Identidade e imigração

Identidade e imigração

 

Como falar em português a um público de hispanófonos quando a experiência que eu tive no Brasil me mostrou que os argentinos não entendem bem a minha língua? Infelizmente, não sei falar espanhol e o que me resta é falar em português. Até certo ponto, eu sou vítima dos preconceitos da minha geração, que nasceu e cresceu voltada para os Estados Unidos e para a França. O que contava para nós era falar o inglês e o francês.

O meu tema de hoje, Identidade e Imigração, é vasto e eu prefiro abordá-lo a partir do livro que me trouxe aqui, um romance que eu escrevi na década de 80, e publiquei no Brasil, na França e na Argentina na década de 90. O romance se chama O Papagaio e o Doutor (El Loro y el Doctor) e ele faz a sátira de uma latino-americana, a Seriema, que nasceu e cresceu, como eu, voltada para os Estados Unidos e para a França. Uma brasileirinha que só concebe a sua existência imitando os doutores estrangeiros, sendo um verdadeiro papagaio.

Seriema, a heroína do livro, é neta de imigrantes libaneses estabelecidos no Brasil. No romance, ela rememora a história dos seus ancestrais e a sua análise com um célebre doutor parisiense, um doutor inspirado em Jacques Lacan, com quem eu mesma me analisei nos anos 70.

O divã do psicanalista permite ao leitor descobrir o drama universal da imigração e os seus efeitos. Seriema se pergunta se a imigração é um ganho ou uma perda, se é preciso ou não renegar as origens para se integrar no novo país quando se é filho de imigrante.

Por ser um romance sobre a imigração, O Papagaio e o Doutor é feito de fragmentos. Para explicar o porquê disso, vou contar a vocês uma história da Cabala, que me foi contada por Alicia Dujovne Ortiz, autora de Eva Perón e tradutora argentina do Papagaio.

A Cabala procurava dar um sentido ao sofrimento dos judeus expulsos da Espanha, afirmando que eles tinham uma missão: a de recolher as centelhas que teriam se dispersado pelo mundo quando uma cabaça de luz, existente na origem, se quebrou. Para a Cabala, o exílio não era um sofrimento, e sim uma missão. Cabia ao exilado recuperar as centelhas por não encobrir a verdade.

Sendo descendente de imigrantes, eu precisava recolher centelhas e ainda deixá-las existir enquanto centelhas para não encobrir a verdade. Foi o que eu fiz, e o resultado foi um livro composto de fragmentos.

Tal estrutura fragmentária é decorrente da imigração dos meus ancestrais, mas ainda das minhas origens latino-americanas. A história do Papagaio e o Doutor é narrada através de um ziguezague contínuo, que fragmenta a narrativa, um ziguezague do passado da imigração para a análise na França. Trata-se de um modo oblíquo, que é o modo da escrita barroca, privilegiada por nós, latino-americanos. O modo oblíquo é o modo do tango e do samba, que correspondem a duas maneiras inclinadas de se comportar na terra, como tão bem disse Alicia Dujovne Ortiz.

Isso posto, eu passo à questão da identidade e da imigração, questão em torno da qual o romance todo gira. O que foi que ele me ensinou? Percebi que o imigrante quer esquecer o passado. Isso porque a imigração é um drama por causa da separação real que ela implica e que fere a primeira, a segunda e a terceira gerações.

Inúmeras são as consequências dessa ferida.

A primeira consequência é que o imigrante se quer esquecido da travessia, quer ignorar a todo custo o preço da imigração. Quer que o passado seja o prólogo do futuro e, consequentemente, sonega a história, não a conta para os descendentes.

Para que esta recusa da história, que é uma forma de automutilação, seja exclusivamente a história do ancestral imigrante, para que os descendentes possam ter um passado, é preciso que eles reinventem um passado que seja o deles. Sem esta reinvenção, não poderão se tornar seres completos, seres que têm um passado próprio, um presente e um futuro. É isso também que a minha heroína compreende.

A segunda consequência da imigração está na relação ambivalente que o imigrante tem com o seu novo país. Lega o novo país para os descendentes, recusando-se a amá-lo verdadeiramente. Ele guarda a nostalgia da pátria perdida. Dá para os filhos uma nova terra, deixando passar a ideia de que a terra verdadeira é a que ele abandonou. Sua descendência, portanto, pode ser subjetivamente apátrida. Inclusive a terceira geração sofre com esse estado de coisas. Ela se pergunta se deve ou não se identificar com os avós para os quais o país bom é o que eles deixaram. Assim é para Seriema, a heroína do romance, cujos ancestrais fizeram a América exaltando o Líbano natal e desprezando os nativos do Brasil.

