Literatura e futebol

Literatura e futebol

 

Mas por que foi que me convidaram para falar sobre isso? O que tenho eu a ver com o tema? Foi essa a questão que eu primeiro me coloquei com estranheza e que eu só me dispus a responder porque o convite foi feito pelo Deonísio, que é um amigo único.

Uma proposta vinda dele não podia ser descabida, porque o amigo aponta o caminho que precisa ser trilhado, o amigo é sempre iluminado. E eu, que fui a primeira mulher a ter escrito um livro sobre o futebol no Brasil, precisava mesmo refletir sobre a relação entre o jogo e a literatura, depois de ter refletido sobre a relação entre a amizade e a literatura, uma relação sem a qual o nosso ofício – que implica a renúncia ao reconhecimento imediato – não existiria. Para se dar conta disso, basta ler a correspondência de Mario de Andrade. Ela ensina que o amigo é um protetor, ele ilumina quando a paixão nos cega. Ensina ainda que o amigo traz felicidade, porque respeita a sua liberdade e aceita a sua diferença.

A primeira vez que eu me debrucei sobre o tema futebol foi quando escrevi O país da bola, editado pela primeira vez em 1990. Com este livro, descobri que nós, brasileiros, privilegiamos o brincar. Por isso, o samba diz:

Com pandeiro ou sem pandeiro
Ê, ê, ê, ê, eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Ê, ê, ê, ê, ê eu brinco
Pedro Caetano/Claudionor Cruz, 1943

Nós tanto podemos abrir mão do pandeiro quanto do dinheiro por sermos capazes de improvisar o que desejamos, valendo-nos do que estiver ao alcance da mão. Os brasileiros de todas as classes sociais são escolados na improvisação, que pode mesmo ser considerada um traço cultural.

Essa tendência se manifesta claramente no Carnaval – nós recorremos ao que está no armário para fazer a fantasia. E ela se manifesta em todas as áreas da nossa cultura, cujo luxo é a imaginação, que nós brasileiros sempre valorizamos. As histórias infantis induzem a contornar o impossível, imaginando, e a realizar assim o desejo. “– Quer ir ao céu?”, pergunta o narrador de uma das histórias de Monteiro Lobato, já respondendo: “– Toma o pó de pirlimpimpim”.

Nós somos escolados na invenção e, por isso, o futebol brasileiro é particularmente criativo, produzindo jogadores capazes de fazer o impossível acontecer e propiciar continuamente a experiência da surpresa. Não seria preciso dizer mais para concluir que há uma relação entre o jogador de futebol e o escritor, cujo trabalho depende da imaginação e é surpreendente sempre que ele está comprometido com a literatura, e não com o mercado. Nós, escritores, fabricamos e distribuímos o pó de pirlimpimpim não para que as pessoas se afastem da realidade, mas para que elas se debrucem sobre a realidade com um olhar novo. Um olhar que só a literatura propicia.

Se eu não tivesse me debruçado sobre o futebol, que na década de 80 era um tema tabu para quase todos os nossos ficcionistas, eu hoje não saberia desse paralelo e também não poderia afirmar com convicção que o tema futebol é decisivo para a literatura brasileira – como prova a poesia inclusiva de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto, ou a ficção de José Lins do Rego e de Rubem Fonseca. Decisiva por causa da nossa paixão pelo futebol. Tamanha que o calendário esportivo pode servir para rememorar a data do casamento, como na briga de marido e mulher narrada por um radialista mineiro:

– Você só pensa em futebol. Vai ver que já nem lembra do dia do nosso casamento, diz a esposa.
– Claro que me lembro, véspera de um jogo entre o Santos e o Corinthians, jogaço: Santos 4 a 1.

Os homens brasileiros sabem de si pelo futebol, cujos fatos conhecem a ponto de descrever gols ocorridos décadas atrás, a formação da jogada, a reação do goleiro etc. O jogo aqui importa tanto quanto a vida, como é patente no seguinte diálogo:

– Você reza?
– Às vezes.
– Às vezes, como?
– Andando de avião eu rezo.
– E quando mais?
– Quando o meu time joga, o Botafogo.

O sujeito ora pela vida e pela vitória do time, que é a vitória da identidade. Ora para conjurar o risco da ferida narcísica que o fracasso imporia. Do jogo depende o próprio ser, que assim se diz no cotidiano através das expressões do futebol. Sentindo-se querido ou cobiçado, o brasileiro garante que o outro lhe “deu bola”. Tendo enganado o opositor, vangloria-se com o verbo “driblar”. Tendo se enganado, confessa que “pisou na bola”. Se excluído de atividade ou grupo, está “fora da jogada”. Se em dificuldades, mas com intenção de vencer, vai “derrubar a barreira” e então clama “bola pra frente”. Caso, no entanto, abra mão da luta, anuncia que “tira o time de campo”. Ameaça aposentar-se “pendurando as chuteiras”, seja homem ou mulher, presidente da República ou cantora de sucesso. O ex-presidente Jânio Quadros, quando eleito prefeito de São Paulo, então não mandou pendurar as suas no gabinete, para assim garantir que nunca mais se candidataria? Elis Regina declarou à imprensa que teria um dia a dignidade de “pegar a chuteira e pendurar, porque aí já era”.

