Brasileira de Paris

Brasileira de Paris

brasileira-de-parisSylvia Prado (Flor), Teatro Oficina, São Paulo, 2008.


trecho

No teatro, a nacionalidade não importa, a liberdade reina e eu estarei longe deste teatro de loucos que é a vida. Todos se contradizem e ninguém se entende. Cada um falando uma língua diferente, verdadeira torre de Babel. O que eu quero é me entregar ao drama de uma peça de verdade, e não mais ao drama da vida. E, no palco, eu nunca serei tomada por louca pelo fato de ser livre. Serei livre simplesmente.


resumo

Como o título sugere, a peça trata da vida de mulheres brasileiras que vivem em Paris. A protagonista, Doroteia, interrompeu a carreira de atriz no Brasil para  se casar com François. Tem um amante, cujo nome é  Fio. Doroteia contracena com outra brasileira, Flor, a concièrge, zeladora do prédio, originária de Fortaleza, que se ocupa da limpeza de seu apartamento. Flor é casada com Manoel, português radicado em Paris, e também tem um amante, Mon Chéri. Numa alusão às comédias de costumes e ao teatro burlesco, as duas mulheres encontram seus amantes no mesmo lugar, o Hotel des Mauvais Garçons.

Embora François e Manoel também tenham amantes, estas não aparecem em cena. A peça apresenta, portanto, dois triângulos, cada qual composto de uma brasileira em Paris, seu marido e seu amante. Mas os vértices desses triângulos têm sinal ou valor oposto, pois François e Manoel apresentam condutas diametralmente antagônicas. François é um libertino no sentido clássico e, por sê-lo, defende a liberdade de conduta – a própria e a alheia – sendo indiferente ao fato de a esposa ter ou não outros parceiros amorosos. À diferença de François, Manoel é um alcoólatra machista, que chama a esposa de puta e, diante da menor contrariedade, bate nela.

A ação da peça, o enredo propriamente dito, corresponde ao modo como os triângulos se desfazem. François se separa de Doroteia para ficar com a amante. Manoel morre, depois de espancar Flor brutalmente, num paroxismo de fúria. Com a morte de Manoel, o amante de Flor, Mon Chéri, desaparece.

Desiludida, Doroteia aceita um convite para fazer o papel de Sarah Bernhardt e retoma sua carreira de atriz no Brasil. Assim, não estará mais presa ao papel social de esposa e já não  viverá limitada a ser uma só, porque pode se multiplicar nos personagens. A volta ao teatro significa a sua liberação.

A peça tanto recusa  a ideologia do libertino, que é contrária ao amor,  quanto a ideologia machista, que desautoriza o desejo feminino. Termina fazendo um contraponto entre o teatro de loucos da vida e o verdadeiro teatro, que descortina uma outra cena e irradia luz.

A peça tem dois atos e foi escrita para cinco atores: Doroteia, atriz de teatro; François, marido de Doroteia; Fio, amante de Doroteia; Flor, faxineira de Doroteia; e Mon Chéri, amante de Flor.


histórico

Brasileira de Paris é a primeira peça de Betty Milan feita diretamente para o teatro. Foi escrita em 2005 e lida no Dia Internacional da Mulher, 8/03/2006, no Auditório da Folha pelo elenco do Teatro Oficina com direção de Marcelo Drummond. Depois, houve nova leitura em 23/01/2007 no Teatro Oficina por grande elenco e sob a mesma direção (fotos).