Palmeiras, papagaios e brincares

Palmeiras, papagaios e brincares

 

O corpo… O corpo de quem? o daquele que pega o touro à unha se não toca castanhola? o daquele que o samba rejeita perguntando: “Que passo é esse Adolfo/ Que dói a sola do pé?” (João de Barro e Alberto Ribeiro). Ou o corpo que ginga como a palmeira singra com o vento? indo sem ir, como para dizer que só vai de brincadeira, gosta mesmo é de brincar?

De que corpo falar, ou melhor, que corpo me fala de mim? da diferença? Não é certamente o que a tourada programa, nem a dança espanhola, menos ainda a guerra, que só de longe visualizamos. Tampouco será o corpo sexológico, programado pelo orgasmo, sujeito ao imperativo ou ao terrorismo do erigir-ejacular.

Será antes o corpo macunaímico, cujo gozo é o de se repetir no gozo e só saber dizer mais e ainda; o corpo avesso a todo e qualquer programa. Ci, a heroína de Mario de Andrade, queria que mais queria e o herói, para não desmentir a fama, brincava. Ci queria mesmo nos dias de “pajuari bebido”, e o herói brincava, parava entretanto no meio. O orgasmo? Ora… ai que preguiça! Ci valia-se do estratagema sublime “buscava uma urtiga e sapecava uma coça coçadeira no chuí do herói e no nalachitchi dela” – o herói então brincava que mais brincava.

Macunaíma brinca e também Gabriela, a do cravo e canela. “Seus pés reclamavam, queriam dançar. Resistir não podia, brinquedo de roda, adorava brincar”, escreve Jorge Amado.

Os nossos heróis brincam – e por isso são nossos heróis. Se os amamos, é pela paixão que temos do brincar, e a ela nos entregamos, transando, dançando ou desfilando no Carnaval.

Que corpo é esse que no entanto brinca? corpo despreocupado, no ritmo de uma batucada, ativa-se exacerbando a sensualidade para fazer do sexo antes uma brincadeira. O corpo do brincar é objeto exclusivo do prazer. Se alguma tradição coreográfica o instrumentaliza, a exemplo da dança dos passistas, é só para exacerbar o prazer de olhar. A palavra de ordem do passista é “não vem que tem” ou “você fica aí só me olhando e eu faço que vou/ mas não vou, só faço você querer me olhar, querer tocar, querer talvez…” A transa é precisamente adiar o fim, cada um desejando que o outro o deseje ou só desejando desejar, o gozo é o de querer mais e ainda gozar. O erotismo ali é máximo, porque querer equivale a se satisfazer.

Isso só produz seres insaciáveis, pois nenhum quer se saciar, ninguém precisa disso para gozar. A sexualidade ali desconhece a performance e não se deixa legislar; fazendo menção de si através das várias partes do corpo, ela tampouco se deixa localizar. A interdição de mostrar ou de olhar inexiste, o que noutro contexto é pecado ou censurado é ali bem-vindo e até mesmo bem-aventurado: me mostra, te mostra, te mostra e me olha. O que seria exibicionismo ou voyeurismo é uma das formas que assume a brincadeira. A ideia de perversão é inteiramente alheia ao universo do brincar, pois ele desconhece a prescrição puritana que governa a sexualidade moderna, cujo imperativo é o orgasmo.

O corpo do brincar, na verdade, não é insaciável, pois ele desconhece a própria ideia de saciedade. Isso, obviamente, remete à forma do gozo feminino, que evoca a música oriental, obsessiva, louca na sua monotonia, remete, outrossim, à diferença sexual que o nosso brincar não escamoteia. Assim, o travesti carnavalesco faz a sátira da diferença e não a nega à maneira de Roberta Close. O que faz a Sra. Close? Dissimula o sexo masculino e exalta a feminilidade até à caricatura, ou seja, enclausura o próprio sexo e nega que exista uma diferença sexual. O travesti brasileiro se vale do masculino para ridicularizar o feminino – o rapaz mais peludo vestido de biquíni ou melindrosa, o barbudo posando de odalisca. Numa brincadeira aparentemente misógina, realiza o desejo de ser mulher sendo homem, supera as interdições impostas pela masculinidade; o travesti carnavalesco recupera os ombros e descobre-lhes a ginga, a possibilidade de desancar e desbundar, saber do exibicionismo e do recato, ter graça ou ser gabola.

O corpo do brincar é incansavelmente diferente de si mesmo, pode ser isto e aquilo, pode variar. Em tudo e por tudo é avesso ao corpo que a sexologia promove, reduzindo o sexo à genitalidade e à promessa de duas ou três posturas, que a pornografia explora repetitivamente.

Isso, em outras palavras, acaso não significa que no país dos papagaios – terra degli papagá, como se dizia na época do Descobrimento –, nós hoje já bem poderíamos deixar de imitar? importar de fora modelos para transar aqui como se transa lá? não significa rejeitar o suplício de já não brincar como brincamos, amar como amamos para sermos idênticos a todos os outros, particularmente os outros americanos?

Quem tiver ouvidos para escutar saberá que, brincando, nós também realizamos a nossa liberdade. Daí o samba celebrizado por Francisco Alves, que diz: “Com pandeiro ou sem pandeiro/ Ê, ê, ê, ê, eu brinco/ Com dinheiro ou sem dinheiro/ Ê, ê, ê, ê, eu brinco” (Pedro Caetano/Claudionor Cruz, 1943). Isso, obviamente, não significa que não sejamos sérios, mas implica não sermos sisudos e nos prevalecermos da sátira para fazer o que talvez exista de maior nessa cultura, o Carnaval; maior porque afirma e reafirma a diferença, nos cria e recria como brasileiros, integrando nesse mesmo ato todas as outras nações.

O corpo, nós queremos à nossa moda, segundo a nossa tradição, que, podendo reprimir, sabe inocentar o sexo, ver no corpo o que o português (Pero Vaz de Caminha) via no índio: “(…) vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha (…)” ou “(…) vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia aí nenhuma vergonha (…)”.

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Sem referências.