Identidade e imigração – SP 450

São Paulo, O Colóquio

 

São Paulo-Paris. Foi nesse eixo que eu me formei, porque sou de uma geração de São Paulo que teve uma relação viva com a cultura francesa e um convívio privilegiado com os seus mestres, Gérard Lebrun, Michel Foucault, Michel Serres… Nós aqui sonhávamos com o que vinha de lá. A tal ponto que eu só me interessei pela cultura brasileira na década de 80. Depois de ter passado por uma análise com Lacan, que me levou a focalizar o Brasil, deixar de ser uma apátrida – por ignorar a cultura popular, que nós pouco estudávamos, e por rejeitar a cultura do imigrante, que não era um bom tema (1).

Isso surpreendeu Lacan que, ao me receber, disse: “– Uma grande largada. De um para outro continente. Como se você fosse descobrir a América”.

Com efeito, é preciso se afastar do porto para voltar a ele, e eu não parei de me exercitar nesse retorno até chegar a São Paulo. À minha São Paulo, que é a do neto do imigrante. Hoje, posso dizer isso em alto e bom tom. Na infância, eu evitava contar que os meus ancestrais eram libaneses. Para não ser chamada de “turca” – não ser vítima da xenofobia dos nativos. Quanto aos ancestrais, eles se recusavam a me ensinar o árabe, por considerar que essa língua estrangeira de nada servia, antes atrapalhava a integração no país. Nenhum deles tinha lido Claude Hagège e tampouco ouvido falar no Collège de France.

Os tempos são outros, mas vale a pena – para fazer a prevenção da xenofobia – refletir sobre a relação do imigrante com o seu país de origem e com o país de chegada, sobre a sua identidade e o ensinamento que ela implica.

O imigrante tem com o país de onde se origina uma relação idealizada, porque se trata do perdido país. Então, por melhor que o país de chegada seja, este nunca é inteiramente satisfatório. A mudança de língua conta e muito nessa insatisfação. Marguerite Yourcenar, que se exilou nos Estados Unidos para escapar aos imperativos da moda literária parisiense, dizia que nada era mais prazeroso do que ir a um bar e conversar com os amigos na língua natal.

Se o país de origem é idealizado pelo imigrante, o país de chegada é simultaneamente amado e odiado. Amado pela liberdade e pelas oportunidades que propicia, odiado porque força a mudar. Não tenho como me esquecer da minha avó imigrante queixando-se do Brasil, porque ela aqui não encontrava pêra nem maçã. “Só manga, abacaxi”, a avó dizia.

O deslocamento requer a adaptação, obriga a romper hábitos e basta isso para considerar que a cultura do imigrante é do maior interesse. Quem passa de um para outro continente aprende a contar com o próprio talento e a reinventar sua existência.

O imigrante é aquele que partiu, tem a experiência da viagem. Trata-se de um estrangeiro que é obrigado a se formar com os nativos e também pode formá-los. Não foi por acaso que Montaigne incitava os jovens a viajar e Michel Serres afirmou que não existe educação sem o “Levanta-te e vai”.

Comemorar os 450 anos com um colóquio sobre São Paulo e Paris é uma forma de fazer o elogio da viagem, do encontro e de uma antiga tradição – a tradição paulista de gostar de Paris. Como tão bem diz Oswald no poema Contrabando:

Os alfandegários de Santos
Examinaram minhas malas
Minhas roupas
Mas se esqueceram de ver
Que eu trazia no coração
Uma saudade feliz
De Paris

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1. Depoimento feito no SESC-SP, por ocasião do Colóquio sobre os 450 Anos de São Paulo, janeiro, 2004.