Sexo e escrita

Sexo e escrita

 

A questão é de fato pertinente? Existiria na escrita uma marca do sexo? no nível formal? do conteúdo? (1)Diz-se que sim. Hélène Cixous, por exemplo, que além de ser uma grande escritora é uma crítica reconhecida, afirma que existe uma economia libidinal masculina e outra feminina passíveis de serem diferenciadas no nível do texto, tanto na forma quanto no conteúdo. Assim, ela opõe uma economia libidinal que produz o romance – algo de construído, organizado, que tem começo, meio e fim – a outra economia libidinal cujos textos não são passíveis de ser enquadrados – estão sempre em aberto, transbordam para fora da moldura e recomeçam incessantemente.

A primeira economia libidinal seria de tipo masculino, a segunda, de tipo feminino. Exemplo desta para Cixous seriaÁgua viva, de Clarice Lispector, um texto em que não há limite, moldura, que não começa e não termina, é constituído de inúmeros começos, é uma enorme corrente de água, é, por assim dizer, uma água viva e assim pede uma leitura inteiramente outra. Mas exemplo desta mesma economia libidinal de tipo feminino, e segundo a própria Hélène Cixous, são também os românticos alemães, sobretudo Kleist.

O que quer isso dizer? Que a economia libidinal masculina e a economia libidinal feminina não se referem à economia libidinal do homem e à economia libidinal da mulher, mas que tanto o homem quanto a mulher podem produzir textos de tipo masculino ou de tipo feminino, que há textos produzidos por homens nos quais a feminilidade existe e textos produzidos por mulheres onde o feminino não existe absolutamente. Ou seja, não basta ser mulher para produzir o feminino. E esta é, aliás, a questão central do feminismo hoje. Sempre que para ele se trata de enquadrar, nós, mulheres, não temos como nos reconhecer nesse feminismo. Não é disso, entretanto, que eu hoje queria falar, e sim da questão do sexo e da escrita. Assim, retomando o fio da meada, eu diria que, no nível formal, não há como distinguir a produção dos homens e a das mulheres, mas que, no nível temático, ela é evidente.

Vejamos isso através de um dos textos mais significativos da filosofia ocidental, O banquete, de Platão, o grande diálogo sobre o amor. Nele, após os discursos de Pausânias, Erixímaco e Aristófanes, intervém Diotima. E o que é que ela diz que os seus antecessores, os homens, não dizem? “A atividade que melhor expressa o amor é a procriação.”

Por mais estranha que essa afirmação nos pareça hoje, vale a pena nos determos nela. O que é o amor senão o desejo que dois têm de ser Um? Desejo impossível, dizia Lacan, porque há dois sujeitos, senão dois sexos. Impossível, salvo na gestante, este ser Um onde há dois. Ou seja, a gestante, imagem da procriação, é a que melhor expressa o amor. Mas o que significa o desejo impossível de ser Um, senão o de suprimir toda diferença entre os amantes, o de encontrar a semelhança? O amor visa a semelhança e se realiza através dela. Ora, este ser que se assemelha a mim só acidentalmente eu o encontro na vida, mas ele é o próprio fruto da procriação – o filho é a cara do pai e por isso merece ser chamado um amor. Assim, pela gestante e pelo que resulta da procriação, o filho – este que de todos mais se assemelha a mim –, a procriação é a atividade humana que melhor expressa o amor. Mais ainda porque o amor se quer incondicional, e quem, senão a gestante, autoriza incondicionalmente o outro a existir, deixando que ele se faça sem nem mesmo saber quem ele é? correndo os riscos todos da geração, arriscando inclusive a própria vida? Diotima, ou a estrangeira, como a denominava Sócrates, estava certa, ela sabia do sentido da procriação, tema que se escreveu através de Platão, mas foi por ela introduzido.

Assim, o sexo se diz através da escrita e, se os verdadeiros temas da feminilidade estão para ser produzidos, é que nós somos surdos para eles, é que não há uma escuta voltada para o que as mulheres dizem, é que a elas se impôs o silêncio e o reconhecimento de si mesmas nas representações em que a fala é de todo desnecessária. O que é a Madona, por exemplo, senão a imagem mesma da completude? daquela a quem nada falta e, portanto, nada tem a dizer? nada espera do outro e, na sua infinita pureza, se realiza como um anjo, portanto, assexuadamente. E o que é aplay-mate senão um corpo à espera do outro para o realizar? Nos dois casos, a apologia do corpo para cassar a palavra.

Mas qual é a implicação maior de tudo o que antecede? A emancipação da mulher passa necessariamente pela sua sexuação. Não queremos nem o sexo dos anjos nem podemos nos reconhecer no sexo imposto à play-mate, o sexo do corpo a serviço do falo, de um gozo sujeito ao orgasmo, alheio à diferença entre o masculino e o feminino. Contra a falocracia, queremos a diferocracia, o governo da diferença para, através dela, reencontrarmos a nossa especificidade.

A sexuação da mulher é a experiência de si mesma como sujeito, e, por isso, a prática freudiana é para nós uma referência decisiva, desde que a ela possamos incorporar o saber que resulta da escuta das mulheres, daquilo que, tendo sido dito, não foi ouvido, de uma experiência outra do tempo, contrária ao tempo do puro utilitarismo social, capaz de valorizar o trabalho da paciência, esse trabalho da pró-criação esse “não-fazer-nada” a propósito do qual Clarice Lispector dizia que se trata de uma grande ocupação.

Dizer isso é afirmar que é necessário sexualizar a procriação. Dela, o cristianismo excluiu o homem. Não foi através do Espírito Santo que a Virgem Maria concebeu? O primeiro feminismo, o dos primórdios, na sua necessidade de superar a identidade mãe-mulher, excluiu a mãe, que se tornou um ser assexuado, vivendo a sua experiência ou no nível puramente biológico ou através das representações medievais e clássicas, onde as suas fantasias só foram e são silenciadas.

Em outras palavras, na ausência do discurso da gestante – desse discurso a ser proferido para de novo dar sentido à procriação –, o discurso feminino se enfraquece.

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1. Primeiro Festival Nacional de Mulheres nas Artes, MASP, São Paulo, setembro, 1982.