Joyce e Lacan

Joyce e Lacan

 

Por quê? Mas por que foi que Joyce interessou a Lacan, que focalizou a escrita joyciana num seminário cujo título é Joyce, o sintoma? (1)

Resposta: Porque a estrutura do sintoma é a estrutura da linguagem. Não a da linguagem falada, mas a da linguagem escrita. Ou seja, o sintoma é uma escrita. Mais precisamente, o sintoma é o gozo de uma escrita e o sintoma só pode ser analisado quando o sujeito não se identifica com ele. Claro, imaginem alguém que lava compulsivamente as mãos 20 vezes por dia, mas considera que fazer isso é uma necessidade. Óbvio que esta pessoa não poderá ser tratada. O único sintoma que pode ser tratado é o que incomoda.

Se eu me refiro aqui à questão da identificação ao sintoma, é porque ela é fundamental. Joyce se identificou inteiramente ao seu sintoma de escrever, e, por isso, segundo Lacan, Joyce não é analisável. Lacan diz e reafirma isso. Vai mais além e conclui que Joyce é a própria encarnação do sintoma. A prova disso é o Finnegans Wake, o texto ilegível que Joyce passou 17 anos escrevendo.

A estrutura do sintoma é uma das razões pelas quais Lacan se interessou por Joyce, porém, há outras. Surpreendentemente, Joyce, como Lacan, se interessa pelo sintoma que determina a literatura dele. Em Os dublineneses ele põe em evidência a paralisia geral que afasta a população da sua cidade natal e, a propósito deste livro, ele declarou: “Quero que a série Os dublinenses revele a alma da paralisia ou da hemiplegia que muitos consideram uma cidade”.

Lacan se interessa por Joyce tanto por causa da estrutura do sintoma – que é um grande capítulo da psicanálise – quanto pelo interesse que Joyce tem pelo sintoma. Interesse que leva Joyce a utilizar o termo revelação. Do romance, o que ele espera é a revelação. E é também por isso que a escrita automática tem importância na sua obra. Como vocês sabem, a escrita automática é e por isso ela propicia a manifestação do inconsciente, a sua revelação. O primeiro texto de escrita automática é de 1919 e foi escrito por Breton e Soupault. Chama-se Les champs magnétiques.

Joyce, o sintoma é um seminário que Lacan deu em 1975. Era o segundo ano que eu estava na França trabalhando com Lacan, e tive o privilégio de assistir às apresentações em que ele se entregava à palavra como quem espera a revelação. Sobre isso, aliás, ele tinha um ponto de vista bem claro. Considerava que o analista não deve falar em público como o professor, que se apresenta com um saber já constituído. Para Lacan, o analista devia falar deixando-se conduzir pelo seu não-saber, exatamente como procede no consultório. Essa posição tanto implicava, no Seminário da Faculdade de Direito, a espera do público quanto a coragem do lapso e do ridículo. Lacan nos ensinava no Seminário, como Joyce ensina no seu texto, a esperar para saber e nós nos entregávamos à escuta, independentemente do quanto nós compreendíamos, capazes de adiar o momento de compreender, como o leitor de Joyce. O procedimento de Lacan se equiparava ao de Joyce, que ele conheceu com a idade de 17 anos – e com certeza o amou.

Na primeira aula de Joyce, o sintoma, Lacan diz que Joyce teria se reconhecido no título do seu Seminário. Porque Joyce, que sempre quis ser alguém cujo nome sobreviveria para sempre, queria encarnar o sintoma. Sendo a encarnação do sintoma, ele ficaria reduzido a uma estrutura e escaparia à morte.

Para se imortalizar, Joyce inventou uma língua, a joyciana. Que língua é essa? O inglês de Joyce, que não pode escrever no gaélico, uma língua que estava morta. Joyce escreveu na língua do opressor, porque a Irlanda estava sob a dominação do Império Britânico – por um lado, do Império Britânico e, por outro, da Igreja Católica Apostólica Romana, ele dizia. Mas Joyce escreveu na língua do opressor de uma maneira tal que essa língua deixou de existir para dar lugar a outra, a língua poética de Joyce, que todo ano é ouvida nas comemorações do Bloomsday, que eu cobri em 2002 para a Folha de S. Paulo.

Como Bloomsday é um dia mágico na história da cultura ocidental, eu me permito fazer uma pequena digressão e falar do que eu vi em Dublin nesse dia. Tudo na cidade evoca Joyce, que se exilou, mas só escreveu sobre a cidade natal. A ponto de afirmar que, se Dublin fosse destruída, poderia ser inteiramente reconstruída a partir da sua obra. Tudo evoca o artista, porque, para Joyce, a arte não se separa da vida. Os lugares que ele menciona em sua obra são lugares que de fato existem.

