O amor do mestre

O amor do mestre

 

Uma revista já existente, hoje de novo se lança. Freud e Lacan, conforme o título. A questão é, pois, a do amor na história da psicanálise, do amor hoje já histórico entre dois mestres. Daí o nosso tema: a história e o amor do mestre (1).

Dizer de alguém que ele é um mestre, é dizer dele que não é o gozo que o preocupa, mas o seu desejo, que ele negligencia. Assim, o mestre é aquele que não teme o vizinho, não se subordina necessariamente às convenções. Se Freud foi um mestre, ele o foi por ter valorizado o menor evento da vida cotidiana, um sono maldormido, uma palavra esquecida ou uma simples mancada, isto é, por ter remetido cada sujeito àquilo que nele é incomparável.

Quanto a Lacan, ele o foi por ter retornado para avançar, ter relido para inovar, indicando por esta via o sentido preciso da palavra interpretar. Lacan apenas pontua o texto originário, acionado pelo desejo de reencontrar o discurso de Freud, de quem ele certamente ouviu: “Tu és aquele que me seguirá”, e a quem ele respondeu: “Tu és o meu mestre”.

Entre um mestre e outro, a história da psicanálise através de um retorno, o passado originário da teoria retomado no presente, senão reconstruído – como o analisando torna presente o evento passado para fazer de um discurso arcaico um discurso atual.

Entre Freud e Lacan, uma história de amor – amor que, não sendo simultâneo, é sempre recíproco, faz-se através do dom. No caso, através daquilo que nenhum dos dois tinha e tirou de si para transmitir, enviar além, como o desejo nos envia de um significante ao outro e, de falha em falha, vai produzindo a verdade do sujeito, que só se revela através da mentira, cujas pernas, o provérbio já diz, “são demasiado curtas”. Lacan insistia: “Verdade alguma pode ser toda, a verdade toda do que foi, é ou será, nunca, em tempo algum, ela se dirá”.

Talvez por isso Freud nos diga que a controvérsia teórica é infrutífera, ele, que não era lacaniano, mas inegavelmente se ocupava da verdade.

Precedida pelo Dr. Durval Marcondes, membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pelo Dr. Isaías Melsohn, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, pelo Dr. Fábio Hermann, membro associado desta mesma Sociedade, assim precedida, a minha fala é ocasionada pelo lançamento do Caderno Freud/Lacaniano nº 2.

Assim, queira ou não, é a questão do lugar que se impõe à minha fala, cujo lugar de enunciação é o daquele que, tendo se reconhecido no ensinamento de Lacan, reconheceu-o como mestre, à diferença dos que dele se separaram, primeiramente em 1953, através do que se cognomina Cisão, e dez anos mais tarde, em 1963, através do que, segundo o próprio Lacan, teria sido uma Excomunhão.

Cisão, do que é que nela se trata? Cisão na Sociedade Psicanalítica de Paris, onde em 1949 o grupo liderado por [Sacha] Nacht, então presidente da Sociedade, e apoiado por Maria Bonaparte, Serge Lebovici e a própria Anna Freud, apresenta um programa de cursos e um projeto de estatutos, assegurando-lhes tanto no Instituto como na Comissão de Ensino maioria absoluta. A ambição do programa e do projeto é que o diploma de psicanalista seja só para médicos. Segue-se uma série de fatos que, em 1953, precipita uma cisão. O grupo de psicanalistas e estudantes encabeçados por Daniel Lagache e Jacques Lacan se separa e funda a Sociedade Francesa de Psicanálise, que imediatamente solicita o reconhecimento e a afiliação à Associação Internacional de Psicanálise. Esta envia a Paris uma comissão presidida por [Donald] Winicott para investigar as atividades da Sociedade Francesa de Psicanálise, cuja demanda será recusada – imediatamente publicada pela Sociedade Psicanalítica de Paris, que a noticia, acrescentando o comentário de que a Cisão é devida aos “desvios técnicos” dos demissionários, particularmente de um deles, Jacques Lacan.

