Os bastidores do Carnaval

Os bastidores do Carnaval

 

Mas o que é o brincar? Se eu o definisse, o brincar já não seria, ele é como a verdade, que não se diz nunca toda; ele implica o não-saber e só posso falar dele através de uma ignorância douta. Não seria preciso dizer mais para mostrar que é da posição do analista que o brincar pode se tornar objeto do discurso (1).

O não-saber decorre do fato de que o programa, senão a programação, e o brincar são exclusivos. Macunaíma para sem nenhum escrúpulo no meio da transa – meio para os outros, não para ele, cuja única meta é o brincar. O carnavalesco também não sabe o que ocorrerá consigo e é precisamente este não-saber que faz da festa uma aventura, uma viagem; ele, como a criança, faz de tudo objeto de brincadeira. O ônibus poderá se transformar no cenário de um baile de Carnaval. A rua não é o lugar da passagem, mas da brincanagem. A ignorância macunaímica do que vai acontecer caracteriza a cultura do brincar. O melhor da festa é esperar por ela, diz o adágio popular, e não saber é uma forma de esperar pela festa e de perpetuá-la.

A única meta de quem brinca é brincar e isso determina o modo de viver o corpo. O brincar é perfeitamente indiferente ao corpo biológico. Brincam criança, velho, gordo, magro, gigante, anão, brinca o aleijão. O Carnaval até faz do defeito uma qualidade, se vale deste para driblar o medo; faz desfilar pelas ruas seres anômalos, irmãos siameses, paraplégicos, vítimas da elefantíase, superando assim o horror através do humor.

O brincar é indiferente ao corpo fisiológico, porque desconhece as suas urgências. Alguém então para de brincar porque é hora de comer… de dormir? Nunca, Carnaval não tem hora, embora tenha duração. Toda hora é hora de brincar.

Quanto ao corpo sexológico, destinado a satisfazer o imperativo erigir-ejacular, o brincar o ignora – para ele, o orgasmo não é palavra de ordem, é palavra vazia. No ritmo da batucada, o brincar se realiza despreocupadamente, exacerbando a sensualidade, perpetuando-se sempre que o sexo entra em cena, através de uma simulação que faz do sexo antes uma brincadeira, cuja palavra de ordem é não vem que tem. Isso é evidente no desfile das escolas, no número dos passistas: ela, o corpo inclinado para trás e o púbis para cima, ginga oferecida; ele, um joelho no chão e outro metido entre as pernas dela, toca pandeiro, celebra a ginga, exalta a mulher, mas não a toca. Se nos bailes carnavalescos a mão-boba atravessa o salão, o que se exibe ali são os prolegômenos, o gozo é o de fazer um fim dos vários começos e se repetir nisso, transar esquecido de qualquer programa, macunaimicamente, simplesmente brincar, e se o passa-passa leva às vias de fato… ora, foi um acidente.

O corpo do brincar é o da pulsão, cujo fim é a volta em circuito em torno do objeto; em outras palavras, a cultura do brincar faz do corpo objeto exclusivo do prazer. Se alguma tradição coreográfica instrumentaliza o corpo, a exemplo da dança dos passistas, é só para exacerbar o prazer de olhar. A palavra de ordem do passista é “não vem que tem” ou “você fica aí só me olhando, e eu faço que vou/dou mas não vou, só faço você querer olhar, querer tocar, querer talvez me amar…”. O jogo é precisamente de adiar o fim, cada um só deseja que o outro o deseje ou só deseja desejar, e o gozo é o de querer mais e ainda gozar. O erotismo ali é máximo, porque querer equivale a satisfazer, porque está suspenso o tempo cronológico (passado, presente e futuro), bem como o tempo da eficácia (começo, meio e fim).

A cultura erótica do brincar só produz seres insaciáveis, porque nenhum deles quer se saciar, ninguém precisa disso para gozar. A sexualidade desconhece toda performance e não se deixa legislar; fazendo menção de si através das várias partes do corpo, ela não se deixa localizar. A interdição de mostrar ou de olhar inexiste, o que noutro contexto é pecado ou censurado é aqui bem-vindo e até mesmo bem-aventurado: me mostra, me mostra, te mostra, te mostra e me olha. O que seria exibicionismo ou voyeurismo é uma das formas que assume a brincadeira. A ideia de perversão é inteiramente alheia ao universo do brincar, pois ele desconhece a prescrição que governa a sexualidade cotidiana. Aqui, o imperativo é o orgasmo, só para chegar a este o sujeito deve se expor – será dito perverso se contrariar o imperativo, fizer do prazer de se expor a lei do seu desejo. Se no cotidiano a regra é erigir e ejacular, no Carnaval é antes erigir para não ejacular, ele faz por assim dizer a apologia do meio, dionisiacamente elege Príapo.

Ademais, faz pouco da diferença sexual, privilegiando mesmo o travesti, que nele também não é uma perversão.

O travesti carnavalesco é, aliás, bem diverso do verdadeiro. Se este dissimula o masculino a ponto de excluí-lo da sua aparência, o carnavalesco se prevalece do masculino para ridicularizar o feminino. Assim, quem conhece o Carnaval de rua lembra-se do rapaz mais peludo vestido de biquíni ou melindrosa, do barbudo posando de odalisca, do travesti que, levantando a saia do seu longo, exibe o pé de um atleta. Nessa brincadeira aparentemente misógina, é o desejo de ser mulher sendo homem que se realiza, a possibilidade de superar as interdições impostas pela masculinidade, recuperar os ombros e descobrir-lhes a ginga, desancar e desbundar, poder saber do exibicionismo e até do recato, da graça ou da gabolice. Na verdade, é a própria diferença entre os sexos que é recusada – esta então não implica a alternativa, isto ou aquilo, quando eu no Carnaval quero e posso ser isto e aquilo, nem bem isto nem bem aquilo?

