O educador ensina a paz e a solidariedade

O educador ensina a paz e a solidariedade

 

“Mas me diga: por que é que você vai para Goiás Velho dois dias depois de chegar ao Brasil?” (1)

“O quê?”, respondi ao amigo com quem eu estava na França, como se o amigo não tivesse direito a tal pergunta. Como se ele pudesse imaginar o que está na minha cabeça desde que lancei O clarão, no contexto do Projeto Amizade no Terceiro Milênio, que se realiza através de exposições itinerantes na rede de bibliotecas nacionais.

“O que está na minha cabeça é muito simples. O Brasil vai do Oiapoque ao arroio Chuí e é preciso que a ética da amizade seja difundida através desse vasto território.” Foi isso que eu disse ao amigo, antes de acrescentar que, em Goiás, há uma grande arte, a do escultor Siron Franco, que se inspirou na tragédia do césio – decorrente da desfaçatez de um médico –, tragédia que não pode ser dissociada da falta de solidariedade neste país, que, sendo nosso, não o é.

Como pode ser meu ou seu um país onde a vida não tem valor, onde nós estamos continuamente ameaçados pelo assalto a mão armada? Ameaçados de morte? Um país onde o ladrão é esperado, onde prolifera uma nova delegacia, a Delegacia Antissequestros, que difunde um comunicado como este:

Não anote telefone residencial no verso do seu cheque, especialmente no posto de gasolina. No caso de assalto, o telefone pode ser usado para ameaça, sobretudo se você for uma mulher.

Não exiba no carro adesivo da sua faculdade, do condomínio onde você reside, da sua academia de ginástica. O extorsionário se valerá destes dados para ameaçá-lo.

Não faça compras por telefone ou pela internet fornecendo o número do cartão de crédito. O ladrão prefere pessoas desatentas.

No trânsito, mantenha-se a uma distância segura do carro da frente, para sair – se preciso for – numa só manobra, sem bater. À noite, calcule o tempo e a velocidade para não parar no farol vermelho, porque o risco de morrer em roubo de farol é consideravelmente maior do que num sequestro. E, se você for assaltado, mantenha as mãos no volante e procure se comunicar, indicando claramente o que você vai fazer. Se quiser tirar o cinto, por exemplo, informe: “Vou tirar o cinto com esta mão”. Se o assaltante pedir a carteira, diga: “A carteira está no bolso de trás, o senhor me autoriza a pegar?”.

Neste país, que em princípio é o meu, eu sou obrigada a estar continuamente atenta, porque a fantasia – que a polícia chama de distração – pode ser mortal. Ademais, eu devo negociar a minha vida com o ladrão, cuja legitimidade eu, assim, indiretamente reconheço. Noutras palavras, vivo obrigada a pactuar com o crime. Ou seja, a ser cúmplice do ladrão e suportar o medo.

Quem me disser que eu pareço não estar lembrada do 11 de setembro, das torres crematórias, e acrescentar que o Brasil é apenas o espelho do mundo, se engana. O mundo está às voltas com o terrorismo e o kamikaze, que não passa da caricatura do herói, mas está a serviço de uma causa. Já o Brasil está às voltas com o sequestro, e o ladrão, que não tem causa, se vinga de uma situação que é o resultado da nossa tradição secular de falta de solidariedade, da denegação sistemática do problema do outro, desvio que só pode ser resolvido através da mudança de mentalidade, ou seja, da educação.

O mundo está às voltas com a guerra terrorista; o Brasil, com uma guerra civil sorrateira, que também nos obriga a refletir sobre a questão da paz, tema dos Encontros de Versalhes, que eu fui cobrir recentemente para a Folha de S. Paulo. Trata-se de um Davos da Cultura, que reunia ministros, embaixadores e intelectuais do mundo inteiro para refletir sobre o destino do homem no terceiro milênio. O cenário dos Encontros, como o nome do congresso indica, é o Castelo de Versalhes.

Nos debates, a educação e a paz foram abordados e chegou-se a algumas conclusões importantes. A de que a educação deve se ocupar da transmissão de valores essenciais, de que não há paz sem justiça e de que não é possível alcançar a paz pela vitória militar, como afirmou a embaixadora da Palestina na presença do embaixador de Israel.

