Betty Milan

 

Nasce em 1944 no centro rico de São Paulo, mas passa a primeira infância em Vila Esperança, um bairro da periferia. Talvez por isso tenha se interessado pela cultura popular e vivido entre dois países, a França e o Brasil, a partir dos 30 anos, indo de um para outro continente.

Aos 18, presta vestibular e entra na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que cursa com o projeto de se tornar psiquiatra. Dedica-se também às humanidades e frequenta, como ouvinte, vários cursos na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, onde conhece grandes intelectuais franceses, como Michel Serres, Michel Foucault e Gérard Lebrun, que despertam nela o desejo de se aprofundar na cultura francesa.

Já formada, em 1968, começa a especialização em psiquiatria, estagiando, no Brasil, em diversos hospitais – inclusive no Juqueri, uma das mais antigas colônias psiquiátricas do país, situada em Franco da Rocha (SP) – e, na Escócia, numa comunidade terapêutica dirigida pelo psiquiatra Maxwell Jones. Simultaneamente, estuda psicodrama e psicanálise e se exerce, como aprendiz, nessas duas práticas.

Em 1969, encontra Zerka Moreno num Congresso de Psicodrama em Buenos Aires e em dezembro do mesmo ano vai estudar no Moreno Institute em Beacon, no estado de Nova York. Trabalha diretamente com Zerka no Public Theater of New York. De volta ao Brasil, escreve O jogo do esconderijo. Neste livro, questiona o psicodrama pelo que pode haver nele de voluntarista, já manifestando o espírito crítico que a caracteriza.

Aos 29 anos, defende tese de doutoramento em psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e, um ano depois, em 1974, vai para a França se analisar com Jacques Lacan, de quem logo se torna tradutora e assistente na Universidade de Paris VIII.

O encontro com este grande mestre é para ela um marco decisivo, pois aprende a não imitar o mestre e a valorizar a própria singularidade. Deste ensinamento resultou, em 1991, um romance, O Papagaio e o Doutor, que foi traduzido para o francês (1997) e para o espanhol (1998) e teve impacto em vários países – Brasil, Portugal, França, Bélgica, Líbano, Argentina. Possivelmente pela independência que ele preconiza em relação ao mestre e aos ancestrais.

Pouco antes de terminar sua formação em psicanálise e voltar para o Brasil, em 1981, escreve um primeiro romance, O sexophuro, que é saudado pela crítica paulista. Com ele, se inicia na via literária.

A estada na França, de 1974 a 1978, tanto possibilita a especialização na psicanálise quanto o aprendizado da cultura francesa. Faz também sonhar com o país natal e desperta um interesse novo pela sua cultura. Assim, ao se radicar no Brasil, além de formar psicanalistas e de clinicar, realiza uma pesquisa sobre o Carnaval e ensina simultaneamente no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro – uma associação fundada em 1975 por ela juntamente com o também psicanalista Magno Machado Dias, que desempenha importante papel na difusão da teoria lacaniana. Da pesquisa nas escolas de samba no Rio de Janeiro resulta, em 1988, Os bastidores do Carnaval, livro precursor, porque pela primeira vez no Brasil o discurso dos carnavalescos é levado a sério. Graças a esse trabalho, ela conhece Joãozinho Trinta, que lhe fala da cultura do brincar e a leva a fazer desta um conceito, a mostrar o quão importante é o brincar para o Brasil. Tanto quanto o humour é para a Inglaterra e o droit para a França.

Betty Milan vê no brincar um recurso civilizatório e uma marca da cultura brasileira. Por isso, no ensaio que escreve sobre o amor, diferencia a paixão do amor à maneira de Tristão e Isolda da paixão do brincar, que é o amor à brasileira, e encontra sua melhor expressão no romance Macunaíma, de Mario de Andrade. Esse ensaio, publicado em 1983 na Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense com o título O que é o amor, é extremamente polêmico e se torna objeto de mais páginas na imprensa do que as páginas escritas pela autora. Posteriormente, um dos capítulos do livro, que se tornou best seller, é adaptado para o teatro. A peça, Paixão, interpretada por Nathalia Timberg em quase todos os estados do Brasil, sob a direção de Wolf Maia e com música de Júlio Medaglia, é também gravada e lançada em CD com o selo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

Em 1985, participa de um congresso organizado pelo Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, que reúne no Copacabana Palace intelectuais brasileiros de todas as áreas do conhecimento e tem Gilberto Freyre como convidado de honra. O evento é encerrado com o texto “A Psi do Zil” – hoje parte do volume Isso é o país –, que foi importante para o desenvolvimento de obra posterior de Betty, em particular o romance O Papagaio e o Doutor. A seguir, ela vai novamente para a França, mas agora com o intuito de escrever.

