O Carnaval

O Carnaval

 

A música popular brasileira é indissociável do Carnaval. Já por isso parece justo privilegiar a festa.

O meu primeiro passo para saber dela foi entrevistar os carnavalescos, dar a eles a palavra e considerá-la seriamente – o que em 1979 ainda era uma coisa inédita. Isso porque no Brasil sempre se menosprezou o seu discurso, tudo como se ele inexistisse. À intelligentsia, interessava folclorizar; à mídia, explorá-lo publicitariamente.

O que é a transmissão do desfile das escolas de samba pela TV senão pornografia? O traseiro oferecido, a cópula simulada, um mesmo genitocentrismo forçado pela câmara, evocando sexos penetrantes, penetrados; é o sambista subtraído do desfile e entregue a uma volúpia sem história, animalizado. A televisão, como o filme pornográfico, projeta seres ahistóricos, fragmenta-lhes o corpo e só o focaliza para despertar a cobiça. O que era brincadeira vira perversão exibicionista.

A televisão avilta o carnavalesco e o espectador, porque lhes nega o desfile, cujo sentido não a interessa. O que representa a alegoria que entra? O destaque a que vem? Por que esta fantasia? Passam alegoria, destaque, fantasia sem que o comentarista se detenha ou o espectador possa entender. Se a beleza o toca, ele não diferencia uma coisa da outra, passa a monotonia. A riqueza – que não está na quantidade de plumas, pedrarias e paetês, porém na multiplicidade das produções – lhe escapa, o desfile não faz nenhum sentido.

Nesse contexto, o tema do enredo das escolas de samba, o modo de produção das alegorias ficavam quase desconhecidos e foi sem nenhuma ideia preconcebida que eu me pus à escuta dos carnavalescos no lugar onde a festa se preparava, o barracão. Na época, se criticava o desfile das escolas, alegando que um país pobre como o nosso não pode sustentar um tal luxo, e eu me surpreendi ouvindo o carnavalesco da Beija-Flor, Joãosinho Trinta, alegar que “só reclamam dos carros alegóricos as pessoas que vivem neles, em edifícios de apartamentos. O povo que vive em casebre, em rua de lama, no aperto, quer coisas grandes, procura essa outra dimensão que ele só encontra na festa”. O luxo do Carnaval, dizia Joãosinho Trinta, não é o de quem tem muito dinheiro, diamantes e jóias. “Os diamantes e as jóias de uma escola de samba são falsos, porém muito mais verdadeiros, porque têm implicações mágicas. Quando uma empregada doméstica se veste de Cinderela, de nobre, ela faz parte da nobreza medieval, está com as jóias mais autênticas, porque são as da imaginação, do prazer que ela está sentindo” (Beija-Flor, 1980).

De que autenticidade se tratava? O que queria dizer Joãosinho Trinta? A resposta, eu deduzi ouvindo o discurso de outros carnavalescos. Laíla, um grande diretor de harmonia, disse: “O Carnaval é o dia em que todo mundo quer curtir, brincar, não quer saber se passou fome durante o ano (…) as pessoas esquecem de tudo, até de comer (…) três dias de esquecimento total, em que o componente se sente rei, é o dono do espetáculo, ele está fora deste planeta” (Laíla, Beija-Flor, 1980). Aí foi que eu entendi. As jóias da imaginação são as mais autênticas, porque o imaginário é a nossa via de saída, e é por isso que a paciência nos governa, ela é o sexo do nosso povo, como dizia Mario de Andrade.

Por outro lado, o que ouvi de Laíla, associado a outros discursos, levou-me a concluir que o Carnaval é um culto paradoxal do esquecimento, pois, esquecidos do que somos, nós ali lembramos do que queremos ser, brincamos de nós mesmos e rememoramos através do enredo o nosso passado. Ali, retomamos os episódios da história do Brasil, a vida e a obra dos grandes, os momentos gloriosos do futebol e do próprio Carnaval. Isso de modo sempre fantasioso, subvertendo a história oficial através da versão imaginária. Assim, eu ouvi de um dos carnavalescos, Arlindo Rodrigues, o seguinte: “No ano passado, fiz o Descobrimento do Brasil. Dividi o enredo em três etapas, a primeira era Portugal, a escola de Sagres, a preparação da viagem. Depois, vinha o mar, a representação dos motins, dos monstros marinhos. Por fim, o Brasil, a descoberta e tudo o que o português encontrou aqui. Foi assim que desenvolvi o enredo, mas tive lances de fantasia, como, por exemplo, na parte do mar, em que fiz os portugueses passando pela Índia e apresentei elefantes brancos. Isso é necessário para que o tema seja mais carnavalesco do que histórico” (Arlindo Rodrigues, Imperatriz Leopoldinense, 1980).

