado, personagem de\u00a0<i>As Cartas da Religiosa Portuguesa<\/i>, que prefere morrer a ficar sem o amado.<\/p>\n<p><b>A diferen\u00e7a entre o amor e a paix\u00e3o pode em alguma medida explicar a grande troca de parceiros hoje?\u00a0<\/b>A troca de parceiros tem a ver com a libera\u00e7\u00e3o sexual e a desvaloriza\u00e7\u00e3o do sentimento amoroso. Os trovadores que n\u00f3s temos hoje no Brasil s\u00e3o os m\u00fasicos e o maior deles \u00e9 Roberto Carlos. Ele n\u00e3o \u00e9 o \u201crei\u201d por acaso. Roberto ama o amor como ningu\u00e9m e a sua amada para todo o sempre, canta com essa for\u00e7a na alma. Contrariando a atualidade, ele diz em alto e bom som que \u201co amor \u00e9 importante\u201d, \u201clevanta as \u00e1guas do oceano\u201d, que \u201cnem o c\u00e9u, nem as estrelas, nem mesmo o mar ou infinito \u00e9 mais bonito\u201d.<\/p>\n<p><b>A monogamia \u00e9 uma amea\u00e7a ao amor?\u00a0<\/b>N\u00e3o \u00e9. O amor n\u00e3o \u00e9 para todo mundo.<\/p>\n<p><b>O casamento ainda faz sentido em um momento em que a sociedade experimenta outras formas de rela\u00e7\u00e3o, como o poliamor?\u00a0<\/b>O ser amado \u00e9 \u00fanico, embora ele n\u00e3o seja eterno. O amor se quer eterno, mas, como diz Z\u00e9 Celso, ele tem \u201cum pavio apagador\u201d. O amado \u00e9 unico porque ele \u00e9 o outro que n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente outro, eu me vejo nele, me reconhe\u00e7o. Agora, se poliamor significa polissexo, existe deste sempre. No s\u00e9culo XVIII, os libertinos franceses se entregavam ao sexo livremente\u00a0 e disso resultou uma grande literatura\u00a0 er\u00f3tica.\u00a0 O Museu Picasso de Paris, constru\u00eddo no s\u00e9culo XVIII, era a resid\u00eancia de um conselheiro do rei que a construiu para alojar a pr\u00f3pria fam\u00edlia e\u00a0 o amante da sua esposa com toda a\u00a0 familia deste. Na Fran\u00e7a, ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos, sempre houve uma grande liberdade sexual. Trata-se de um ind\u00edcio de civilidade.<\/p>\n<p><b>O amor \u00e9 narc\u00edsico. Isso significa que sempre amamos a n\u00f3s mesmos?<\/b>\u00a0O amor quer que o amante e o amado sejam id\u00eanticos. Se o outro n\u00e3o se assemelhasse a mim, se eu nele n\u00e3o reconhecesse a minha imagem, n\u00e3o o amaria. Da\u00ed o poema de Carlos Drummond de Andrade: \u201cOs amantes se amam cruelmente\/ e com se amarem tanto n\u00e3o se veem\/ Um se beija no\u00a0outro, refletido\/ Dois amantes que s\u00e3o? Dois inimigos\u201d. O amor \u00e9 sempre narc\u00edsico, o amado \u00e9 um outro que n\u00e3o \u00e9 inteiramente outro. Mas o amor n\u00e3o \u00e9 sempre cruel, e os amantes n\u00e3o s\u00e3o necessariamente inimigos.<\/p>\n<p><b>\u00c9 poss\u00edvel explicar como e por que o amor surge?\u00a0<\/b>Escrevi\u00a0<i>O que \u00e9 o Amor<\/i>\u00a0h\u00e1 trinta e cinco anos. Era uma escritora de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, uma escritora que n\u00e3o pensou nas rea\u00e7\u00f5es poss\u00edveis do seu meio social, bem mais machista na \u00e9poca. O livro foi extremamente pol\u00eamico e at\u00e9 de nazista eu fui chamada. Nesse intervalo, por\u00e9m, n\u00e3o surgiu uma teoria psicanal\u00edtica nova sobre o amor. Por isso, mantive no livro a ideia de que o amor \u00e9 um enigma que n\u00e3o temos como decifrar. Da\u00ed a pergunta de Fernando Pessoa no\u00a0<i>Livro do Desassossego<\/i>: \u201cAnjo, de que mat\u00e9ria \u00e9 feita a tua mat\u00e9ria alada?\u201d. O amor \u00e9 um ser alado sem o qual n\u00f3s n\u00e3o viver\u00edamos, ele suspende a realidade e n\u00f3s precisamos disso. Me refiro ao amor comum dos mortais, e n\u00e3o ao dos mestres budistas, que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de suportar o inferno que \u00e9 o mundo.