Paris já não é a cidade da formação em psicanálise, e sim a do exílio voluntário da escritora. E o primeiro livro é o mencionado O Papagaio e o Doutor, que narra a saga da imigração libanesa no Brasil e o encontro com um doutor que só Jacques Lacan poderia ter inspirado. Trabalha dez anos no livro, porque, depois de escrever o original durante cinco (1986 a 1991), faz a adaptação do texto para o francês e acompanha a tradução (1992 a 1997). Depois da adaptação, escreve em português uma segunda versão do livro, que é publicada pela Editora Record em 1998.

Nesse período, escreve outros textos. Primeiramente, em 1989, o ensaio O país da bola, saudado pelo Jornal do Brasil com a primeira página do Caderno B. Traduzido e editado na França durante a Copa do Mundo de 1998, o livro é bem recebido pela imprensa francesa e entra na seleção dos indicados pela revista Le Nouvel Observateur.
De 1991 a 1994, escreve A paixão de Lia, um romance em que erotismo e lirismo se confundem. A crítica o saúda pelo imaginário e pela delicadeza.

Antes do lançamento da versão francesa de O Papagaio e o Doutor, em 1997, escreve uma série de 29 crônicas sobre Paris, que são primeiramente publicadas no Jornal da Tarde, de São Paulo, e depois reunidas em livro. Paris não acaba nunca, lançado pela Record em 1996, registra grande sucesso de venda no Brasil, é traduzido para o francês e o inglês e publicado on line em Paris pela editora virtual 00h00.com. A versão francesa é da própria autora, que, tendo vivido duas décadas entre o Brasil e a França, reescreve a obra em francês. Em 2004, o livro é traduzido do francês para o chinês e editado em Pequim.

A partir de 1993, valendo-se do fato de morar em Paris e ser colaboradora de grandes jornais brasileiros, passa a fazer entrevistas especiais com artistas e intelectuais estrangeiros para o suplemento Mais da Folha de S. Paulo, jornal no qual já colaborava desde 1980. Tem então a oportunidade de entrevistar escritores, artistas e pensadores como Nathalie Sarraute, Octavio Paz, Michel Serres, Jacques Derrida, Françoise Sagan entre outros. As entrevistas são reunidas no livro A força da palavra em 1996, e a Record passa a ser a principal editora de suas obras.

Ato contínuo, a Folha de S. Paulo encomenda dez entrevistas sobre o século XX, tendo como temas a cidade, a guerra, a terra, o desterro, a vida, as mulheres, o sexo, a língua, a arte e a comunicação. As entrevistas realizadas com dez grandes intelectuais europeus também são reunidas em livro, O século, que, publicado pela Record, ganha o prêmio de crônica da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1999.

Em 1998, Betty Milan é convidada de honra do Salão do Livro de Paris, em cujo contexto são lançadas as versões francesas de Os bastidores do Carnaval (Rio, dans les coulisses du carnaval) e O país da bola(Le pays du ballon rond) pela Éditions de l’Aube, a mesma que havia lançado O Papagaio e o Doutor(Le Perroquet et le Docteur).

Em 1994, torna-se membro do Parlamento Internacional dos Escritores para o qual trabalha ativamente até conseguir que Passo Fundo (RS) integrasse a rede de cidades-refúgios do Parlamento.

De 1996 a 2000, escreve O clarão, uma obra que pode ser qualificada de “romance de sabedoria”, cujos temas são a amizade e a morte. O clarão é lançado em 2001 pela Editora de Cultura como parte de um movimento de educação para a paz, que reúne vários intelectuais e artistas, o Projeto Amizade no Terceiro Milênio (PATM). O livro se torna finalista do Prêmio Passo Fundo de Literatura, é adotado pela Secretaria de Educação das prefeituras de São Paulo (SP) e Goiânia (GO) e é seguido da publicação de A cartilha do amigo, criada especialmente para o público escolar e também adotada, tornando-se uma bem-sucedida incursão na literatura infantojuvenil. Em 2002, ano em que faz pioneiramente um bate-papo na internet, respondendo a questões livres dos internautas, adapta A paixão de Lia para o teatro, texto que é lido pela atriz Giulia Gam com direção de José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, no Auditório da Folha.

Em novembro de 2003, lança o romance O amante brasileiro, em parte inspirado no bate-papo. O romance também é adaptado para o teatro e estreia, em agosto de 2004, no Teatro Oficina sob a direção de Fransérgio Araújo.