Dez anos mais tarde, a Sociedade Francesa de Psicanálise é reconhecida pela Internacional de Psicanálise através de uma negociação que consistia em trocar o reconhecimento pela exclusão de Lacan da Comissão de Ensino, fato que este comenta no Seminário XI, no capítulo intitulado Excomunhão:

“O meu ensino (…) sofreu, da parte de um organismo que se chama Comitê Executivo, de uma organização internacional, da chamada Associação Internacional de Psicanálise, uma censura que não é habitual, pois se trata aí de proscrever este ensino (…) e de fazer desta proscrição a condição da afiliação internacional da sociedade psicanalítica à qual eu pertenço. (…) afiliação que não será aceita a menos que se deem garantias de que o meu ensino não possa, através desta sociedade, entrar em atividade para a formação de analistas.
Trata-se aí de algo comparável ao que se chama em outros lugares excomunhão maior. Embora esta, nos lugares em que o termo é empregado, não seja nunca pronunciada sem a possibilidade do retorno. Sob esta forma, ela só existe numa comunidade religiosa (…) a sinagoga, e é propriamente disto que Espinosa foi objeto (…)”

Espinosa 1656, Lacan 1963. Excomunhão: uma história cujos efeitos se fizeram sentir na França pela fundação em 1964 da Escola Freudiana de Paris e nos outros países pela quase total ignorância do discurso lacaniano até bem recentemente; o ensino da psicanálise aí se restringindo ao das sociedades de psicanálise afiliadas à Associação Internacional de Psicanálise.

Tendo em vista a Cisão e a Excomunhão, eu me vejo na continência de perguntar o que teria levado os membros desta mesa a convergir num mesmo lugar.

Teria sido a ideia de que a história a que me referi não nos concerne senão remotamente? ou de que ela revela antes uma oposição de poderes irrelevante para a cura e a transmissão do saber psicanalítico?

Seja como for, o que funda o ensino lacaniano e dá sentido ao seu retorno a Freud é a crítica sistemática que Lacan fez aos desvios impingidos à descoberta freudiana, desvios que chegaram mesmo a levar em 1952 o Instituto de Psicanálise da Sociedade de Paris a propor como divisa do mesmo instituto uma citação que fazia da psicanálise um ramo da neurobiologia, como se a psicanálise não fosse função e campo da palavra e tivesse, afora a palavra, algum outro meio de operar, seja na cura, na formação ou na investigação.

Tendo sido considerada um ramo da neurobiologia, a psicanálise se quis ainda uma espécie de fenomenologia, esquecida de que o seu objeto não é a intencionalidade da consciência, mas o que falha no discurso do sujeito e dele faz o sujeito barrado do inconsciente, daquilo que, determinando o sujeito, escapa à intencionalidade da consciência, se manifesta no sintoma e se revela através do discurso. Ou seja, o sujeito que pensa e que se diz à revelia da consciência.

Neurobiologia, fenomenologia, a psicanálise nos Estados Unidos trilharia outro descaminho, concentrando-se na instância do ego para moldar o sujeito, transformando-se numa forma de exercício de poder, numa prática de human engineering, alvo principal da crítica que aciona o ensino lacaniano, cujo propósito é o de reencontrar o sentido da obra freudiana e indica de forma clara as posições teórico-práticas a que ele fará oposição.

Assim, ensinando, Lacan indica o risco do ecletismo, hoje já transformado em perigo nas tentativas vigentes até mesmo nas sociedades de psicanálise, de assimilar certas das teses lacanianas, negligenciando as que não se prestam a isso. É o caso, por exemplo, da assimilação da teoria lacaniana do imaginário destacada da topologia através da qual Lacan procura dar conta do sujeito, qual seja, a do RSI, do Real, do Simbólico e do Imaginário, topologia em que o Real é aquilo que falta ao seu lugar, senão o que se repete, e onde o Imaginário só encontra o seu sentido através do Simbólico.

Falar das perspectivas do movimento lacaniano, tema que me foi proposto, significa, pois, fazer a prevenção do ecletismo, mas significa ainda evocar que, no retorno a Freud, Lacan fez uso de vários dos saberes contemporâneos – linguística, topologia, antropologia –, para questioná-los a partir do campo freudiano, dar-lhes um sentido outro, e, através deles, criticar e pontuar devidamente o discurso psicanalítico originário.

Assim, eu diria que o movimento lacaniano deve, para encontrar as suas perspectivas, seguir a trilha antropofágica do mestre Lacan, servindo-se do seu inesgotável legado, o dom do que ele não tinha e tirou de si para transmitir, quer dizer, enviar além, como o desejo nos envia de um significante ao outro, para, de falha em falha, produzir a verdade do sujeito, verdade que se diz através da mentira e não tem como se dizer toda.

______
1. Conferência proferida na Escola Freudiana de São Paulo por ocasião do lançamento do segundo número do periódico Cadernos Freud/Lacanianos. São Paulo: Cortez Editora, 1979.