Assim, a torre do primeiro capítulo do livro, onde se passa a cena entre Stephen Dedalus, Buck Mulligan e Haines, é Martello Tower, construída em 1804 para defender a cidade e transformada em 1962 no Museu de Joyce por Sylvia Beach, editora do Ulisses. Nessa torre, Joyce (Stephen Dedalus) esteve com Gogarty (Buck Mulligan), um poeta amigo seu, e com Trench (Haines), amigo de Gogarty, que ameaçou o escritor com um revólver, obrigando-o a se retirar. Joyce viveu a experiência que inspirou o primeiro capítulo do seu grande romance, cujo cenário se encontra reproduzido no museu.

Outro exemplo da conexão estabelecida pelos dublinenses entre a obra e a vida está no James Joyce Centre, uma casa tombada, porque nela morou Maginni, professor de dança extravagante – usava chapéu de seda, luvas amarelas e sapato de ponta fina –, que é citado seis vezes no Ulisses. Nesse centro, além das fotos da família do escritor e do mobiliário de sua casa, estão as fotos das pessoas de Dublin que inspiraram os personagens dos livros.

Quem vai a Dublin e vê isso tudo se pergunta por que Joyce é tão popular. Sobretudo se considerar a dificuldade que o escritor teve para sobreviver e ser publicado. Os dublinenses, que ele acabou em 1905, só foi editado – por sua conta – em 1911, e a edição, antes mesmo de ser distribuída, foi queimada por um desconhecido. Ulisses, publicado no ano de 1921 em Paris, foi imediatamente censurado na Inglaterra e nos Estados Unidos “por se tratar de obra pornográfica”.

A resposta para a popularidade de Joyce pode ser encontrada na vida e na obra dele. A única moral de Joyce foi a independência – como, aliás, a moral de Dublin, que só pode mesmo se reconhecer nele. O escritor se valeu “do exílio, da astúcia e do silêncio” para produzir a sua catedral de prosa, com ela se opor à Irlanda, de que não gostava, e ser depois aceito e cultuado pelos irlandeses.

A melhor prova disso é Bloomsday. Trata-se oficialmente do dia de Leopold Bloom, ou melhor, da comemoração do dia em que o personagem de Joyce vive e revive no Ulisses a história do escritor: 16 de junho de 1904. Oficiosamente, Bloomsday é o dia em que Joyce viu os olhos azuis de Nora. É a comemoração do encontro do escritor com sua musa, a mulher de Galway. Hoje, a festa é celebrada em diferentes países e em duzentas localidades, porque também é a data universal do amor que floresceu – that has bloomed.

Nesse dia, Molly, a esposa escandalosa de Bloom, também está no centro dos acontecimentos, e o seu célebre monólogo é rememorado nos teatros, nos auditórios, nos bares, nas ruas e nós ouvimos: “ele me pediu perguntou se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e eu primeiro pus os meus braços em volta dele sim e puxei ele para ele sentir os meus peitos todos perfume sim e o coração dele batia como louco e eu disse sim, eu quero sim”.

Molly não está no centro dos acontecimentos por acaso, mas porque esta personagem, como nenhuma mulher do seu tempo, expressou livremente o desejo do gozo e não dissociou o sexo do resto da vida, entregou-se ao fluxo da sua imaginação, fazendo tão pouco das convenções sexuais quanto Joyce das convenções literárias.

Molly não cantou o amor, talvez porque na Irlanda a relação entre os homens e as mulheres – sempre às voltas com o medo da concepção e a proibição do aborto – não pudesse ser boa, mas fez a liberdade ressoar nos quatro cantos do mundo, dando-nos uma possibilidade que nós até então não tínhamos. Por exemplo, de confessar o adultério: “vou pôr a minha melhor combinação e calcinha deixando ele dar uma olhada para fazer o pirulito dele ficar em pé e vou deixar ele saber que a mulher dele foi fodida sim diabo bem fodida até quase o pescoço e não por ele 5 ou 6 vezes sem desgrudar lá está a marca do esperma no lençol limpo eu não me incomodaria de passar a ferro pra tirar isso devia contentar ele se não me acreditar sente a minha barriga sente a menos que eu faça ele ficar em pé e meter em mim eu tenho a intenção de contar a ele cada coisinha e fazer ele fazer na minha frente servindo a ele tudo direitinho é culpa dele se eu sou uma mulher adúltera”.

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1. Conferência pronunciada no Centro Cultural Banco do Brasil, Programa Psicanálise & Literatura, Brasília, 28/11/2008.