O drama da velhice extrema

O drama da velhice extrema

 

A mãe eterna é um romance que escrevi para superar um drama pessoal. O romance se impôs por causa da velhice extrema da minha mãe e, graças a ele, eu consegui aceitar a passagem da condição de filha para a da mãe da mãe.

De repente, nós temos que cuidar de quem sempre cuidou de nós e fazer o luto antes mesmo de a pessoa morrer. Não há como escapar a isso. Mas como suportar e de que forma agir?

Ao escrever A mãe eterna, deparei com um drama ao qual os filhos e os pais estão cada dia mais sujeitos – o da velhice extrema. Precisamente por isso, a longevidade é um dos temas do Museu do Amanhã, do Rio de Janeiro, um museu que deveria servir de exemplo para vários outros. Um dos painéis diz o seguinte: «Seremos mais longevos e em muitas regiões se viverá três vezes mais do que no Império Romano. Os idosos serão tão numerosos quanto as crianças…».

A longevidade, obviamente, terá consequências importantes para o planeta e disso A mãe eterna trata de diferentes maneiras. Segundo a narradora, seria necessário inventar um outro mundo para os velhos, um mundo inofensivo e mágico. Nele, o fogo não queima e o gás se apaga automaticamente. Assim, o velho não corre o risco de se queimar ou mesmo de morrer por causa de um esquecimento. Nesse mundo mágico, bastaria ter uma ideia para ela se realizar. Se, por acaso, o nosso velho imaginar que está indo da sala para a cozinha, o chão se desloca e o leva até a cozinha. Com o deslocamento, ele terá o sentimento de andar como sempre andou etc.

A questão da longevidade é uma das grandes questões que nós temos que enfrentar. Como lidar com a longevidade sem excluir ou maltratar o idoso? A heroína da Mãe eterna procura soluções e às vezes encontra.

A estrutura do romance é extremamente simples. A mãe da narradora está quase cega e quase surda, se locomove mal e se alimenta como um passarinho. Na impossibilidade de dialogar com esta mãe, que caminha para o centenário, a filha-narradora escreve para a mãe que ela perdeu – imaginária – e fala do drama que está vivendo.

Apesar da idade, no entanto, a mãe real se conserva esperta e só faz o que bem entende. “Passa a perna” em quem tenta domá-la com orientação sobre os médicos, os remédios, a alimentação. Ou, então, demite a cuidadora. Mas, quando a filha traz outra, ela “por acaso” reencontra a cuidadora anterior, que obedece sem discutir as suas vontades. Trata-se de uma velhinha marota e muito engraçada , que faz pouco dos medos da filha. Por exemplo, o de que ela seja sequestrada. “– Uma velha, filha. Quem vai querer me embarcar?”. Ou, então, outro medo da filha, o de que a mãe beba muito. Neste caso, a mãe simplesmente diz. “– Um vinho ótimo. Quer experimentar? Você vai gostar”.

Garanto que o meu leitor vai rir, mas ele também vai se confrontar com questões sérias. Ao refletir sobre a condição da mãe, a filha-narradora do romance se pergunta até quando a vida deve ser prolongada e questiona a conduta do médico, que procura vencer a morte a qualquer preço. A função do médico é tratar, e não prolongar a vida indefinidamente.

A partir do momento em que a pessoa perde a independência, se ela quiser ir embora, precisa ser ajudada. Por isso, o subtítulo do romance é morrer é um direito. Descobri, escrevendo, que a velhice extrema pode ser tão sofrida quanto a doença terminal. Se quisermos humanizar o fim, temos que respeitar o direito de morrer. De modo geral, não temos consciência deste direito, porque somos educados para aceitar o sofrimento. A narradora da Mãe eterna não aceita esta educação, ela é contrária à obsessão terapêutica. Quando a pessoa quer morrer, cabe ao médico suspender o tratamento e dispor dos recursos que ele tem para facilitar a morte.

