O brincar e a sintomática cultural brasileira

O brincar e a sintomática cultural brasileira

 

Se eu sou uma mulher dos trópicos, não o sou inteiramente, e não fosse a imigração que me precede, eu não teria passado da clínica psicanalítica à investigação etnopsicanalítica, a chamada “cultura” não teria se tornado objeto de uma curiosidade que me anima desde 1978, ano em que, depois de uma longa estada na França, eu voltei ao Brasil.

A partir daí, me tornei particularmente sensível aos fatos reveladores das diferenças culturais. Os pequenos eventos da vida cotidiana me pareceram então mais pródigos do que as dissertações, e eu me pus à sua escuta. Cada vez que retornava à França, também me dava conta de como somos diferentes. Um brasileiro não procede da mesma maneira que um francês para ser educado, não vive o amor nem concebe a festa do mesmo modo. A exemplo disso, evoco um pequeno episódio da festa da Índia na França, do mela indiano no Trocadéro.

Chegamos ali de carro e nos parecia dificílimo estacionar. Vejo enfim um lugar e o indico ao condutor, um amigo francês. – O quê? E a faixa amarela? Multa na certa. – Mas não é dia de festa?, pergunto eu. – Sim, e daí? A polícia francesa pouco se importa, respondeu o amigo, multa no ato. Dia de festa no Brasil, o espaço urbano é invadido, entra por assim dizer em transe, o povo circula e estaciona livremente, se diverte, esquecido da geografia cotidiana das interdições. Percebi então que, à diferença da França, o Brasil nunca se concebe sem esta exceção e passei a valorizar as exceções através das quais ele se constitui, quis saber mais da diferença.

A cultura se tornou o meu objeto; não propriamente a que é produzida por certos ideais sociais resultantes do recalque e que, por sua vez, produz a neurose, mas a cultura gerada pelo recalcado e que supõe o conceito de inconsciente étnico introduzido por Georges Devereux (Essais d’ethnopsychiatrie générale). O dito inconsciente é o que o sujeito possui em comum com os outros da mesma cultura, e o material dele é o que foi recalcado por mecanismos de defesa fornecidos e reforçados por pressões sociais.

Quando e como esse inconsciente étnico gera cultura? Quando os meios defensivos colocados à disposição do indivíduo para o recalque de certas pulsões distônicas se revelam insuficientes. A cultura então fornece certos meios que permitem àquelas pulsões exprimir-se de maneira marginal. O efeito é uma outra cultura, nunca reconhecida como tal e, via de regra, sintomática da diferença de um povo.

A cultura do inconsciente étnico que define uma sintomática brasileira é a que nos interessa. Isso significa detectar os significantes primordiais através dos quais o Brasil se inscreve de modo singular na ordem simbólica; pressupõe a existência de dois Brasis e implica abordar a cultura através do par sujeito-significante. Já aqui podemos demarcar o campo da etnopsicanálise que opera através do discurso.

De saída, podemos afirmar que há dois Brasis, um inserido pela Europa no conceito de América Latina e que, não tendo se reconhecido neste, não suporta diferenciar-se da Europa; e outro que se constituiu no melting pot das culturas, um país que evoca antes uma América Africana e merece ser chamada de Améfrica Ladina. O herói deste Brasil mestiço, que fala português sem esquecer as línguas africanas e o tupi-guarani, é Macunaíma, a quem Mario de Andrade se refere assim:

No fundo do mato virgem, nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

O Brasil que vamos enfocar é o deste herói, é macunaímico, porque os seus valores são os daquele e para ambos acima de tudo está o brincar, significante primordial da cultura da nossa língua.

Dado o lugar que ocupa na cultura brasileira e no universo mental que ele molda, o brincar pode ser alinhado junto do fair play inglês, do droit francês, do honor espanhol, que Salvador de Madariaga há meio século já considerava intraduzíveis.

A cultura macunaímica do brincar não se manifesta através de dogmas, como a cultura oficial, mas de um estilo que se diferencia incessantemente, evitando toda coincidência definitiva consigo mesmo, promove antes a ambivalência, exalta a alegria e solicita o riso. A exemplo, o travesti carnavalesco, que se vale do masculino para ridicularizar o feminino, realiza o desejo de ser mulher sendo homem – em outras palavras, faz a sátira da alternativa implícita na diferença sexual, de ser isto ou aquilo para ser isto e aquilo, ambivalente.

A referida cultura, que se manifesta na festa, no jogo, na literatura, privilegia as associações oníricas e se prevalece dos recursos da elaboração do sonho, particularmente condensação e deslocamento. O que é a mulata rebolando vestida de grega, egípcia ou vestal, senão uma condensação? O aspecto físico e o gesto são da mulata, a roupa de grega, egípcia ou vestal. Quanto ao deslocamento, ele preside toda a produção carnavalesca, que tira os símbolos do seu contexto usual e os insere noutro, descontextualiza, traz a Estátua da Liberdade ou a Muralha da China para a Marquês de Sapucaí.

Indiferente ao princípio da contradição, o brincar também é indiferente ao tempo cronológico. O Colosso de Rodes, os Jardins Suspensos da Babilônia e as Pirâmides do Egito podem coexistir num mesmo enredo de escola de samba (Beija-Flor, 1981). À diferença do museu, que valoriza as cronologias, o Carnaval faz coexistir as representações de todos os passados, do presente e do futuro, ele é atemporal.

