As manhas do poder – Crítica

As manhas do poder

 

Paulo Sérgio Pinheiro (1)

Depois de longa experiência com o regime autoritário, talvez tenhamos nos habituado a crer que o poder se reduz à repressão e à violência. Dentro da própria teoria política já são, entretanto, numerosos os estudos que demonstram o peso dos instrumentos ideológicos e simbólicos na coerção que o poder usa para se sustentar. E, a fim de ampliar essa demonstração, é oportuno recorrer a estudos provenientes de outras áreas, como a psicanálise e a lingüística. Através de seus ensaios, por exemplo, a psicanalista Betty Milan tenta colocar a questão em alguns espaços diferentes do propriamente político, para mostrar que, apesar de a força ser sempre imanente ao poder, a violência pode ser simbólica.

O primeiro ensaio se passa num centro da umbanda do Rio de Janeiro, o da Vovó Conga de Angola, mãe-de-santo que exerce a materialização de feitiços, uma ilusão da onipotência do poder. O segundo também trata de um centro de umbanda, em São Luís do Maranhão, e analisa o poder através da simulação. “O desengano do manicômio” é uma atualização do confronto entre a instituição psiquiátrica e a Justiça através de um negro de Madagascar. Conforme mostra Betty Milan, o psiquiatra está sujeito, no manicômio, a uma lógica que o determina. Lá, seu poder é imaginário. Finalmente, o último ensaio trata a questão da iniciação, tomando como ponto de partida um relato de Carlos Castañeda.

Esses relatos, na sua diversidade, abrem a possibilidade de se fazer o mesmo exercício em outros contextos. A palavra do professor na universidade e a palavra do patrão (através do regulamento) nas fábricas talvez sejam outros espaços que o livro Manhas do poder ajudará a ver mais claro. Para não nos enredarmos nessas artimanhas.

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1. Paulo Sérgio Pinheiro é professor universitário e tem atuação internacional em direitos humanos no quadro das Nações Unidas. Fundador do Núcleo de Estudos sobre a Violência da Universidade de São Paulo, é autor, entre outros trabalhos, de Escritos indignados: Polícia, prisões e política no Estado autoritário. Artigo publicado na revista IstoÉ, 13/06/1979.