Sendo o dia do esquecimento, o Carnaval é a nossa memória. Através dele, o Brasil se reinventa para si e para os outros, recriando o que outrora existia. A exemplo disso, a estilização das roupas tradicionais pelos figurinistas. Se o enredo trata do Descobrimento, a baiana trará uma caravela na cabeça. Se o tema são as maravilhas do mar, a fantasia da Colombina, figura igualmente tradicional, terá barbatanas de peixe. O Pierrô será então apresentado como um Pierrô marítimo. A festa supõe uma reinvenção permanente, e a identidade nacional ali se realiza, diferenciando-se e se dispersando nos eventos, suscitando questões sobre si mesma.

Sendo indubitavelmente brasileiro, o Carnaval redefine o nacional pela prática cultural da nacionalização, ele desapropria deixando-se apropriar, de sorte a não mais saber o que é do outro e o que é seu. Assim, somos do mundo e o mundo é nosso, brincamos perdidos no mapa-múndi do Brasil. Isso é patente no discurso do carnavalesco Joãosinho Trinta, criticado pela intelligentsia por esquecer das raízes nos seus enredos: “Ninguém está mais próximo das raízes do Carnaval brasileiro do que o enredo da Beija-Flor. Qual a pessoa que não se fantasiou de mexicano, tirolês, egípcio ou grego? Só o fato de trazer novamente para o Carnaval fantasias de que todo mundo se vestiu derruba o argumento de que o enredo não é nacional” (Joãosinho Trinta, Beija-Flor, 1981). “Pode coisa mais brasileira, espírito mais carnavalesco do que você de repente pegar a Muralha da China e trazer para a Marquês de Sapucaí? Se me deixassem, eu estava fazendo os maiores enredos, as coisas mais sérias estariam sendo colocadas na Avenida, porque é o nosso espírito, é onde a nossa cultura flui através dessa brincadeira. Grécia. Quem tem um pouco de conhecimento vê a Grécia no Monte Olimpo, tinha que se trazer para a Marquês de Sapucaí os deuses gregos, as deusas, as vestais” (Joãosinho Trinta, Beija-Flor, 1980).

O povão brasileiro, que não duvida da sua identidade, é contrário ao nacionalismo e por isso talvez só a sua cultura tenha efetivamente se exportado, a sua música, o seu futebol e o seu Carnaval, que aos nativos e aos outros propicia todo ano uma grande ilusão. Por ela, nós damos tudo e por isso aliás Oswald Andrade dizia que o Carnaval é a religião nacional. Seria lícito afirmar que a exigência da Utopia nos caracteriza, a ponto de acreditarmos, por exemplo, que podíamos ter uma inflação suíça, zero praticamente, e um desenvolvimento equivalente a duas vezes o do Japão.

O fato é que o Carnaval é um espetáculo tão grandioso e inusitado quanto o que se imaginava ser o do Éden na época dos Descobrimentos, ouro, prata, pedras preciosas, tudo se descortinando magicamente diante dos olhos como queriam os descobridores do Brasil, movidos pela ânsia de encontrar o Paraíso. A festa funcionava efetivamente como a repetição de uma fantasia ancestral, que, sendo inseparável do gosto da maravilha e do mistério, se traduzia numa geografia fantástica do Novo Mundo, cujos motivos o Carnaval retoma.

A dos reinos de ouro e prata
De que geografia se trata? entidades misteriosas cinocéfalos, cíclopes, sereias e amazonas ao lado de uma extraordinária fauna antropormórfica, geografia que o Carnaval repetidamente coloca imune. Ele não cessa de recorrer aos temas em voga na época da conquista.

Assim, em 1980, a escola de samba Império Serrano criou um motivo evocativo do Eldorado. Outra escola, a Mocidade Independente, reatualizava então a fantasia do Paraíso, prodigalizando ao longo do desfile uma multidão de frutas e de pássaros, que tanto pelo seu tamanho desmesurado quanto pelas suas cores raras evocavam o Éden.

O Carnaval se quer um assombro e, para sê-lo, exibe sempre uma riqueza digna da resplandecência do Paraíso.

Realiza-se insistindo no brilho e na transparência, particularidade que determina, por um lado, a seleção mesma dos materiais utilizados – papel metalóide, espelho, purpurina, pedras coloridas, acetato, acrílico etc. – e, por outro lado, a estética das alegorias, que não obedece a nenhum critério realista, e sim à necessidade do esplendor. Exemplo disso no desfile das escolas de samba de 1981 são os dragões da Muralha da China – revestimento em lamê dourado, franjas prateadas e detalhes de acetato –, as pirâmides do Egito – um volume vazado, só pingentes de espelho –, ou a caveira da Imperatriz Leopoldinense, reluzindo na sua cor de prata.

A cultura do Carnaval é a do brincar, só reverencia irreverentemente as outras culturas que ela absorve e assimila para criar o que há de mais brasileiro. Se nos mostra uma japonesa, não a mostra tão vestida como a autêntica, exibe-lhe a perna. Quanto à sua Cinderela, não é loira, é mulata e se chama Piná. Gueixa loira e Cinderela de ébano, pois a festa se manifesta menos através deste ou daquele símbolo do que pela devoração de todos os símbolos. Vale-se deles para construir o seu cenário. Do Japão traz o kabuki, da China o Buda, da Índia as dançarinas. Assim o Carnaval, a nossa ópera de rua, se prevalece dos outros teatros para fazer-se.