O evento foi presidido pelo escritor Erik Orsenna, membro da Academia Francesa e autor de um clássico sobre a Amazônia, A exposição colonial, romance que lhe valeu o Prêmio Goncourt. Nessa ocasião, Orsenna me concedeu uma entrevista da qual reproduzo um fragmento luminoso, relativo ao papel do escritor e do educador:

BM: Qual é o efeito da globalização sobre as diferentes culturas?
ORSENNA: A pior coisa que está acontecendo hoje é a desaparição das línguas. Por causa da tendência a falar a língua de 500 palavras que eu chamo de globês. São as 500 palavras necessárias para sobreviver, as palavras do dinheiro, que é o equivalente geral. A existência de 15 palavras para dizer a mesma coisa não interessa à economia. Uma palavra basta, e as outras vão se perdendo. Ora, a maior obra de arte coletiva é uma língua, seja ela qual for, e não há nada pior do que relegá-la ao esquecimento. Perder uma estátua do Buda é terrível, mas perder uma língua equivale a perder o budismo.

BM: Qual é o papel do escritor hoje?
ORSENNA: O escritor é aquele que não cede ao globês, ele é o apóstolo da diversidade, o inimigo da estandardização.

BM: Isso significa que o escritor é necessariamente original, não é?
ORSENNA: Os verdadeiros escritores são capazes de criar mundos, por isso o nosso trabalho é da maior importância.

BM: Como a educação pode preservar as diferenças culturais?
ORSENNA: Há um certo número de saberes que são os mesmos para todos os países, porque são anexos à mercadoria. Agora, há outros saberes que implicam a língua, a cultura, o território… A educação tem que dar conta desses dois saberes. O ser humano pode ser comparado a uma empresa.

BM: Como assim?
ORSENNA: Construir a própria vida é se construir como uma empresa, ou seja, com a criação de valores que não são os do mercado, obviamente.

BM: Outro tema destes Encontros é a paz, e o título de um dos debates foi “Os portadores da paz”. Quem são eles hoje para você?
ORSENNA: Os realistas. Não pode haver paz se não levarmos em conta o território. O ser humano está profundamente ligado ao território. Veja o conflito do Oriente Médio. Por outro lado, é preciso considerar as pressões demográficas. Mas nada disso é suficiente se não reinventarmos os valores urbanos.

BM: Seria necessário introduzir a reflexão sobre a paz na escola. Você não acha?
ORSENNA: Acho. A educação, para mim, é o ensinamento da paz.

BM: Esta reflexão poderia ser facilmente introduzida através da amizade, um tema que é fundamental para os jovens. A amizade supõe uma ética contrária à violência, a ética da delicadeza ou, como diz o Dalai Lama, da contenção.
ORSENNA: E o ensinamento da delicadeza se tornou fundamental hoje em dia.

O amigo é o pacifista de que o tempo de hoje precisa e ele é o interlocutor do homem atual.

Os absolutos religiosos não têm mais sentido. Ninguém mais diz “esta é a tradição verdadeira” ou “esta é a verdade” sem ser tomado por um fanático. Agora, cada indivíduo é o produtor da sua própria verdade. O homem moderno compõe a sua religião com toda a liberdade. Quem melhor do que o amigo para validar as suas crenças?

O declínio da religião concebida como um sistema de crenças dogmáticas e a necessidade de uma nova espiritualidade são hoje evidentes. A ciência pode ajudar a prever as consequências das nossas ações, mas nenhuma ciência é capaz de nos dizer como devemos agir numa questão de natureza moral. A nova espiritualidade implica uma conduta virtuosa que pode encontrar na conduta do amigo o seu modelo.

A amizade supõe uma ética, a ética da delicadeza, ou a ética da contenção, nas palavras do Dalai Lama. Uma ética que tanto ensina o cuidado quanto o respeito, e é a nossa esperança para superar a escalada de crimes no mundo contemporâneo.

Conter-se é adotar uma disciplina baseada numa avaliação das vantagens de agir de um modo, e não de outro. O amigo se controla, porque o controle é a condição da sua liberdade e da liberdade do outro, a condição sem a qual a amizade não existe, pois ela nasce espontaneamente, mas precisa ser cultivada para se perpetuar.

_______
1. Goiás Velho, sem outras referências.