Em 2005, escreve a peça Brasileira de Paris, lida no Auditório da Folha em 8/03/2006, Dia Internacional da Mulher, com direção de Marcelo Drummond. Depois de ter colaborado, durante 25 anos na Folha de S. Paulo, torna-se colunista do jornal em 2005, respondendo a questões sobre o amor, o sexo e a morte. Em 2007, com edição da Record, os textos da coluna são reunidos no livro Fale com ela, com grande repercussão na imprensa. A revista semanal Veja convida a autora para fazer o consultório sentimental de sua edição on line, e ela se torna colunista da Veja.com.

Em 2008, lança Quando Paris cintila, que reúne 33 crônicas escritas em Paris, mas com ideias surgidas em diferentes lugares onde a autora esteve: Oslo, Istambul, Tessalônica, Pequim, Dunhuang, Madras, Ouro Preto, Nova York. Simultaneamente, sai uma edição revista de Paris não acaba nunca.

Em 2009, a ação da autora repercute em várias frentes. Na internet, a revista virtual de cultura Agulha relançou algumas das entrevistas feitas para os livros O século e A força da palavra, que se encontravam esgotados na mídia impressa: Veja a convida para fazer uma coluna mensal na revista, onde ela escreve a partir de maio. Uma nova estreia literária ocorre em agosto, no Rio de Janeiro e em São Paulo, com o romance Consolação, recomendado pela Veja e considerado ótimo pela Folha de S. Paulo. No campo da videoarte, o poema “Paris, adeus” ganhou interpretação na voz da atriz Bete Coelho e nas imagens de Paris capturadas pelo diretor Mathias Mangin – levada ao ar pela TV Cultura em agosto. No teatro, depois da leitura de Brasileira de Paris no Teatro Oficina, em janeiro de 2008, dirigida por Marcelo Drummond, chega a vez da leitura dramática de Adeus Doutor, no Théâtre du Rond-Point, com direção de Jean-Luc Paliès, em outubro de 2009. Houve uma segunda leitura dramática no Sesc Santana, em março de 2010, com Bete Coelho e Zé Celso e uma terceira, em agosto de 2011, na ECA, com os alunos de teatro e direção de Jean-Luc Paliès.

Em 2011, é lançado Quem ama escuta reunindo as melhores colunas do Consultório Sentimental da Veja.com. Teve grande repercussão na imprensa nacional.

Adaptando as crônicas mais expressivas desse livro, escreve em 2012 A vida é um teatro, que é encenada pelo grupo Vozes no Teatro da Livraria da Vila e apresentada no Congresso Literário Fliporto. Nesse mesmo ano, a Record faz uma edição revista e ampliada de A força da palavra.

No ano seguinte, Carta ao filho foi lançado em São Paulo com grande repercussão na imprensa e, considerado pela historiadora Mary del Priore como a primeira autobiografia publicada por uma autora no Brasil.

Em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil, o ensaio O país da bola foi reeditado com novo prefácio escrito pela autora. Antes de escrevê-lo, Betty Milan entrevistou Platini e ouviu dele que o Brasil é mesmo O país da bola pois “é tão importante para os torcedores do mundo inteiro irem para o Brasil quanto para os muçulmanos irem à Meca”.

O ano de 2015 é o da edição de Teatro Lírico/Teatro Dramático pela Editora Giostri, que reúne  num só livro as peças líricas e dramáticas da autora. Seguiu-se, em 2016, a edição de A Mãe Eterna, com grande sucesso de crítica e de venda. A primeira edição do livro com 8.000 exemplares se esgotou em duas semanas.

O percurso de Betty Milan, que se exercita com sucesso no ensaio, no romance, na crônica, no teatro e na entrevista, é o de quem se interessa por muitos temas e erra livremente de um para outro. Não é por acaso que Paris não acaba nunca é dedicado “aos que sabem errar”. A palavra errante se aplica perfeitamente bem a esta autora, cuja irreverência decorre do fato de pular sem culpa de um para outro galho, recusando assim a máxima que norteia a maioria dos intelectuais brasileiros: “Cada macaco no seu galho”. Precisamente por não ter obedecido a ela, foi ouvir os carnavalescos e introduziu na cultura brasileira o conceito novo do brincar, pelo qual Gilberto Freyre muito se interessou.

Pela independência e ousadia, que também são características da heroína de O Papagaio e o Doutor, Betty Milan diz não aos diferentes imperialismos e incita a amar o Brasil sem cair no nacionalismo, posição incompatível com a sua maneira de ser, com um cosmopolitismo de que ela não parou de dar provas, indo continuamente de um para outro país, de uma para outra cultura.

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