A cultura do brincar conhece a sua força e não ignora nenhum dos seus valores. Assim, cada ano as escolas de samba prestam uma homenagem à velha guarda e cultivam a criança para se renovar, entre as suas várias alas existe uma que é mirim.

O Carnaval exalta o que somos e nos ensina a afirmar a língua que falamos. Good bye, good bye, esquece essa mania de inglês, diz o samba, retomando os ditados populares.

Os dias do Carnaval são os dias da nossa maior tradição. Daí, a despeito da eterna crise econômica, o luxo do desfile, que é o único verdadeiro milagre brasileiro, pois, através dele, o país se produz e se universaliza, introduzindo os nossos índios na galeria dos espelhos, fazendo a brasileira encarnar Maria Antonieta e a vestal romana rebolar como só as mulatas sabem fazer. Tudo isso na ignorância feliz do princípio da contradição e na vigência do princípio do prazer.

O Carnaval é indiferente ao corpo biológico, fisiológico ou sexológico. Do defeito físico faz uma qualidade, vale-se dele para driblar o medo e põe então a desfilar seres anômalos, irmãos siameses, paraplégicos, superando o horror pelo humor. As urgências fisiológicas a festa também desconhece. Alguém então para de brincar porque é hora de comer ou de dormir? Nunca, Carnaval não tem hora, embora tenha duração. Toda hora é hora.

Quanto ao corpo sexológico, destinado a satisfazer o imperativo erigir-ejacular, o brincar o ignora. Para ele, o orgasmo não é a palavra de ordem, é palavra vazia; no ritmo repetitivo da batucada, tão contrário ao da coreografia sexológica – performance progressiva –, o brincar se realiza despreocupadamente, exacerbando a sensualidade, perpetuando-se sempre que o sexo entra em cena, através de uma simulação que faz do sexo antes uma brincadeira. Isso é evidente no desfile das escolas de samba, no número dos passistas: ela, o corpo inclinado para trás e o púbis para cima, ginga oferecida; ele, um joelho no chão e outro metido entre as pernas dela, toca pandeiro, celebra a ginga, exalta-a sem contudo tocar nela.

A cultura do brincar faz do corpo objeto exclusivo do prazer. Se alguma tradição coreográfica instrumentaliza aquele, a exemplo da dança dos passistas, é só para exacerbar o prazer de olhar. A palavra de ordem do passista é “não vem que tem” ou “você fica aí só me olhando e eu faço que vou/dou, mas não vou, só faço você querer olhar, querer tocar…” O jogo é precisamente adiar o fim, cada um só deseja que o outro o deseje ou só deseja desejar. O erotismo ali é máximo, porque o tempo cronológico está suspenso.

A cultura erótica do brincar só produz seres insaciáveis, porque nenhum deles quer se saciar, ninguém precisa disso para brincar. A sexualidade desconhece toda performance e nunca se deixa legislar.

Se o nosso Carnaval evoca o Paraíso, adotando-o como tema e valendo-se de materiais dignos da sua resplandecência, ele o evoca ainda porque, como no Paraíso, a experiência do corpo se faz na mais completa inocência.

O que no cotidiano seria exibicionismo ou voyeurismo, ali é normal, pois a festa desconhece a prescrição que governa a sexualidade cotidiana, o imperativo do orgasmo. O carnavalesco se exibe por se exibir, para atiçar, exacerbar. A sua regra seria antes erigir para não ejacular, dionisíacamente elege Príapo.

A ordem é brincar e, nesse contexto, a culpa inexiste. Daí a diferença entre o nosso Carnaval e os outros. O de Veneza, por exemplo, nunca eximiu os foliões da culpa. Isso é patente se considerarmos a função da máscara, da tradicional bauta. Os carnavalescos, como dizia Montesquieu, serviam-se menos dela para se fantasiar do que para se tornar anônimos, transgredir ou pecar sem ser identificados. O veneziano diria: “A máscara que eu uso me permite tudo, impossível reconhecer-me como culpado”. A bauta, que o exime da responsabilidade sobre os atos praticados, não cessa de praticar o crime ou o pecado. Já nós nos mascaramos simplesmente para nos tornarmos outros. Daí a multiplicidade das fantasias no Brasil, e a pequena variedade temática da máscara no Carnaval veneziano. Os personagens deste são reencarnações da Commedia del’Arte e a sua atividade precípua é, como no teatro, a representação de pequenas cenas. Trata-se pois do Carnaval da Commedia del’Arte, enquanto o nosso é o do brincar, que faz a festa, mas também define o estilo do cotidiano e nos faz diferentes até no modo de amar – modo que, no Brasil, faz pouco da paixão melancólica da triste Isolda e não se dissocia da paixão do brincar.

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Sem referências.