CLÁUDIO WILLER

CLÁUDIO WILLER (1)

 

Na Livraria Siciliano da avenida Paulista há um cartazete promocional de O Papagaio e o Doutor afirmando tratar-se de “uma sátira mordaz sobre como não deve ser a relação entre um analista e seu paciente”. Quem tiver comprado o livro pensando em se entreter com histórias de trapalhadas entre psicanalistas e pacientes ficará frustrado. Em compensação, quem quiser saber o que uma relação analítica profunda tem a ver com temas como a identidade cultural e nacional, a criação literária e a linguagem ficará plenamente satisfeito com sua escolha. E terá a confirmação de algo já sabido por quem se debruçou seriamente sobre esse campo e suas relações com a criatividade: a psicanálise não termina na despedida entre o analista e o seu paciente. Ela passa a fazer parte da vida, alimentando o imaginário e a produção simbólica do ex-paciente. No caso de Betty Milan, o que ela relata em O Papagaio e o Doutor está, visivelmente, na gênese de sua produção ensaística e ficcional posterior. Perguntas sobre sua própria identidade, seu país e o sentido da linguagem alimentam a investigação que originou seus livros sobre o amor, a cultura brasileira, o Carnaval e o futebol, entre outros temas.

Sob esse aspecto, esta obra semificcional e semidocumental opera uma inversão cronológica, pois relata e interpreta o que aconteceu antes dessa sua produção literária mais sistemática e consistente. Além disso, efetua uma inversão de perspectiva. Nos estudos de caso, quem conta o que aconteceu é o analista. Aqui, numa combinação de depoimento, ensaio e narrativa alegórica, são relatadas interpretações, por sua vez objeto de um segundo nível de interpretação, de indagações sobre o que aconteceu. A mudança de perspectiva é acentuada pelo tratamento estilístico, que inclui uma sintaxe particular, e pelos pseudônimos, que talvez nem mesmo fossem necessários (Brasil como Açu, Líbano como Cedro, Jacques Lacan como Xan, a própria Betty como Seriema etc.).

Boa parte da narrativa é um encadeamento de sonhos reveladores. Em um deles, prolongamento da sessão, a protagonista viaja “de tapete mágico até o perdido idioma” (2). Esse tapete mágico se desloca, ao longo do livro, em diferentes direções, na busca desse paraíso perdido: para o passado, a reconstituição da infância e da constelação familiar de imigrantes libaneses, e, mais para trás ainda, para as origens culturais reconstruídas em uma fusão de fatos biográficos, sonho e fantasia. O percurso analítico vai se revelando como busca do impossível, da utopia inatingível, do não-nomeado que, ao mesmo tempo, sendo dito na análise ou no texto, passa a ser mediado pelo signo: “Gerar sem dar o nome. Acaso podia?” (3).

Nesse sentido o Papagaio do título é uma metáfora reveladora. Em uma primeira instância, seria a imagem do intelectual periférico, repetindo o que é dito, o discurso dos centros avançados. No entanto, em uma passagem do livro, aparece a imagem do eco, da palavra repetida e devolvida a seu emissor. Ou seja, todos — a protagonista, seu analista e os demais interlocutores, reais ou imaginários — são papagaios, devolvendo o já dito, no lugar da revelação do sentido do signo, do que está além do simbólico.

Por mais que o texto esteja impregnado de conceitos do próprio Lacan, em sua interpretação podem ser usadas idéias de outro pensador de formação freudiana, Norman O. Brown, o autor de Life Against Death, que fala, nessa obra, da “linguagem adâmica”, primordial, anterior à Queda, quando as coisas correspondiam a seus nomes e o ser humano estava integrado ao mundo, no mítico Paraíso Perdido. O “idioma perdido” que Betty procura é essa linguagem adâmica — tanto assim que o final da análise corresponde ao movimento de saída do labirinto de signos, à substituição do Logos por Eros, ao início da busca do “corpo para o gozo do meu sexo, o gozo sem interdição, o sexo sem saciedade e as palavras todas para das vergonhas tirar o véu…” (4). No entanto, arrancado o véu da linguagem, por trás dele surgem outros tantos véus, equivalentes às etapas da investigação literária de Betty Milan, onde cada obra é sempre um gesto de ruptura e provocação, na busca do sentido dos símbolos e da realidade por eles mediada.

 

 

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(1) “As últimas do Papagaio contadas por seu analista”, artigo publicado no Jornal da Tarde, a 7.9.1991, por Claudio Willer, poeta, ensaísta e tradutor, autor de Os jardins da provocação (Massao Ono) e Volta (Iluminuras), entre outros.
(2) MILAN, Betty. O Papagaio e o Doutor. São Paulo: Siciliano, 1991. p. 127.
(3) Id. Ibid., p. 150.
(4) Id. Ibid., p. 193.