Brinco e torno assim possível a ambiguidade impossível no dia a dia. Esquecido da diferença entre os sexos, vivo como no paraíso, onde eu a ignorava e nenhum julgamento moral era possível. Se o outro me diz que sou indecente, eu respondo só rindo.

O brincar é alheio à decência, que ele na verdade desconhece, faz de novo proliferar na terra os seres a que se referia Aristófanes no Banquete de Platão, realizando o voto arcaico e universal de não existir em falta do outro sexo.

Da cultura do brincar resultam seres estranhos, ela produz associações de tal modo inesperadas que o resultado é enigmático. Os seres que vemos no Carnaval são surpreendentes – aquele de tanga e cocar será um índio sendo assim preto retinto? índio brasileiro ou de algum outro recinto? a mulher-ave, turbante e penacho, penas em leque de pavão e o véu que mais lhe serve para exibir as formas seria das Mil e uma noites? a outra, que ousa representar o sol, empresta-lhe a linda cara, o corpo à fantasia só de raios, reluz nas miçangas e avança envolta numa aura de plumas amarelas, é da terra ou do céu? esta, cujo chapéu, sendo de bruxa, é azul, será uma fada? enfim, que cenário é este, onde vemos confundidas as índias e as damas da antiga nobreza? a alegria que passa evoca pagode chinês, mas abriga cantores mexicanos?

O que o Carnaval nos mostra é inusitado. Ademais, surge pela primeira e última vez. Isso tudo como no sonho, a ponto de fazer supor que é irreal a realidade que vemos, sonhamos acordados. A unicidade do instante que vivemos e a consciência disso a tudo conferem um ar de irrealidade a ponto de nos perguntarmos se de fato existimos ou se também somos produtos da magia.

Os seres e as coisas são únicos e, no entanto, a nenhum deles podemos atribuir um sentido único, eles são como a obra de arte: ambíguos.

A cultura do brincar só cultua a ambivalência, nem bem isto nem bem aquilo. Ali, existimos no limite em que poderíamos nos tornar isto ou aquilo, na corda bamba de onde resvalar para um ou outro lado. A cultura fronteiriça e equilibrista do brincar recusa a alternativa, fixar-se neste ou noutro lugar, se deixar fisgar por um ou outro significado.

Assim, ela se realiza entre o ser e o parecer, o real da vida e a irrealidade da arte. O ser que brinca não coincide inteiramente consigo mesmo nem com nenhum outro. Sem ser ator, vive vários personagens. Brincando se transforma, existe noutro lugar de onde também se desloca.

Neste universo, o fluxo é tudo. Assim, por exemplo, todo ano o Carnaval nasce novo e enterra consigo os próprios símbolos. São meses para produzi-los e, no entanto, já na quarta-feira de cinzas, o que resta das alegorias só permite evocá-las, como se para tomar a cidade a festa tivesse que acabar.

A festa deve como a fênix renascer magicamente das cinzas, superar a morte e ressurgir, desacreditar a eternidade que o seu tempo é o do devir. Daí a estética das alegorias, a indiferença ao acabamento. São feitas para brilhar no desfile e acabar. Servir sim, durar não. Tudo se faz para se perder, porque este é o princípio mesmo do brincar: oposto à ideia de capitalizar ou arquivar; contrário à lógica do dinheiro, porque faz pouco do time is money e só se serve do money para brincar; alheio à postura preservadora do arquivista, porque só o que lhe importa é recriar.

Não seria preciso dizer mais para que se estabelecesse a analogia entre a cultura do brincar e o ato analítico, que é presidido pelo não-saber, só sabe do corpo, do desejo, do gozo enquanto o de querer mais e ainda gozar, privilegia a ambivalência e a possibilidade para o sujeito de se recriar. Isso, aliás, não deveria nos surpreender, pois o que é o trocadilho, peça chave do ato analítico, senão uma manifestação do brincar.

Isto acaso quer dizer que realizamos no palco da própria cultura o que em outros lugares só através do ato analítico pode se realizar? Fica a hipótese.

Seja como for, o que nos caracteriza é o fato de privilegiarmos a cultura do brincar, que aqui faz a criança e os dias de Momo, mas ainda a literatura dita de cordel, seiva da vida nordestina, o nosso herói nacional, Macunaíma, como a obra de Guimarães Rosa, que brinca com a língua como nós no Carnaval.

A cultura do brincar é sobretudo a da sátira, senão da zombaria, ela zomba do que é sério, cultua o riso e se realiza através do gracejo. O impossível para ela não existe, porque, dispondo de várias máscaras, ela o contorna. Assim sendo, não é de briga, é pacífica, não faz guerra nem mesmo contra a guerra, brinca e esta é a sua maneira de resistir a tudo o que a contraria. A sua coragem é a do humor, a de quem dribla a tristeza e só aposta na alegria.

Inadvertidamente sacrílega, não reverencia senão irreverentemente as outras culturas que ela, brincando, dessacraliza. Ou seja, toma dos seus símbolos e os situa de tal modo noutro contexto que os devora, celebra descontextualizando as outras culturas, antropofagicamente.

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1. Lançamento do livro Os bastidores do Carnaval, Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, 11/09/1995.