<\/p>\n<p><b>Alguns psicanalistas questionam hoje o Complexo de \u00c9dipo, por ter se espelhado em uma sociedade diferente da atual. Ele ainda serve para explicar por que escolhemos determinado tipo de parceiro?\u00a0<\/b>O Complexo de \u00c9dipo \u00e9 um dos mitos extraordin\u00e1rios da psican\u00e1lise. Antes de Freud, os doentes mentais eram isolados nos sanat\u00f3rios. Freud recorreu \u00e0 trag\u00e9dia grega para explicar a doen\u00e7a mental e, com isso, humanizou os doentes. Mas n\u00e3o h\u00e1 como explicar por que a gente escolhe um determinado parceiro e n\u00e3o outro\u00a0<i>(se traz caracter\u00edsticas do pai e da m\u00e3e, por exemplo)<\/i>. Podemos fazer hip\u00f3teses. S\u00e3o muitos fatores e nenhum deles por si s\u00f3 explica a escolha.<b>O que determina a dura\u00e7\u00e3o do amor?<\/b>\u00a0Cada caso \u00e9 diferente do outro e precisa ser considerado na sua singularidade.<\/p>\n<p><b>Ainda pensa que \u00e9 imposs\u00edvel dizer o amor no portugu\u00eas?\u00a0<\/b>Na \u00e9poca em que eu escrevi isso, eu me referia ao portugu\u00eas do Brasil. Os portugueses cantam o amor desde sempre. A l\u00edrica camoniana \u00e9 um verdadeiro assombro. Agora, tanto n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel dizer o amor no portugu\u00eas do Brasil que eu disse e agora adaptei o livro para uma vers\u00e3o audiovisual. Os textos foram filmados e ditos lindamente pelo ator Ricardo Bittencourt para figurarem no Youtube.<\/p>\n<p><b>O amor \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o cultural?\u00a0<\/b>O amor surge, no s\u00e9culo XII, com o trovador e o amor cort\u00eas. Segundo o c\u00f3digo do amor cort\u00eas, o trovador devia expressar seus elogios e s\u00faplicas a uma mulher da nobreza, casada, que tivesse uma posi\u00e7\u00e3o social reconhecida. O amor cort\u00eas \u00e9 um marco na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, porque ele enaltece a mulher. Quem melhor falou sobre isso, na minha opini\u00e3o, foi Octavio Paz, no \u00faltimo livro que escreveu,\u00a0<i>A Dupla Chama<\/i>.<\/p>\n<p><b>Seu livro centra fogo no machismo. Em que medida a \u00e9tica machista \u00e9 contr\u00e1ria ao sentimento amoroso?\u00a0<\/b>N\u00e3o pode haver amor sem o reconhecimento do desejo do outro. Macho que \u00e9 macho n\u00e3o reconhece nenhum desejo que n\u00e3o seja o seu. O machismo \u00e9 uma \u00e9tica infeliz e assassina como na\u00a0<i>Trag\u00e9dia Brasileira<\/i>, o poema de Manuel Bandeira. Misael, funcion\u00e1rio, conhece Maria Elvira, a tira da vida, instala e trata. Ela arranja namorado. Ele, para evitar esc\u00e2ndalo, muda de bairro, muda dezessete vezes \u2014 at\u00e9 um dia mat\u00e1-la a tiros. Misael, indubitavelmente, fez de tudo para escapar ao imperativo machista, mas n\u00e3o teve como, e o fato \u00e9 que Maria Elvira acabou assassinada, pagou o pre\u00e7o m\u00e1ximo. Necess\u00e1rio que o machismo seja desqualificado sistematicamente. Chegou a hora do \u201cdiga n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b><span lang=\"FR\">O amor n\u00e3o \u00e9 para todo mundo<\/span><\/b><br \/>\nsobre: O que \u00e9 o amor<br \/>\nVeja.com<br \/>\n4 de julho de 2018<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Betty Milan relanc\u0327a \u2018O que E\u0301 o Amor\u2019, livro de 83 que estava fora de cata\u0301logo, bate no machismo e lembra que o desafio da liberdade \u00e9 suportar a solida\u0303o &nbsp; \u00a0 &nbsp; Quando Betty Milan\u00a0foi convidada a escrever sobre o amor, no long\u00ednquo 1983, o mundo era outro. 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