Assim sendo, a cultura do brincar se afirma no ato de recontextualizar os símbolos, não toma nenhum significante como unívoco, dota-o antes de um sentido novo. O seu princípio é o de que tudo é de todos e nessa transação o mundo desabrocha em aspectos até então não revelados. Inadvertidamente sacrílega, não reverencia senão irreverentemente as outras culturas, que ela, brincando, dessacraliza, celebra devorando a diferença para criar e recriar a nossa identidade. Do norte ao sul, nós reinventamos a gênese, o mito de Adão e Eva. A literatura de cordel narra-o substituindo a maçã pelo caju, e Joãosinho Trinta em A Lapa de Adão e Eva (Beija-Flor, 1985) faz da banana a nossa fruta do pecado. O samba que diz “a história da maçã é pura fantasia” (Haroldo Lago e Milton de Oliveira, 1954) vale do Oiapoque ao arroio Chuí, pois, como dizia o poeta modernista Oswald de Andrade, o que nos une é a Antropofagia. A cultura satírica do brincar é contra a hierarquia e o tabu, hostil ao que está pronto, acabado ou se apresenta como eterno. Interessa-se pelas realizações do resto do Ocidente, mas não se deixa inibir, apropria-se de tudo que estiver à mão. O mundo é dela, que é do mundo: nacional, internacional, além de universal.

Sintomática dessa cultura que nos diferencia é a devoração, a deglutição das alteridades em que insiste Oswald de Andrade, escrevendo: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Pela Antropofagia, o Brasil se livra das catequeses. Quem devora o Outro não se transubstancia na comida, incorpora um pouco dela e dejeta um resto fecal. Ademais, não se deixa subjugar por um tabu, e a tendência mais brasileira é antes a de reverter o tabu em totem, cultuar totemizando os outros.

O nosso sintoma é a heterofagia, nós nos fazemos devorando as diferentes culturas e isso também se deve ao povo português, etnicamente indeciso entre a Europa e a África, vivendo com uma perene nostalgia do longe, senão do outro. Isso é patente na conduta do português D.Pedro I ao proclamar a Independência do Brasil, que ele comemorou mandando trocar a gola do seu manto real, feita de pele de arminho, por uma de penas de papagaio e de tucano, ave que vive de pilhar o ninho alheio.

A cultura heterofágica do brincar no Brasil é a de todos – criança, adulto, velho ou aleijão – e todos nós nos reconhecemos nela, ainda que seja desconsiderada pelos saberes oficiais, incapazes, por exemplo, de reconhecer no desfile das escolas de samba a verdadeira epopeia brasileira. Sim, o Brasil épico não se realiza através da literatura e sim do teatro, da grande ópera de rua que é o Carnaval das escolas de samba, não se exprime pelo verbo e no ritmo só do verso, porém no compasso da batucada, do canto e da dança; ele é visual e musical – e só por diferir da forma consagrada pela tradição ocidental não foi devidamente valorizado.

A cultura oficial apresenta o Carnaval como manifestação folclórica e nunca como expressão radical da brasilidade, ou então, para efeitos turísticos, mostra a festa mediante uma série de imagens sempre idênticas, onde só a identidade entre o Carnaval e o sexo convida à viagem. O fato carnavalesco anula-se na reportagem jornalística. Em vez do gozo do ritmo, é só o gozo do sexo, suspensão do ritmo num flagrante que torna o corpo obsceno. A boca que o sambista abria no canto e era a da alegria, vista no jornal, requer o falo ou a língua. O traseiro empinado na dança para melhor requebrar, na fotografia sugere só o ato de penetrar.

Se na realidade o ritmo fragmenta o corpo do carnavalesco, que se entrega a todas as suas partes e não está em nenhuma e deixa que a música o penetre por inteiro, a fotografia recorta-lhe o corpo para fisgá-lo pornograficamente numa das suas partes. Viola-se o folião, que na festa se exibia para fazer o outro olhar e se exibir; transforma-se o mesmo num exibicionista, enquanto o leitor é voyeurista, perversos os dois. À diferença do Carnaval, que esvazia a ideia de perversão, a imprensa a elege e sacraliza.

Se o gesto do Carnaval evoca o sexo, é mais para evocar, é a corte sem palavras, do e para o corpo. Ali, reina a liberdade, porque o gesto do sexo não obriga a transar. O sambista provoca no sentido de atiçar o desejo. O fotografado, para desafiar a transar ou censurar.

O nu carnavalesco é inocente, como aliás a fantasia, que mais serve para desnudar, precário biquíni melhor indicando o seio, seu bico ou contorno, sublinhando o púbis para tudo entregar ao sonho e ao samba. O que na festa era ambiguidade e volúpia pura desaparece na reportagem, na monotonia dos gestos prefixados. O que era sexo sonhado se torna programado e é a unicidade do sentido.

A tal ponto a cultura oficial ignora a outra que Oscar Niemeyer construiu o chamado sambódromo sem que um só dos carnavalescos fosse consultado. O arquiteto, supondo que a referência da nossa ópera de rua é a ópera tradicional, imaginou declaradamente um gran finale e abriu a passarela no espaço da apoteose. Isso eu deduzi através da escuta dos sambistas. Pois é, Pavarotti adora Pelé, cita-o para explicar por que também faz publicidade, mas a nossa elite desejaria que a cultura de Pelé fosse a da ópera lírica, e não a do brincar.

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1. Congresso Brasileiro de Psicanálise (também conhecido como Congresso da Banananálise), Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, 1985.