Literatura, memória e censura

Literatura, memória e censura

 

O “Lembra-te” de Hamlet e o do escritor
“Lembra-te” é o imperativo em torno do qual se estrutura o Hamlet de Shakespeare. “Lembra que eu fui traído”, diz o fantasma, que entra em cena para cobrar a vingança. E é porque Hamlet responde cegamente ao imperativo que ele mata e morre. O herói trágico é vítima do seu passado por não poder se distanciar dele, não focalizar a história de outro ângulo e, assim, iluminar os fatos de maneira nova (1).

À diferença de Hamlet, o escritor se lembra do passado para reinventá-lo, ele rememora para se liberar. Não obedece ao fantasma, modifica a história. Afasta de si a repetição através da rememoração. Desta água mortífera eu não bebo, diz ele, e, com isso, deixa aberta a porta da esperança.

Hamlet não escapa ao seu destino trágico, mas Shakespeare lhe dá a possibilidade de morrer na certeza de que um amigo, Horácio, continuará a servir a sua causa. Tudo está perdido e, no entanto, nem tudo, porque Shakespeare nos dá a entender que a ética da amizade é vitoriosa, a ética de que a literatura tanto depende. Joyce é um exemplo disso. Não fossem alguns dos seus alunos, ele não teria se instalado na Suíça – um país neutro –, durante a Primeira Guerra Mundial. E, sem o apoio de Margaret Anderson, o Ulisses não teria sido editado, tamanha a censura dos ingleses contra o livro.

A literatura e a censura
O escritor vive às voltas com duas censuras. Uma delas é social e a outra, intrínseca ao seu ofício. Pode-se afirmar que o fazer da literatura é o de quem atura a letra. Atura, porque a letra, se não a língua, pode cercear. O Graciliano de Memórias do cárcere sabia disso: “Liberdade completa ninguém desfruta: Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social” (2).

Ele, aliás, tanto sabia do seu cerceamento quanto do seu contrário e, por isso, escreveu que “nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos nos mexer” (3). Graciliano Ramos nunca duvidou do alcance do seu ofício. Por isso, opôs à memória curta dos contemporâneos a força da sua rememoração. Com esta ele mais fez o país do que os discursos rebarbativamente utilitários – para não dizer autoritários. Tanto fez o Brasil, impedindo que ele se esquecesse da sua história política, quanto a literatura internacional, porque foi um precursor. O Pavilhão dos cancerosos, de Soljenítsin, é bem posterior a Memórias do cárcere.

A utilidade da literatura
Mas de que serve a literatura, que não deve servir para nada que não seja a literatura?

Basta pensar nos tantos autores hoje perseguidos para se dizer que ela serve desservindo o absolutismo e favorecendo a liberdade. Ninguém ignora que o autor de Versos satânicos, Salman Rushdie, foi condenado à morte porque se autorizou a fazer com o Alcorão um romance, deu asas ao seu imaginário para escrever uma nova versão do texto sagrado e contestou assim a ideia de que existe uma única verdade sobre ele.

Se a literatura não pudesse desbancar os aiatolás, não haveria perseguição. E é ela que perdura precisamente por ser contrária ao dogmatismo, porque deixa a ambiguidade vigorar. Digamos que ela reconhece a autoridade da letra e faz pouco do autoritarismo do poder. Motivo pelo qual, em Bangladesh, os fundamentalistas condenaram Taslima Nasreen; na Argélia, cortaram a garganta de dezenas de escritores; no Cairo, financiaram o ataque que poderia ter custado a vida a Naguib Mahfouz, Prêmio Nobel de Literatura.

Os exemplos citados são relativos a países subdesenvolvidos. Nos países ditos desenvolvidos existe a suposição de que a literatura não serve para nada. A ideia que sustenta essa suposição é a de que basta viver numa democracia para ser livre. Mas isso não passa de uma fantasia, pois o discurso que nos forma – o da escola – e o discurso que nos informa – o da mídia – tendem a ser dogmáticos. O aiatolá está em toda a parte, enquadrando o sujeito e dele requerendo uma produção que não seja contrária aos dogmas. Por essa razão, o exemplo do escritor é essencial. Porque ele ousa imaginar espaços onde a irreverência é possível e a ambiguidade não implica a reprovação.

Com a Emília de Monteiro Lobato, nós aprendemos a não temer os doutores e o seu saber inacessível. O filósofo das suas célebres Memórias “diz coisas elevadas que os outros julgam que entendem e ficam de olho parado, pensando, pensando” (4). Emília ensina a fazer pouco da sisudez oficial e os poetas, a dar a entender poeticamente, sem explicar. Porque autorizam a escrever, por exemplo:

no meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drummond de Andrade

Não somos quem somos sem os nossos escritores. Graças a eles nos tornamos mais livres na relação com o saber e com a língua. O que seríamos sem Mario de Andrade? É possível que estivéssemos ainda telefonando a Lisboa para saber com se escreve e o que se pode escrever.

O que, aliás, é fundamental, porque é graças à literatura que escrevemos o que não se escreve nem através da ciência nem através da filosofia, por só vir à tona através do trabalho do escritor com as palavras. Não fosse uma das frases mais célebres de Shakespeare, o “My empire for a horse” (5), frase tão concreta quanto metafórica, nós não teríamos ciência alguma de um sentimento próprio à nossa condição, de um desespero em que todos podemos nos reconhecer – porque todo homem tem o seu império e o momento em que ele o entregaria para não morrer.