A terceira consequência da imigração é a relação conflitiva do imigrante com o novo país. O imigrante tende a desprezar as pessoas do país de chegada, porque elas são diferentes dele e porque o desprezam por causa da sua diferença. Noutros termos, tende a ser xenófobo, apesar da xenofobia de que é vítima.

O descendente de uma imigração vive, portanto, dividido entre o desprezo que lhe foi transmitido e o desejo de amar e de ser amado pelos seus compatriotas. Ele é quase sempre conduzido a dissimular as suas origens e a se mostrar xenófobo. O recurso à analise pela Seriema, a heroína do romance, permite a ela descobrir que o ódio de si não é necessariamente o preço da integração, que não é preciso esquecer as origens para se integrar.

O romance mostra que a cultura da mestiçagem permite evitar as intolerâncias e abrir novos espaços. Pode-se constatar através dele que o Brasil é um país moderno, porque todas as crenças são autorizadas e ninguém é condenado pela sua religião: um quase continente em que há todas as religiões e que é contrário aos tabus.

O Papagaio e o Doutor faz pensar nos propósitos do escritor da Martinica, Édouard Glissant, para quem o imaginário deve se enriquecer pela repetição dos temas da mestiçagem e do multilinguismo.

O recurso à análise como instrumento narrativo permitiu isso, fez ver como uma heroína que tem vergonha das origens e de ser mulher é capaz de superar o seu drama e de amar o seu país, de descobrir a América.

Noutros termos, a análise permitiu colocar em cena um sujeito que aceita a sua condição de mestiço cultural. Graças ao divã, a heroína escapa à repetição e assume um futuro redefinido como uma nova memória do passado.

Seriema parte de uma “tabula rasa“, de uma megalomania em que ela se “toma por origem e fim de tudo”, parte de um mundo interior em que “a história não existia”. Rememora e passa pela etapa de desconstrução de uma falsa identidade transmitida por uma “tribo insegura de si mesma”. Ela termina, ao se separar do Doutor, reconciliando-se consigo mesma e com seus ancestrais. A análise é o elemento revelador da capacidade progressiva que a personagem-narradora tem de dominar a sua história.

No fim do processo, ela renasce mestiça, turca, brasileira, sem mais vergonha de ser quem é: “inculta e mais para a cor da oliva”. E, pela compreensão do seu passado, quer dizer, da errância e das loucuras dos avós, chegará a assumir um futuro redefinido como “uma nova memória do passado”, um futuro sobre o qual não pesa a repetição absurda e o autocegamento.

Noutras palavras, como diz Michèle Sarde, no posfácio do livro, Seriema vai procurar sua alma na capital do espírito e descobre que esta se encontra no seu país de origem e o espírito paira em todo lugar.

Depois de muitos anos de análise em francês, na língua do Doutor, a personagem proclama a sua aliança com a língua materna, “a língua bendita do ão”, e alega como motivo legítimo de sua partida a língua, que era para o Doutor o maior dos tesouros, o maior bem.

Na viagem que Seriema faz no divã, através de épocas e continentes, ela decola na língua em que os seus mestres a ensinaram a papaguear. Fica sabendo depois, no francês, na língua do Doutor, do branco que o francês lhe dava, do sufoco diante da impossibilidade de encontrar as palavras para dizer. Seriema fica sabendo do desenraizamento e da separação, da expulsão e do banimento, da exclusão e da excomunhão que estão no começo das origens. Finalmente, das palavras para dizer, se dizer e começar a existir.

Primeiro, topou com as palavras “como anteparos” que lhe barravam o caminho e obstruíam a vista. Reconquistou ao fim a sua “língua quase cantada, que se deixava livremente influenciar pela melodia da terra”. A língua do Doutor serviu para que ela reencontrasse a sua.

E a doce reconquista da língua materna se ajusta a uma outra tomada de consciência: a de que a língua estrangeira, o francês do Doutor, era um véu que servia de máscara. Foi para dissimular a si mesma, a sua identidade de mulher, que Seriema escolheu um analista que ignorava a sua língua – foi “escolhido… não pelo que pudesse saber, mas pelo que forçosamente havia de ignorar”.

______
1. Conferência proferida no lançamento de El Loro y el Doctor, Buenos Aires, 3/05/2000.