Disso eu já havia tratado no romance, que se chama Consolação. O herói tinha câncer e não queria que sua vida fosse prolongada. O médico não deu ouvidos. Com isso, ele exacerbou o sofrimento do paciente e dos familiares. Ninguém deseja morrer, mas pode querer isso quando a vida se torna insuportável. Neste caso, fazer ouvidos moucos é uma crueldade.

Claro que é difícil se separar de uma pessoa querida. Por isso, a filha da Mãe eterna diz: “Quando você diz que quer morrer, eu me digo que seria melhor para você não sofrer. No entanto, procuro silenciar o seu voto”. A filha é sempre muito ambivalente, porque, na situação em que ela se encontra, não há como não ser.

O fato é que ela se torna a mãe da mãe. Isso significa perder a mãe, não ter mais a pessoa que cuida e imaginariamente nos escuda contra a morte. Trata-se de um luto dificílimo, porque a gente se confronta com a decadência de uma pessoa que a gente ama e na qual se espelha. No romance, a narradora fala da mãe como de um passarinho que quebrou a asa.

Além das dificuldades objetivas com as quais ela se confronta – como a reorganização do espaço físico e o cuidador especializado –, existem as dificuldades subjetivas com as quais ela não está preparada para lidar. A mãe quase centenária sofre com a perda da independência e, por causa disso, tende a ser negativista. A tudo ela primeiro diz não. A conduta se torna menos irritante quando a filha entende que o não serve para afirmar a independência. O problema é que, ao afirmar a independência, a mãe corre risco de fazer mal a si mesma ou corre risco de vida, saindo sozinha na rua, por exemplo.

No romance, são muitas as cenas em que a filha se desespera por não conseguir controlar a mãe. Conclui que a idade deu à mãe um alvará para fazer o que bem entende. Compara o velho ao poeta, que tem licença de versificação, sintaxe e ortografia. Mas acrescenta que as licenças do velho são outras, não catalogáveis, porque ele muda o jogo continuamente. Quem se ocupa de uma pessoa idosa tem que saber disso e dançar conforme a música.

A dificuldade é que não se pode deixar a pessoa se expor inutilmente ao sofrimento, cair ou ser atropelada. A fratura precisa ser evitada, porque a reabilitação do idoso é difícil e, depois da queda, é a cadeira de rodas. Quem cuida tem que proteger. Isso implica uma tática e requer um aprendizado. Inútil contrariar o idoso, que acaba se enfurecendo e empaca. O cuidador tem que ser particularmente maneiro. Tem que escutar, porque cada um é um e é preciso descobrir a forma de agir. Quem se empenha em fazer isso aprende a ter paciência, a não se irritar. A narradora da Mãe eterna inclusive diz que ela tem medo de se comportar «como uma megera, em vez de ser o cordeirinho do bom pastor de que a mãe precisa». Teme perder o controle.

Acredito que em nenhuma outra situação eu tenha aprendido tanto quanto nesta passagem de filha para a mãe da mãe e isso talvez sirva de consolo para os que estão numa situação análoga. Mas o meu romance não fala só do luto, ele fala continuamente do amor. Porque a filha ama a mãe que, por sua vez, é apaixonada pelo sentimento amoroso, razão pela qual a velha senhora evoca continuamente a vida e a correspondência com o falecido marido. O gosto da rememoração é tal que a filha se pergunta se a mãe rememora para viver ou vive para rememorar.

A mãe eterna é um romance sobre o amor e a morte, que nós em geral censuramos, como se a censura pudesse nos proteger. Não é a censura que nos protege, e sim a consciência de que somos finitos, de que a borboleta da vida passa uma vez e depois não passa mais. Portanto, como diziam os antigos: Carpe diem, aproveita a tua hora. A tua hora e este nosso encontro, que também é feito para que nós possamos debater o tema da longevidade e seu drama. Obrigada.

 

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* Conferência proferida na Embaixada do Brasil em Lisboa, por ocasião do lançamento do livro A mãe eterna em Portugal, em 19 de maio de 2016