A literatura é tão necessária à liberdade quanto à reflexão sobre a existência. O “to be or not to be” de Hamlet – alternativa de que Oswald se valeu para fazer o “tupi or not tupi” – é estranhamente tão atual hoje quanto no tempo de Shakespeare. Quem não se coloca o to be or not to be num momento ou noutro de sua vida?

De maneiras diversas, todos somos como o herói shakespeariano. Nascemos de um pai e de uma mãe e estamos sujeitos aos imperativos dos ancestrais, tendo que dizer a eles sim ou não. Seja qual for a nossa nacionalidade, nós somos Hamlet, e as considerações dele sobre a condição humana servem para nos fazer pensar.

A literatura tem no Ocidente uma função que equivale à do budismo no Oriente, porque ela propicia a meditação. Como tão bem diz Paul Virilio, o urbanista-filósofo, há tantas Madames Bovary quantos leitores. Porque a literatura provoca imagens mentais, ela mobiliza o sujeito, ao contrário do cinema, que o desmobiliza por favorecer a identificação.

O Parlamento Internacional dos Escritores
Com Hamlet, nós podemos aprender que a ficção pode revelar a verdade. Ele então não recorre ao teatro para mostrar que não ignora o assassinato do pai? O recurso shakespeariano da peça no interior da peça mostra o alcance da ficção.

O título que, aliás, primeiro ocorreu a Proust para À procura do tempo perdido foi À procura da verdade. Isso porque, à sua maneira, a literatura está comprometida com a verdade. Por tal compromisso, a censura se abate sobre ela e os escritores são tratados como inimigos por aqueles que não suportam a produção de uma verdade diferente da sua.

Não tendo limites nem fronteiras, o espírito criador desconhece inevitavelmente a autoridade dos censores, e o artista, pela sua posição, está exposto à violência. Como diz Salman Rusdhie, na sua carta de princípios, “não é a arte que é fraca, o artista é que é vulnerável. A poesia de Ovídio sobreviveu; a vida de Ovídio foi miserável por causa dos poderosos. A poesia de Mandelstamm continua viva; o poeta foi assassinado pelo tirano que ele ousou nomear”.

A vulnerabilidade do escritor é incontestável; é por isso que ele hoje se mobiliza para se proteger.

Depois do assassinato, em 1993, de dezenas de intelectuais na Argélia, um grupo de 50 europeus e americanos fundou o Parlamento Internacional do Escritores, reivindicando a autonomia da literatura em relação aos diferentes poderes.

Salman Rushdie foi então convidado para presidir o conselho do Parlamento e redigiu uma carta de princípios. Diz nela que os escritores são os cidadãos de muitos países e a literatura se opõe à tirania: “Não de maneira polêmica, mas negando-lhe a autoridade, trilhando o seu próprio caminho, declarando-se independente”. Conclui afirmando que o Parlamento existe para lutar pelos escritores oprimidos e renovar incessantemente a declaração de independência, “sem a qual a escrita é impossível; e não somente a escrita, mas o sonho; e não somente o sonho, mas o pensamento; e não somente o pensamento, mas a própria liberdade”.

Os membros do Parlamento consequentemente têm como princípio da sua ação a liberdade relativamente aos diferentes poderes e ortodoxias, bem como o internacionalismo baseado no conhecimento e no reconhecimento da diversidade das tradições históricas.

Está associado a uma rede de cidades-refúgios que se solidariza com os escritores condenados ao exílio ou ameaçados nos seus países. Da rede fazem parte Almeria, Berlim, Caen, Estrasburgo, Goteberg, Stavanger, Valladolid, Swansea, Veneza, entre outras.

A importância dessas cidades-refúgios pode ser avaliada se considerarmos que Brecht, Thomas Mann, Fritz Lang, Schoenberg sobreviveram, nos anos 30, graças à acolhida dos Estados Unidos.

A política da rede, sugerida por Jacques Derrida, é a cosmopolítica, que implica uma resposta imediata das cidades ao crime, à violência e à perseguição a que estão sujeitos os criadores de muitos países – Argélia, Irã, Egito, Turquia, Nigéria, China… Uma resposta necessária diante da forma atual da censura, que já não é exercida pelo Estado, e sim por grupos de fanáticos assassinos, frequentemente anônimos.

Fazer parte da rede custa pouco e significa muito, porque implica a defesa da ideia de cidade aberta e de cidadania multicultural, conforme desejava Oswald de Andrade, que não nos queria perdidos no mapa-múndi do Brasil.

Por estar a 10 mil quilômetros de Estrasburgo, o Brasil não pode ser indiferente à questão levantada pelo Parlamento Internacional dos Escritores, que espera do nosso país a acolhida que ele pode dar. Pode e deve, para se enriquecer com o imaginário dos outros povos e enriquecê-los com os temas do seu imaginário mestiço. Para ouvir línguas que não são faladas aqui e para que a poesia da nossa língua seja ouvida noutras plagas. Para que o gênio da nossa cultura possa se espraiar e as escritas que estilizam a oralidade, se impor.

O Brasil deve uma cidade-refúgio ao Parlamento Internacional dos Escritores, porque é preciso encontrar o outro para aprender. Porque só o encontro dos que não são semelhantes leva ao exercício da tolerância, sem a qual não há liberdade e não há paz.

________
1. Conferência pronunciada na 7a Jornada Nacional de Literatura, Passo Fundo (RS), setembro de 1997.
2 Ramos, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 1972. p. 34.
3 Id. Ibid.
4 Lobato, Monteiro. Memórias da Emília. São Paulo: Brasiliense, 1959.
5 Shakespeare, W., Ricardo III.