A língua fez o football passar a futebol, deixando-se moldar por este. Já não bastaria isso para concluir que existe neste país uma relação essencial entre a literatura e o futebol? O jogo, indubitavelmente, nos espelha, e a literatura de um país é feita das paixões do seu povo. Entre elas, a maior talvez seja a paixão da bola, que é a nossa grande dama, a primeira. Seus embaixadores são os nossos ídolos e a estes queremos todos nos igualar, como evidencia o poema que Drummond escreveu durante a Copa de 1970:

Sou Rivelino, a lâmina do nome
Cobrando fina a falta
Sou Clodoaldo rima de Everaldo
Sou Brito e sua viva cabeçada
Com Gérson e Piazza
Me acrescento de forças novas.
Com orgulho certo
Me faço capitão Carlos Alberto
Félix, defendo e abarco
Em meu abraço a bola e salvo o arco 50
Carlos Drummond de Andrade

A literatura brasileira é indissociável do país da bola, que oferece ao ficcionista situações dramáticas, de comédia e até de farsa. Foi ele que deu, na Copa de 1950 – em que o Brasil perdeu para o Uruguai –, grandes páginas a Nelson Rodrigues e o comentário inesquecível sobre o pobre Barbosa:

O brasileiro já esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da gripe espanhola… mas o que ele não esquece, nem a tiro, é do chamado frango do Barbosa… Qualquer um com esse frango estaria morto e enterrado com o seguinte epitáfio: ‘Aqui jaz fulano, assassinado por um frango’.

Foi o futebol que me deu o sonho das minhas personagens. Masculinas e femininas. João, o publicitário do romance O clarão, ama Alegria, um jogador que Garrincha inspirou, como se pode deduzir do texto:

Por ter uma perna mais curta do que a outra e as duas tortas, poderia ser chamado Aleijão, mas pelo modo como joga é Alegria. Do corpo que pende mais para um lado, ele se serve para dar a impressão de que vai chutar. Vence desnorteando o adversário. Dribla um depois do outro até, enfim, o próprio goleiro. Apesar de defeituoso, leva sempre a melhor. Como se fosse um mágico, oferece a ilusão de que o impossível se tornou possível. Com ele, o estádio ri. Sobretudo porque Alegria brinca com a bola, com ela faz embaixadas, uma, duas, três… Chama-a de você e a acaricia como se fosse a namorada. Vendo o jogador, a plateia segue para um país onde a brincadeira conta e o dinheiro não pode tudo, o país da bola.

No romance O Papagaio e o Doutor, a empregada doméstica, que é decisiva para Seriema, a personagem central, é apresentada da seguinte maneira por ela:

Mulata enérgica e melíflua, presença discreta oferecendo-me o silêncio e o ritmo do corpo se não desafiasse a tristeza com suas canções, a única da casa que prodigalizava sem cobrar os prazeres e também incitava a menina a imaginar, contando histórias em que o príncipe encantado era jogador de futebol.

Seriema ama a empregada, que ama o jogador de futebol e com ela se identifica, como mostra o texto em que Seriema se questiona sobre o Doutor, com quem ela se analisa:

Que homem, o Doutor? Que doutores enlouquecedores, os homens? Até quando estarei sujeita a ele? a não saber me decifrar. Dorme, Seriema, que a resposta virá.
– Uma castanha? oferecia um desconhecido no meu sonho. Por que não esta noz? perguntava outro, e eram dez homens comigo nas nuvens, jogadores de futebol a me cortejar. Por que não uma avelã? A pêra ou a maçã? A manga talvez? Sapoti, laranja, carambola, mexerica ou abacaxi. O divino festim!
– Onze. Um time nós formávamos e, porque estivéssemos no céu, lembrei dos anjos do meu dia.
– O jogador, o anjo, a criança, associei depois de ter contado o sonho ao Doutor.
– Sim, mas e daí?
– Queria ter filhos em número suficiente para um time de futebol. Dez, por não ser possível ter um. Isso ao Doutor pareceu evidente.
– O que mais? insistiu ele, induzindo-me a dizer o que eu sabia.
– O que dizer?
– Ora, o que bem a senhora quiser
– Verdade que eu não imagino o pai da criança
– O pai… Isso aí, minha cara, é bem isso, repetiu o Doutor me despedindo.
O filho… a ele eu devia o pai. Dessa dívida se tratava. Gerado no meu ventre mas nomeado por outro.

A referência ao futebol é uma constante no meu trabalho, e isso eu descobri graças ao convite do Deonísio [da Silva], um escritor que lê e ama os seus conterrâneos como ele ama as palavras, cuja vida íntima ele continuamente nos descortina.

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1. Conferência proferida na Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, em agosto de 2004